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Desencavei: Fanfic - Lúcifer em Soberba versus Inveja VII.XIV.L.L.L.

Então, como eu tinha falado logo no post de abertura aqui do Bagulhos Sinistros, eu ia postar algumas coisas que eu ia desencavar ;) E eis a primeira delas. Tem um tempinho que eu escrevi essa fanfic sobre o Lúcifer do Sandman do Neil Gaiman e com várias outras referências... e resolvi postar. 
Lúcifer em Soberba versus Inveja VII.XIV.L.L.L. 
Um conto de Ana Death

Lúcifer estava sentado à beira do mar, com seus longos cabelos negros presos, mesclando-se normalmente aos mortais que por ali passavam. Apenas outros caídos como Ele poderiam ver a marca que o distinguia...

E Ele pensava que este seria apenas mais um dia calmo desde que abrira mão de governar o Inferno. Não que só tivera dias calmos a partir de então, mas predominava a calmaria. Até que fora sugado, quase literalmente, por uma das mais antigas invocações.

Ele ainda se lembrava de quando havia caído, na Terra, e fora amparado por uma garotinha sem voz após ter sido apedrejado. Lembrava-se do dom que a ela concedera – o da cura – e de devolver-lhe sua voz que Deus havia lhe roubado. Eram coisas como essas que, após a guerra, fizeram com que Ele abandonasse o Inferno para viver na Terra.

Mas os mortais conseguem ser piores que os demônios criados por eles mesmos. Mortais e seus dogmas. Mortais e seus pecados.

Dos VII que os humanos transformaram em “responsáveis” pelos “pecados capitais” que eles mesmos inventaram e eles próprios cometiam pelo seu tão querido “livre arbítrio”, Lúcifer era o único que, como sempre, também de sua própria vontade, decidira abandonar seu posto no Inferno para viver na Terra.

Porque Lúcifer era um Anjo, e não um Demônio. O Portador da Luz, o mais belo dentre os anjos, e a Soberba lhe fora atribuída e a Ele associada por mortais cujo maior prazer aparente era o de transformar em demônios anjos e deuses que não eram os de suas crenças. Soberba. Algo que não o definia. Lúcifer é nobre. Sua palavra é Lucidez. 

Sim, Ele abandonara seu posto, mas a Humanidade o demonizara e, por um tempo, Ele aceitara tal papel, como forma de vingança pela condenação de um vilarejo inteiro a uma pobre criança que o ajudara quando Ele estava ferido e recém-caído...

Mas os demônios internos dos seres humanos eram sempre mais fortes e, por vezes, muito mais desprezíveis, do que aqueles que a Humanidade criara nos primórdios da Era Governada pelo Cristianismo. Lúcifer havia garantido seu lugar na Terra, livre dos grilhões do Inferno, porque mesmo sendo o seu antigo regente, Ele não ficava feliz em ver a tortura e os horrores que lá ocorriam. Se muitos forem parar para observar, na Terra são cometidos os mesmos crimes e as mesmas coisas aterrorizantes, só que no Inferno uma vez regido por Lúcifer, tais horrores eram perpetrados repetidas vezes, em ciclos, por toda a eternidade. E sem momentos felizes como interlúdio. Graças, ironicamente, aos próprios demônios internos de cada mortal impuro que caminha sobre a Terra, Lúcifer, o Imortal, havia garantido nela seu lugar, enquanto uma única centelha de Soberba reinasse n’algum coração corrompido...

*** 

– Malditos selos, mortais e suas malditas invocações! Mas mal sabem eles o que fazem a si mesmos – proferiu Lúcifer no vácuo, antes de materializar-se, com suas asas, brancas, puras e imaculadas, em meio àquele círculo perfeitamente montado.

***

Lúcifer já era belíssimo e, tendo desenvolvido, no decorrer dos milênios, a capacidade de moldar sua aparência para algo cada vez mais belo, sem ilusões, apenas revelando sua verdadeira beleza já existente, cada vez mais livre, graças às naturezas boas e às boas ações de não poucos, mas não tantos, mortais que conhecera e com quem convivera por todo esse tempo, que alimentavam sua aura de Anjo, Ele só se tornava cada vez mais atraente para os mortais, especialmente para as mulheres, muitas vezes mais sensíveis a toda a energia emanada por Ele.

Após a ajuda, a primeira, daquela garotinha inocente, que Ele jamais esquecera, aquela que ascendera aos céus por carregar um coração tão puro, apesar de ter sido condenada por todos do vilarejo em que morava como serva do Demônio – incluindo seus pais –, Lúcifer buscava amantes adultas, de coração puro e, em milênios, eram poucas, mas duradouras, suas relações com as mortais escolhidas.

