Crítica do filme: Viva - A vida é uma festa, um filme de Lee Unkrich, vencedor do Oscar de melhor animação (Disney/Pixar)

Quase todas as críticas que li depois de assistir a esse belíssimo filme citaram “Festa no céu”, de 2014, da Fox como um filme similar… muitos até mesmo desmerecendo a nova animação da Disney/Pixar por isso. O que faz tanto sentido quanto dizer que todos os filmes sobre alguma história de Natal são a mesma coisa e todas as animações japonesas sobre yokai também o são. 

Na verdade, falando em animação japonesa, em termos comparativos, uma crítica mencionou “A viagem de Chihiro”, o que realmente faz um pouco mais de sentido. Um dos focos principais de “Festa no céu” é o  amor entre um homem e uma mulher. Sim, também fala da dúvida entre seguir as expectativas da família ou seguir o coração e tem o lance da música. E tem o mundo dos vivos, dos esquecidos e dos lembrados. Mas isso faz parte da cultura mexicana - e, por muitas críticas que vi, parece que o filme da Pixar agradou bastante aos mexicanos pelo respeito com que abordou a cultura deles. Tirando esses elementos, os dois filmes são completamente diferentes (eu, particularmente, gostei de ambos, mas as cordas do meu coração que “Viva - A vida é uma festa” tocou vibraram com um som mais profundamente marcante .) Além dos temas em comum com muitas animações para a família, as cordas tocadas por essa animação da Disney/Pixar são meio que únicas, e podem induzir às lágrimas logo no começo… 


Mas, voltando às comparações… tanto “A viagem de Chihiro” quanto “Viva - A vida é uma festa” abordam uma viagem por um mundo espiritual e por meio dessa jornada, a criança que é a protagonista evolui, em ambas as animações,  aprendem muita coisa e crescem. No entanto, as mensagens individuais desses três filmes são bem diferentes. 


No México, o Día de los Muertos é uma festa que celebra a vida, e a partir disso é interessante notar como os títulos do filme da Fox e da Pixar em português incluem a palavra “festa”. Curiosidades: O título original de “Festa no céu” é “The Book of Life”, e o Livro da Vida, presente no filme, contém várias histórias, entre elas aquela baseada nas tradições mexicanas, envolvendo os três mundos que citei acima. Já “Viva - A vida é uma festa” segue um pouco a tradição de títulos adaptados como “Zootopia: Essa cidade é o bicho”, “Sing - Quem canta seus males espanta”, entre outros. O título original do filme da Pixar é “Coco”, que seria o apelido da vovó, chamada Socorro, no original que tem um papel importantíssimo no filme. Dá para entender por que no Brasil foi mudado, não?

Voltando… ambos têm a palavra festa no título em português, o que faz muito sentido, pois, como falei, o Día de los Muertos é uma festividade, com músicas, comidas e muitas cores, uma celebração antiga que já ocorria antes da chegada dos espanhóis na América. Se aqui no Brasil a palavra de ordem no Dia de Finados parece ser a melancolia, lá ocorre o oposto. 


Então, tendo isso em vista, o filme em si não é mórbido. Alguns temas, sim, são inquietantes. Não vou colocar spoilers aqui, mas alguns temas podem parecer pesados para os menos acostumados a pensar na morte. Ser esquecido, ser lembrado, famílias, memórias e mal-entendidos, coisas que podemos literalmente levar para o túmulo sem resolução… Mas esses temas só parecem pesados para alguns porque meio que somos levados a temer a Morte. 

Para uma fã de Neil Gaiman e de Sandman e da Morte, sua irmã mais velha, como eu... bem, eu já vejo as coisas de forma diferente. Mas ainda hoje várias pessoas se assustam ao notarem que uso o “Death” no meu nome. Muitos associam caveiras a coisas “do mal” (Oi? O próprio símbolo de perigo, não?), mas o que temos por baixo da pele senão caveira e ossos e cartilagens e tudo o mais? O que todos nós temos, os pontos em comum. Como nesses filmes, são as singularidades que fazem toda a diferença. 

Encarar nossa mortalidade pode ser assustador, sim. Mas é essa mesma mortalidade que torna a vida algo a ser vivido ao máximo, o que o título em português praticamente nos manda fazer: viver. 

Em termos de animação, é incrível o uso das cores, das texturas das peles, dos vincos e das nuances, uma beleza que encanta muito, tal como já tínhamos visto em “Moana - Um mar de aventuras”. O realismo na água então, fantástico. Ao contrário do galo  em Moana, o cachorrinho bobão não me cansou em momento algum, pelo contrário, me fez rir muito. E ele não é irrelevante e apenas um alívio cômico na história. Embora ele seja cômico, e muito.  E não creio que ele se chame Dante à toa... hehe ;)



Alegrando os olhos com beleza e cores, puxando várias cordas de nossos corações e torcendo-os, “Viva - A vida é uma festa” é um filme encantador e que fala tanto às crianças quanto aos adultos. Que mostra como podemos estar errados e que ser cabeça dura pode levar a mais erros e tristeza, e que não há problema algum em perdoar, nem em admitir erros, mesmo estando relutantes a princípio. E nos lembrando do Memento Mori. Bem lembrado em obras diversas, como em Game of Thrones com seu Valar Morghulis e na mais recente série do Justiceiro no Netflix, cuja season finale se chama justamente Memento Mori. Apesar do final “feliz”, digamos assim, “Viva - A vida é uma festa” é um filme agridoce. Mas que nos lembra de que viver é mais do que apenas existir. 

Lembre-se de que você é mortal. Lembre-se de que você vai morrer e de que, sim, um dia todos esquecerão você. Por isso mesmo, até, lembre-se de viver. 

Nota: 5 de 5 Catrinas. 

Ps.: O filme já faturou o Globo de Ouro de melhor animação. 
E, como vocês podem ver aqui, a ideia da Dinsey/Pixar de fazer um filme sobre o Día de los Muertos que se passa no México é beeeem antiga e foi anunciada faz tempo. 




Bônus: O Almoço de Dante - Um Conto Curto





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