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Crítica do filme Estranhos Prazeres, um filme de Kathyrn Bigelow, de 1995

Constando na lista de 1001 filmes a ver antes de morrer (o livro), nas edições de 2003 a 2016, o filme “Estranhos Prazeres” pode até ser um clássico cult, sim, e pode constar em várias listas como um filme cyberpunk também, no entanto, após assistirmos ao filme e realizarmos um debate no curso Cyberpunks: Da literatura ao cinema, ficou bem claro que se trata apenas de um filme que tem sim elementos do gênero, mas que lhe faltam muitos outros elementos cruciais do cyberpunk. 

Cyberpunk ou não, vale mesmo a pena ver esse filme?

Na minha opinião, sim. Porém, para mim se trata de mais um filme que tinha um potencial muito bom para abordar de forma profunda questões sociais importantes (e tão antigas quanto atuais, como nos lembra o movimento #BlackLivesMatter), mas que é falho justamente na forma como embrulha tudo com uma fita bonitinha no final, e na forma rasa como várias subtramas são abordadas. 

Com uma ambientação technoir, algumas pinceladas de cyberpunk, mas bem na superfície, esta obra tem lá seus méritos. Uma delas é uma frase que pode até passar meio batida para muitos, mas que me chamou bastante a atenção, sobre a memória, que, segundo Faith, foi feita para esvanecer. Se autores como Philip K. Dick, por exemplo, abordam temas como o que é real e qual a importância das memórias na definição do ser humano, “Estranhos Prazeres” nos leva a analisar isso sob outra ótica. O que me lembrou o Batman de Nolan - afinal, são as ações ou as memórias que nos definem? e me levou a pensar em : Viva - a vida é uma festa”, em que as memórias também desempenham um papel fundamental e crucial, e o que me lembrou de um poema de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa):

Se te Queres Matar
Se te queres matar, por que não te queres matar? 
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida, 
Se ousasse matar-me, também me mataria... 
Ah, se ousares, ousa! 
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas 
A que chamamos o mundo? 
A cinematografia das horas representadas 
Por atores de convenções e poses determinadas, 
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím? 
De que te serve o teu mundo interior que desconheces? 
Talvez, matando-te, o conheças finalmente... 
Talvez, acabando, comeces... 
E, de qualquer forma, se te cansa seres, 
Ah, cansa-te nobremente, 
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira, 
Não saúdes como eu a morte em literatura! 

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente! 
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém... 
Sem ti correrá tudo sem ti. 
Talvez seja pior para outros existires que matares-te... 
Talvez peses mais durando, que deixando de durar... 

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado 
De que te chorem? 
Descansa: pouco te chorarão... 
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco, 
Quando não são de coisas nossas, 
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte, 
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros... 

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda 
Do mistério e da falta da tua vida falada... 
Depois o horror do caixão visível e material, 
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali. 
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas, 
Lamentando a pena de teres morrido, 
E tu mera causa ocasional daquela carpidação, 
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas... 
Muito mais morto aqui que calculas, 
Mesmo que estejas muito mais vivo além... 
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova, 
E depois o princípio da morte da tua memória. 
Há primeiro em todos um alívio 
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido... 
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente, 
E a vida de todos os dias retoma o seu dia... 

Depois, lentamente esqueceste. 
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente: 
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste. 
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada. 
Duas vezes no ano pensam em ti. 
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram, 
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti. 

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos... 
Se queres matar-te, mata-te... 
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ... 
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida? 

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera 
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor? 

Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida? 
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem. 
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma? 

És importante para ti, porque é a ti que te sentes. 
És tudo para ti, porque para ti és o universo, 
E o próprio universo e os outros 
Satélites da tua subjetividade objetiva. 
És importante para ti porque só tu és importante para ti. 
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim? 

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido? 
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces, 
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial? 