Elas eram sempre belas, mas geralmente lhes faltava algo que Ele lhes podia conceder, além de seu amor verdadeiro e de sua paixão... e, pelo menos, umas cinco artistas famosas de quem, muito provavelmente, você já ouviu falar, estiveram nos braços ternos e afáveis do anjo-demônio. 

Não eram tantos os atrevidos que conseguiam ser audazes o suficiente para invocá-lo, a Ele, Lúcifer. A maioria invocava demônios inferiores, ou apenas continuava a alimentá-lo, a alimentar sua imortalidade, da mesma forma, ironicamente, como crianças, artistas, poetas e sonhadores tornam seres como Titânia, Oberon, Puck e Mab imortais – com seus sonhos, com sua inspiração, com sua inocência.

Só que com Lúcifer, uma vez que a inocência havia sido há eras perdida, Ele sabia que nada disso adiantaria. A inocência perdida não pode ser recuperada.

Embora alguns que ainda o consideravam o Anjo da Luz o alimentassem com coisas boas, era a grande maioria que o tornava forte, ironicamente, os que o demonizavam. Os que lhe davam mais poder, cada vez mais poder e centelhas praticamente infinitas de uma vida imortal – pois enquanto mortais caminhassem na Terra, eles sempre haveriam de criar seus demônios e seus pecados, e jamais parariam de alimentar a Lúcifer. E mesmo que a redenção a Ele chegasse, um sonho e desejo d’Ele, mas quase impossível pela própria natureza humana... e mesmo que todos que caminham na Terra voltassem a idolatrá-lo como o Anjo que fora e ainda era, Lúcifer haveria de sempre ser Imortal, até o fim dos tempos. Como se os tempos pudessem mesmo ter um fim...

Ironicamente, era a Soberba, uma não-virtude segundo a visão da maioria dos próprios mortais, que como a irmã feia do Glamour das fadas e dos elfos, servia-lhe de alimento. 

Mas a vida imitava a arte, como um de seus escritores prediletos costumava dizer. Aquele escritor que, em seu próprio julgamento, em vez de se defender, ah, Oscar Wilde!, foi ao cárcere pela “Soberba” de continuar a pregar o que pensava da sociedade inglesa e de seus costumes hipócritas e moralistas!

E, como aquele personagem loiro de cabelos espetados dos quadrinhos que lera um dia, o que invocava demônios e até os enganava colocando água benta em sua cerveja – Lúcifer esboçou um sorriso, pois sempre haveria alguém para chamá-lo do jeito certo.

E ali estava Ele, à frente de um garoto que não aparentava ter mais de quinze anos! 

***

Lúcifer teve alguns filhos com belíssimas mortais, mas nada disso de Nephilim, uma invenção humana, filho daquilo que vieram a chamar de O Anticristo – e isso nada tinha a ver e nunca teve a ver com Ele, o Anjo da Luz. Lúcifer passava a Lucidez a seus filhos, assim como alguns de seus outros dons, o que os tornavam humanos especiais, geralmente artistas, como as mães, Iluminados, como o pai. Nascidos de um momento de pleno Amor, não carregavam nenhuma marca, como o pai, e, feliz ou infelizmente... eles morriam.

O último enterro de um de seus filhos foi algo triste. Chovia. Trovejava. E a mãe, com a face manchada pela chuva, pelas lágrimas e pelos resquícios de maquiagem que não a desfiguravam, somente destacavam em seu belíssimo rosto a estampa de sua dor, ela apenas sorriu quando viu um homem com asas branquíssimas empoleirado ao longe. E o vento foi levando até ela uma única pena branca daquela asa imaculada, da asa de seu antigo amor, para que ela nunca se esquecesse de que Ele era um Anjo, e não um demônio. E também, que a Morte sempre bateria à porta dos humanos. E era por esse motivo que eles não poderiam ter ficado juntos, tal como os pais de Hércules.

*** 

Por que no inferno uma criança de apenas seus XIV anos estava com aquela pena em sua mão? Manchada de sangue como se fosse um fetiche sarcástico, uma zombaria cruel? Cruel e desnecessária, completamente desnecessária para a invocação!

