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Crítica do filme: Me chame pelo seu nome, de Luca Guadagnino, Vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado


“Me chame pelo seu nome” é um filme belíssimo, porém, antes de falar sobre seus aspectos estéticos, devo começar esta crítica dizendo que classificar esta obra como “apenas” um “drama gay” seria algo extremamente simplista (e muito preconceituoso), já que a obra toca em muitos assuntos e flui muito naturalmente em todos eles. 

Já vi algumas críticas dizendo que o ritmo é lento. Bem, em uma das primeiras camadas, o filme é um romance. Fala de primeiro amor, e o nascimento do amor não é necessariamente rápido. Esse slow burn para mim já é um ponto extra que o filme ganha - não tem aquilo de os protagonistas se conhecerem e se amarem para todo o sempre nos dez primeiros minutos. Ufa, ainda bem! 

Como em um quadro em que os personagens principais estão em foco no centro e os secundários estão em segundo plano, mas a cidade está ali, toda brilhante, vibrante, cheia de suas cores e cheia de vida, a cidade opera quase como uma personagem, uma espécie de parceira, cúmplice, no romance e nos encontros furtivos (ou não) entre Elio e Oliver. 

O filme não apela para o típico dramalhão e é um filme que prima por se focar no desenvolvimento do amor e da paixão, e vê e nos mostra a paixão física com muita naturalidade, afinal, é algo intrínseco ao ser humano. 

Também li algumas críticas reclamando que o excesso de felicidade no filme é um problema. Uau, para mim esse foi um ponto alto. Afinal, seja entre um homem e uma mulher, duas mulheres ou entre dois homens, enfim, entre seres humanos, quais são as chances de um romance de verão se transformar em algo duradouro? No entanto, temos em “Me chame pelo seu nome” uma abordagem bonita, que me remete ao “Que seja infinito enquanto dure”, de Vinicius de Moraes. E a Camões.


A fotografia é incrível, e temos belíssimos elementos bucólicos que nos remetem várias vezes ao Romantismo literário em suas diversas facetas. O longa foi rodado em película, e tem aquele quê nostálgico do formato, que combina com a nostalgia da história em si: um romance em que o foco é o amor, pura e simplesmente. 

Em um ambiente multicultural (fala-se inglês, francês, italiano no filme), em um verão, em algum lugar ao norte da Itália em 1983 é que se desenvolve o romance entre Elio e Oliver. Se as personagens secundárias não são lá muito profundas, o desenvolvimento e as personalidades dos dois protagonistas englobam toda a profundidade que lhes faltou. Na beleza da ensolarada Itália, com as paisagens campestres, banhos de cachoeira, entre passeios de bicicleta e discussões intelectuais, o romance se desdobra em meio à autodescoberta. é um filme sobre crescimento pessoal, descobertas pessoais, além de ser um romance em si, que nos mostra um belo jogo de desejo e sedução. A aura da sensibilidade artística é um quê de deleite a mais, que combina com o tom romântico em si, e que nos transmite até mesmo aquele ideal do Romantismo do carpe diem. E é muito bom ver um filme que retrata um romance entre dois homens com tamanha naturalidade, pois, acima de qualquer orientação sexual, nós, seres humanos, somos seres sexuais, e faz-se necessária essa abordagem, pois, apesar de muitos avanços, são inúmeras as pessoas que consideram o amor e o sexo entre pessoas do mesmo gênero algo anormal ou agressivo. 



Além disso tudo, não há como não mencionar a idealização de beleza grega e da figura de Oliver - uma excelente escolha para essa analogia. E, novamente, um ponto de acerto para o filme, pois quase sempre acabamos idealizando o outro, seja consciente ou inconscientemente. Eu li também algumas pessoas incomodadas com as discussões filosóficas, etimológicas e intelectuais. Isso me surpreende e assusta. Existem pessoas intelectuais, assim como existem pessoas não intelectuais, existe o amor entre pessoas do mesmo sexo, assim como existe o amor entre pessoas do sexo oposto. Existe a variedade e a diversidade, e é algo belo que essa diversidade seja retratada no cinema, na TV, em livros e outras obras de arte. Um brinde à diversidade, pois mais do mesmo é algo que, isso sim, é muito chato. 

Um filme que me deixou ainda com mais vontade de ler o romance no qual foi baseado e que muito provavelmente virará uma trilogia, pelo que andei lendo por aí


Também com um final bem menos triste do que eu esperava, bem naquele estilo agridoce que tanto curto, é um filme que fica um tempo na memória, que nos lembra de aproveitar a vida, os amores e as descobertas, pois todas as experiências e vivências boas deveriam conter em sua magnitude o infinito enquanto durarem. Um dos indicados ao Oscar de melhor filme, merece e muito a indicação. 

Nota: 5 livros românticos lidos entre um encontro furtivo e outro. ;)


Amei essa crítica aqui (em inglês)
Ps.: Quanto a comentários sobre pedofilia, saibam que a idade de consentimento na Itália é de 14 anos, e Elio tem 17.



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