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Resenha do livro Androides sonham com ovelhas elétricas?, de Philip K. Dick (Editora Aleph) - O livro que inspirou o filme Blade Runner



"A má ficção científica acontece predizendo, a boa ficção científica parece que prediz." 
- Philip K. Dick

"Uma curta e gostosa onda elétrica lançada pelo alarme automático do sintetizador de ânimo ao lado da cama acordou Rick Deckard." {frase de abertura do livro}

O que é ser humano? Seríamos nós definidos por nossas ações ou por nossas memórias? O Batman de Christopher Nolan defende que são nossas ações que nos definem. Em “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, na prosa belíssima de Philip K. Dick, e na edição de aniversário de 50 anos lindíssima da Editora Aleph, nos leva a uma imersão em um mundo desolado, em que só ficaram na Terra, onde os animais estão praticamente extintos, aqueles que não tinham como ir para as colônias. Um mundo desolado em que androides fugitivos tentam viver entre os humanos… e que podem ser mais humanos em vários momentos do que os próprios. Afinal, o que nos define como humano? Amor? Empatia? Se empatia nos define como humanos, então psicopatas e sociopatas poderiam ser considerados não humanos? 


"Para meus leitores, o que escrevo não é mais que uma interpretação alternativa mais amorosa de suas vidas privadas e de seus pensamentos mais íntimos." - Philip K. Dick

Um visionário além do seu tempo, as escritas de Philip K. Dick encontram ecos nos dias de hoje, foram várias vezes adaptadas para o cinema e/ou para a TV (Blade Runner, Johnny Mnemonic, Os Agentes do Destino, Minority Report, entre outros). Apesar do tom pessimista da obra, há um quê de poético e belo em meio a essa tristeza toda, e meio que se procura uma esperança e também um quê de redenção, mesmo quando, na verdade, o mundo já está tão desgraçado e tudo que Rick Deckard, o caçador de androides em questão, almeja, é um animal de verdade, e não uma cópia artificial. Por status. Não por algum sublime desejo verdadeiro e puro. 

Como disse o próprio autor sobre livro e filme, 

"Havia coisas boas no roteiro de Faucher. É como a história da velha dama que leva uma joia ao joalheiro para fixar melhor a gema. E o joalheiro aproveita e remove toda a pátina de anos e anos de uso e devolve a ela uma joia cintilante. Então ela diz: 'Meu Deus, era aquilo que me fazia adorar o anel: a pátina.' Ok, eles faxinaram o meu livro e removeram todas as sutilezas. Não havia mais significado. Tudo tinha se tornado uma luta entre androides e um caçador de recompensas.

(...)

Boonstra: Tudo isso mudou quando você viu o roteiro revisado de David W. Peoples? 


Dick: Eu vi um trecho dos efeitos especiais de Douglas Trumbull para Blade Runner no noticiário da KNBC-TV. Reconheci aquilo no mesmo instante. Era meu próprio mundo interior. Eles captaram perfeitamente. 

(...)

Depois que acabei de ler o roteiro, peguei o livro e dei uma espiada geral no texto. Os dois materiais se reforçam mutuamente. De forma que a pessoa que começasse lendo o livro iria curtir o filme e quem visse antes o filme iria gostar de ler o livro. Fiquei surpreso que Peoples tivesse conseguido fazer algumas cenas daquelas funcionar. Aquilo me ensinou coisas sobre escrever que eu ainda não sabia.

(...)

Mas agora a magia tinha voltado. Você lê o roteiro e depois lê o livro e é como se fossem as duas metades de um metatrabalho, de um meta-artefato. É sensacional."

E Blade Runner 2049 faz novamente um convite para ler a obra original, revisitando temas do livro e do primeiro filme e expandindo esse universo e indo além das questões originais e não deixando de ser atual mesmo com seu ar retrô.  




Em um futuro distópico e pós-apocalíptico, em uma obra de ficção científica que assusta por algumas coisas tão assustadoramente reais e possíveis, em que o papel de "deuses" da TV, como bem abordado por Neil Gaiman em "Deuses Americanos" e bem retratado na adaptação do livro para a TV (ah, a ironia!), somos levados a ler sobre e analisar um dia na vida de algumas pessoas e alguns simulacros de pessoas em uma terra devastada, pós-nuclear, em que se preza a empatia, mas não se prega a empatia ao mesmo tempo, gerando uma certa dissonância social, ainda mais em relação aos chamados “Especiais” e até mesmo com os próprios androides, o objetivo máximo de Deckard não é nada profundo. Ele almeja ter um animal de verdade. E, depois de todo o desenrolar da trama, vemos que o status quo praticamente não muda, mesmo depois dos tumultuosos acontecimentos que, no livro, ocorrem dentro de apenas vinte e quatro horas. Não haverá apenas esperança para ele ou para a Humanidade de modo geral? E será que a bagulhificação se estenderá não somente aos objetos, mas às pessoas também? É muito em que se pensar. É uma obra que ainda renderá debates por muitos e muitos anos, isso é certo. 