E, como alguém saindo do torpor de uma forte anestesia, Lúcifer se lembrou. E seu grito de dor só não ensurdeceu o planeta inteiro porque Ele estava trancafiado num Círculo! Fazia XIV anos que seu último filho havia morrido. E, sem lágrimas, Ele teve um rápido vislumbre da verdade. A marca distinta. Aquele era o meio-irmão de seu filho. Filho de Leviathan! O maldito demônio da Inveja!

Traição. Dor. Perda... Não há palavras suficientes em idioma algum para descrever em sua plenitude o que Lúcifer sentiu naquele exato instante! Num clarão de sua visão, Ele apenas soube. Leviathan infectara sua última amada. Naquele mesmo dia, no dia do enterro. À noite. Disfarçando-se de Lúcifer, fizera amor com ela – Amor?!? –, como se fosse uma última vez, uma despedida, e Helena sentiu algo estranho, quando olhou no fundo dos olhos dele... ela sabia que ele não era Ele... mas já era tarde demais! Leviathan era forte e já a havia subjugado! E ela esperava um filho dele. Morrendo – talvez de desgosto – ao dar à luz aquele monstro.

Como tudo isso ficou oculto d’Ele, de Lúcifer, o mais poderoso dentre os Anjos? Tal tramoia sórdida, infame?! Ele sempre acompanhava e protegia suas amadas e seus filhos! Mesmo mantendo a necessária distância. Como isso pôde acontecer?

A resposta veio dos lábios enegrecidos do garoto:

– Ao contrário de seus filhos, eu nasci meio demônio. E pretendo ser um completo e, por ser melhor e mais esperto do que você, Eu clamo, a partir de agora, seu lugar no Inferno!

Mas essa não era uma resposta satisfatória para Ele, Lúcifer, por não ter ficado sabendo do horror que estava sendo perpetrado a sua amada, e então Ele buscou mais fundo, encostando sua pura mão na pele, já meio pútrida, do garoto. E Ele viu.

A dor da perda do filho, mesmo com a tentativa de Lúcifer de fazer sua amada entender que aquele era o fluxo das coisas, abriu uma brecha na proteção dela naquela ocasião, da qual o Demônio da Inveja se aproveitara. E a pena de sua asa, que era para servir a ela de recordação d’Ele, fora usada contra Ele por Leviathan. E, durante XIV anos, isso lhe ficara oculto. Sua dor era indescritível. Mas Ele era Lúcifer, afinal.

Em meio às lágrimas de sangue que vertiam de seus olhos, Ele entendeu tudo, e soltando um sorriso triste, disse:

– Você se aliou a demônios inferiores, e serviu-se de magias baixas, criadas para ludibriar aqueles que têm alguma pureza no coração com a ajuda de seu Pai. Eu posso ter perdido minha inocência, mas a chama da Pureza permanece acesa e brilha na Luz que me nomeia!

E o clarão que inundou aquele quartinho sujo de motel de quinta categoria à beira da estrada n’algum lugar ermo do Texas espalhou-se, a Luz enviada por Lúcifer invadiu os arredores, iluminando-os, como se a Noite tivesse virado Dia, mesmo que por alguns segundos.

“Lendas urbanas” dizem, e são repetidas até hoje, que neste dia, assassinos largaram suas armas, e saíram com olhos arregalados, andando para trás, entre outras coisas estranhas naquelas redondezas. Mulheres não foram estupradas, crianças não apanharam de seus pais.

E o Fruto da Inveja ainda tinha a Soberba de querer ser melhor do que Ele, a Estrela da Manhã? Lúcifer proferiu as seguintes palavras:

– Dê-me a pena com o sangue e poderás reger o Inferno do qual um dia Eu fui o regente.

A criança, tola, feliz em sua Soberba, entregou-lhe a pena num piscar de olhos, junto com o sangue que vinha de sua própria mão, d’um corte aberto.

Lúcifer fechou seus lindos olhos por um adejar de asas e proferiu palavras num idioma tão antigo que nem os humanos mais eruditos conheciam.

– Qual seu nome mortal, criança?

Embora ofendido com a repetição da palavra “criança”, ele respondeu: – El.

Lúcifer franziu o cenho. El, o sufixo usado para os nomes de vários anjos na mitologia cristã. Que significa “De Deus”. Mas não era isso. Apesar de ser uma bela piada de mau gosto, Lúcifer lembrou-se. Em inglês, El era a inicial de seu nome! E do pai do meio demônio! A Soberba havia sobrepujado a Inveja, pois fora a Lúcifer que o filho de Leviathan recorrera, e não ao Pai.

Com um sopro de Lúcifer, daquela pena manchada de sangue em suas mãos, emergiu um pequeno rouxinol.