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida? 
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente, 
Torna-te parte carnal da terra e das coisas! 
Dispersa-te, sistema físico-químico 
De células noturnamente conscientes 
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos, 
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências, 
Pela relva e a erva da proliferação dos seres, 
Pela névoa atômica das coisas, 
Pelas paredes turbilhonantes 
Do vácuo dinâmico do mundo... 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterônimo de Fernando Pessoa 

Já notei que ando lendo livros e assistindo a filmes e séries em que se questiona muito isso do que é real ou não (seja em termos oníricos, de ponto de vista, ou mesmo com a realidade virtual, como em Cidade dos Sonhos, de David Lynch, o episódio Real Life de Philip K. Dick’s Electric Dreams ou Mr. Robot) e qual o papel da memória na definição do ser humano, de nossas vidas e de nossos feitos. Em “Estranhos Prazeres”, há todo um submundo com um mercado negro de “venda” de memórias, em que as pessoas vivenciam uma espécie de realidade virtual em que elas sentem e vivenciam memórias dos outros. Alguns elementos do filme são pesados, especialmente no lance dos clipes snuff (o que me levou a pensar no filme 8 milímetros). O vício nesses clipes é intenso, assim como as férias virtuais em que se “vive” uma outra pessoa no supracitado Real Life. No entanto, mesmo que o episódio supracitado não seja excelente, pode-se dizer que é mais cyberpunk do que Estranhos Prazeresisso é fato. No filme, há ainda uma crítica a empresários e como eles lidam com seus artistas, mas que também poderia ser mais bem explorada, o que também não ocorre. 


Com um bom elenco, de atores bons e bem conhecidos, “Estranhos Prazeres” lida com temas que um bom filme de ficção científica abordaria mais profundamente, mas assim como suas ligações com o cyberpunk são apenas um verniz por cima do quadro de um thriller de ação, especialmente o terceiro ato aniquila muitos pontos positivos anteriores. O que é uma pena, pois eu gostei muito da proposta, que não teve o desenvolvimento merecido. Alguém escreve uma fanfiction com um final melhor, que tal? :)

Muitas coisas são mostradas de modo a deixar o espectador enojado, e isso é de fato, contundente. O “protagonista” está longe de ser um herói, ele tem hábitos de stalker, entre 1001 defeitos que poderiam ser listados. No entanto é Mace, a amiga dele, que acaba roubando e muito a cena, com uma personagem feminina forte e incrível, uma atuação muito boa, que também foi afetada pelo final que tentou ser felizinho e acabou estragando o que poderia ter sido um filme acima da média. 



Breve interlúdio: ao escolher o pôster lá em cima em que Mace está acima de Lenny, eu o escolhi por vários motivos: em primeiro lugar, Mace é a primeira pessoa a figurar no pôster, e, para mim, ela é bem mais forte e mais profunda do que Lenny. E, sim, ela está acima de Lenny, que é um cara sinistro, e Faith, que é subestimada e mal explorada e mais parece um joguete de roteiro do que uma ponta de um triângulo amoroso. Ou de vários. enfim, sem entrar em spoilers demais... E o motto: You know you want it - Você saber que quer isso... remete aos estranhos prazeres, prazeres proibidos, todas as coisas bem sinistras que são abordadas no filme. 

Um filme no mínimo perturbador, que o levará a se questionar sobre sua “decência” se você não ficar enojado com o que o vilão faz (mesmo que suas motivações não sejam abordadas e ele seja muito genérico e sem profundidade, suas atitudes são grotescas e enojantes). Com um clima sinistro, a militarização policial e comportamentos pessoais e profissionais horríveis e abomináveis, as partes e os elementos bons do filme fazem com que sim, valha a pena vê-lo. O ponto mais alto do filme para mim é como mostra que o vício na “realidade virtual” pode ser tão danoso quanto o uso de drogas. 

Outras coisas “sujas”, o voyeurismo sinistro, e outras monstruosidades que o ser humano é capaz de fazer [Todos os monstros são humanos, fato] também são bem mostrados e exemplificados neste filme de Kathryn Bigelow, mas isso só acabou me deixando com mais vontade de voltar a acompanhar Mr. Robot. 

Nota: 2 e meio de 5, de modo geral. 3, pelo que poderia ter sido ;)

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