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Desencavei: Resenha do livro: Clube da Luta – Chuck Palahniuk


A regra número 1 é que você não fala sobre o clube da luta. A número 2 também. Mas eu vou falar, aqui, agora, ou melhor, escrever… sobre o “Clube da Luta”.
E tudo nasceu com um conto…
Sim, mais especificamente, o capítulo 6 deste livro.
E depois veio o livro.
E somente depois de depois veio o filme.
Eu sei disso porque o autor sabe disso.
Mas só sei disso agora…
Assim como também fiquei sabendo só recentemente que “Jumanji” também era um livro, mais especificamente, um conto…
Eu sei disso porque a Internet me permitiu saber disso.
Sou só eu que me sinto enganada, ludibriada, por todos os filmes que vi e que eram inspirados (ou completamente copiados mesmo, com uma mudança aqui e outra ali) em um livro e a referência de que tal filme foi “inspirado em” tal livro ficava n’algum canto obscurecido dos créditos ou nem isso?
Hoje sabemos disso porque a internet nos permite saber disso.
Quando o filme “Clube da Luta” foi lançado, em 1999, eu não sabia disso. Vários amigos meus não sabiam disso. Porque a internet não era popular como hoje, 13 anos depois*. Hoje podemos saber disso. E achávamos que a grandiosidade toda era do diretor do filme, quando o livro…, bem, eu vou falar sobre o livro em si em breve, mas o livro é muito mais do que o filme.
No momento, me resumo a dizer que no início, era um conto, e eu reli o capítulo 6, e realmente, isolado, ele funciona muito bem como conto! É incrível. Mas assim que saiu, o livro não teve tanto sucesso. Era muito ousado. Audaz demais, etc… outros detalhes vocês poderão ler no Posfácio feito pelo autor. Não quero estragar a beleza que ele conseguiu colocar em palavras até mesmo quando fala sobre a trajetória de sua obra.
Geralmente, quando leio um livro que virou filme, acabo me deparando com um momento ou outro em que a falta de surpresas mata um pouco da história e não foi esse o caso com “Clube da Luta”. Achei isso impressionante. Em momento algum eu fiquei entediada. E devo ter visto o filme mais de 15 vezes. Porque eu achava brilhante, genial. Quando o livro, o livro sim, é brilhante, genial, impactante, porque mesmo eu sabendo de cor algumas falas (sim, praticamente muitas falas do livro estão no filme), ele era novo para mim, um universo totalmente diferente, e igual ao mesmo tempo, só que melhor.
Por que melhor?
Primeiro porque a escrita de Chuck é envolvente, ela suga você para dentro daquele mundo em que Tyler Durden dita regras que “o mundo” começa a seguir, porque as regras são feitas para serem quebradas, afinal, se ninguém falasse sobre o clube da luta, não existiria mais de um, certo?
Depois que descobri que antes do filme havia o livro, fiquei com muita vontade de lê-lo e essa edição da Leya veio em um momento perfeito, pois eu estava totalmente no clima para a leitura. Para quem viu o filme, sim, tem diferenças, no começo, no meio, no final… e acho que isso altera a mensagem também.
“Clube da Luta” não pode ser definido meramente como um livro sobre lutas, insônia ou anarquia e destruição. E sim um livro que vai fundo no cerne da alma humana desgarrada do corpo que vive em um mundo paralelo e real ao mesmo tempo, distópico e realista, insensato e verdadeiro, cruel e suave. Tudo ao mesmo tempo. Assim, sem dó nem piedade. A sociedade ri da nossa cara e rimos da cara dela como troco. Ou podemos apenas servir, e abaixar a cabeça. Mas não são esses justamente os pontos que nos transformam em “rebanho”?
Não, “Clube da Luta” não é uma incitação à violência generalizada, façam-me o favor. Se a violência já existe dentro de uma pessoa, não será apenas um livro ou um filme que fará com que ela saia matando todo mundo a torto e a direito. A sociedade cria seus monstros e coloca a culpa no entretenimento.

Em “Clube da Luta” acompanhamos a trajetória de um trio perturbador, mas, se olharmos bem ao nosso redor, e não nos prendermos às vidinhas cotidianas que nos mantêm sob nossas rédeas, veremos que eles não são nem um pouco irreais. E que o Projeto de Desordem Caos Desinformação etc. não é nada mais nada menos do que o que já acontece em escala menor por aí.
Classificar “Clube da Luta” apenas como distópico seria limitar essa obra grandiosa. Como anárquico, pior ainda, porque vai muito além e digo mais, releia. Releia de vez em quando, porque só de reler o capítulo 6, após terminar o livro, eu já tive uma nova visão.
Não é um livro para qualquer um. Talvez, se você não estiver preparado, pode achar insano, doente, de um niilismo puro e simples, mas, muitas vezes, é preciso se anular algo para que outro algo nasça com mais força. E, infelizmente, às vezes, outro algo não nasce. Apenas morre.
Morrer e viver não são constantes. E a vida, bem, a vida é um eterno “Clube da Luta”.

Se você viu o filme, leia Clube da Luta.
Se você não viu o filme, leia Clube da Luta.
Se você já viu o filme e leu o livro, ainda assim, releia Clube da Luta.
Eu não indico mais o filme depois de ler o livro, então, apenas, (re)leia Clube da Luta.
Mas se lembre disso: não fale sobre o Clube da Luta. Não se fala sobre o Clube da Luta. 

Citações:
“Cabelos pretos curtos e desgrenhados, olhos grandes iguais aos de um desenho japonês, branca como leite aguado, meio amarelada em seu vestido com desenhos de rosas negras.”
“É assim que as coisas funcionam quando se tem insônia. Tudo está muito longe, é a cópia da cópia da cópia. A insônia o distancia de tudo, você não consegue tocar em nada e nada consegue tocar em você.”
“…era uma casa cheia de condimentos e nenhuma comida de verdade.”
“A pessoa que sou no clube da luta não é a mesma que meu chefe conhece. Depois de uma noite no clube da luta, tudo que existe no mundo real passa a ter menos importância. Nada pode deixá-lo puto. Sua palavra é lei, e, mesmo que outras pessoas quebrem aquela lei ou duvidem dela, ainda assim você não ficará puto.”
“Apenas depois de perder tudo é que você estará livre para fazer qualquer coisa.”
“Tem um monte de coisas que não queremos saber sobre as pessoas que amamos.”
“Vocês não são um grão de neve belo e único. Vocês são a mesma matéria orgânica em decomposição que todos os outros são e somos todos parte da mesma pilha de compostagem.”
“Gerações têm trabalhado em empregos que odeiam para poder comprar coisas de que realmente não precisam. – Não temos uma grande guerra em nossa geração ou uma grande depressão, mas na verdade temos, sim, é uma grande guerra de espírito…”
“Você não é o seu emprego. Você não é o seu nome. Você não é a sua família.”

Nota: 5 sabonetes feitos de coisas duvidosas, rs
* Esta resenha eu fiz em 2012.


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