Com o pequeno e delicado pássaro ainda em mãos, a voz do Anjo fez o quartinho do motel estremecer, embora parecesse que os outros nada ouviam. Ah, o Círculo de Quietus!

– El, você haverá de assumir, por sua extrema Soberba, a soberania do Inferno. Eu não lamento por você. E nem se sinta vencedor. Eu abandonei aquele lugar. E sua mãe agora vive novamente.

Ele fez uma pausa, olhou para cima, por um instante, e continuou com seu discurso:

– A maioria dos mortais que faz esse tipo de barganha comigo cumpriria uma pena de apenas VII anos, o tempo em que ficariam lá, “reinando” em meu lugar. Mas você, por sua extrema Soberba, e por ter matado a mãe de meu filho, haverá de reger o Inferno por VII milênios. Não o agradeço apenas por ter libertado a alma da sua mãe, após ter sido usada e ter ficado vagando por lugares em que não gosto nem de pensar, pois os conheço muito bem. Usada por Leviathan, agora aquela alma frágil e bela recebe nova vida neste pássaro. Agradeço-lhe também por me libertar de ter de correr atrás de algum outro mortal estúpido e com Soberba de sobra a cada VII anos, pois fazia tempo que algum ser com um alto grau de petulância não ousava me invocar do jeito certo. Você será o regente do Inferno por VII milênios, deixando-me livre para viver aqui, entre os mortais, e não mais nessa espécie de liberdade condicional em que vivi até agora. Livre, enfim, como a alma de sua mãe agora está.

Lúcifer parou de falar por um instante, engolindo em seco, e cerrando os olhos por breves milissegundos, apenas para fitar o verme à sua frente e passar um recado:

– Se você encontrar seu pai por aí – o monologo de Lúcifer não fora interrompido pelo garoto, fosse por estar pasmo, ou apenas por não saber realmente o que dizer – avise-o de que o tiro saiu pela culatra, também uma expressão interessante que aprendi com os mortais. E não deixarei de amar as mulheres, nem de ter filhos com elas, pois você, nascido da Inveja e movido pela Soberba, realizou um de meus maiores desejos: VII milênios de vida livre na Terra.

E Lúcifer sorriu mais uma vez, com o rouxinol arrulhando em seu ombro, em sinal de concordância, também feliz.

E a forma verdadeira do garoto, agora um demônio completo, foi se formando à frente de Lúcifer, ao mesmo tempo em que se esvaía, descendo para os Infernos e quebrando o círculo, libertando Lúcifer e o rouxinol.

A forma-demônio do garoto, El, era horrenda, indescritível, pois ele mesmo foi se demonizando com o passar de seus XIV anos. E, como ele havia tido seu desejo concedido, o círculo agora se abrira por completo, desfeito, tal como os grilhões que ainda prendiam Lúcifer ao Inferno. E El praguejava – não que adiantasse – enquanto descia ao Inferno, cujo regente atual já não passava de uma mera coisa disforme do que um dia fora aquele mortal. Regente deposto, L tornou-se o líder do pior lugar já sonhado por alguns humanos e que, para outros, não passa de um pesadelo incômodo. Para outros tantos, bem incômodo.

O antigo regente foi parar no limbo, e se terá ou não uma segunda chance, essa é outra história, pois depende dele mesmo. Ele foi para o que Dante descreveu como Purgatório.

Demorou eras para que L percebesse a estupidez do que havia feito, fruto de sua Soberba, e preso no antigo Inferno de Lúcifer, nunca chegou a ter sequer contato com Leviathan, seu próprio Pai. Pelo menos até agora, pois eras se passaram no Inferno, mas na Terra, passaram-se apenas cinco anos desde que esta história aconteceu.

O rouxinol ainda está vivo, seu canto é belíssimo, e o pássaro-fêmea já tem até filhotinhos, mas costuma ir atrás de Lúcifer toda vez em que Ele se senta para ver o pôr-do-sol, seja em frente ao mar, ou a uma nascente que o faz lembrar de sua amiga querida que lhe abrigara pela primeira vez na Terra.

E Lúcifer venceu mais uma guerra. E, embora a Soberba humana ainda persista, é a L que ela é direcionada, o Demônio Regente do Antigo Inferno de Lúcifer. Porque Lúcifer, bem... Ele é um Anjo.

– Não é, meu amor?

15.01.2011
Autora: Ana Death Duarte

Direitos autorais reservados. Proibida a reprodução em qualquer mídia sem autorização da autora por escrito. 





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