Não vou me deter aqui em mencionar nem escrutinizar as diferenças entre o livro e o filme Blade Runner - O caçador de androides, mas adianto que nessa edição de aniversário há vários extras que exploram isso, e bem a fundo, inclusive com palavras do autor sobre a adaptação cinematográfica. Porém, direi que temas recorrentes no livro são subliminarmente abordados em Blade Runner e retomados em Blade Runner 2049, como, por exemplo, a preocupação ambiental. 

O questionamento que vemos no filme está no livro: O que é real? Quem e o que é um ser humano? Seria Deckard um androide? Androides sonham com ovelhas elétricas? Androides sonham? E o que aconteceu na vida de um ser humano (ou não) quando seu maior desejo é ter um animal pelo simples status que ele lhe confere? Um livro proto-cyberpunk que gera questionamentos ao mesmo tempo que embrulha a narrativa perfeita até um fim desolador e muito mais acre do que doce. 


"A maioria dos androides que conheço tem mais vitalidade e desejo de viver do que a minha mulher." {Rick Deckard}

Um (importante) comentário social: Apesar de ser um clássico e eu achar o livro excelente, tanto em termos de escrita quanto de construção de mundo e de momentos e questionamentos memoráveis, há que se comentar que as mulheres estão ali como personagens bem secundárias e acessórias para o homem: a esposa deprimida e a androide tentadora. Não que o filme tenha feito algo muito melhor, mesmo sendo mais recente: a cena do beijo entre Deckard e Rachel é incômoda, e ecoa um pouco ainda esse lance que temos no livro. Incomoda. Não vamos defender esses problemas "por causa da época" (escrito em 1968 e adaptado para o cinema em 1982, esse problema é recorrente em ambos). Não tira o brilho nem do livro nem do filme, mas meio que funciona como aquelas incômodas moscas volantes que impedem que se tenha uma visão perfeita.


***


"Tenho visto coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque ardendo no cinturão de Órion. Vi raios gama brilharem na escuridão, próximo ao portão de Tanhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer."



[E este monólogo belíssimo não estava no livro, em que Roy é, na verdade, bem menos "humano" do que sua versão cinematográfica, e nem estava no roteiro, tendo sido genialmente improvisada pelo ator, Rutger Hauer, com a intenção de demonstrar a ambição de Humanidade do androide.}

Hoje, como sempre, é uma boa época para ler o livro, reler o livro, rever o(s) filmes, enfim, visitar e revisitar a obra original e as derivadas deste visionário que foi Philip K. Dick. 

Nota: 5 de 5 ovelhas elétricas 


Citações:

"O ar da manhã - transbordando partículas radioativas acinzentadas por todos os lados, encobrindo o sol - arrotava ao redor dele, infestando seu nariz; involuntariamente, farejou a contaminação da morte."

"A coisa que [Rick Deckard] mais sonhava no mundo era ter um cavalo, de fato qualquer animal. Ser dono de uma fraude era algo que ia gradualmente desmoralizando qualquer um. No entanto, do ponto de vista da sociedade, era necessário, dada a ausência do artigo autêntico."

"- Bagulhificado? - ela não entendeu. 
- Bagulho é todo tipo de coisa inútil como correspondências sem importância, caixa de fósforos vazia, embalagem de chiclete ou homeojornal de ontem. Quando ninguém está por perto, o bagulho se reproduz. Por exemplo, se você vai dormir e deixa algum bagulho próximo ao seu apartamento, na manhã seguinte, quando acordar, terá o dobro daquilo. E vai sempre acumulando mais e mais.""

"E animais vivos morrem, é um dos riscos de se ter um. Só não estamos acostumados a isso porque tudo o que vemos são imitações."

"- Você será requisitado a fazer coisas erradas não importa para onde vá - disse o velho. - É a condição básica da vida, ser obrigado a violar a própria identidade. Em algum momento, toda criatura vivente deve fazer isso. É a sombra derradeira, o defeito da criação, é a maldição em curso, a maldição que alimenta toda vida. Em todo lugar do universo."





Comentários

  1. Nossaaa , vc me fez querer ler logo PKD. Adorei a temática e o filme vou deixar p depois de ler o livro!

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  2. Excelente resenha, você me inspirou para ler o livro. Acho que Philip Dick é bom, porque eu vi o filme de Blade Runner baseado no seu livro "androides sonham com ovelhas elétricas" que estrenou no ano passado e adorei. Eu gostei desde que eu vi o Blade Runner trailerPara mim foi um filme que valeu a pena. É um dos melhores filmes de ficção , tem uma boa história, atuações maravilhosas e um bom roteiro. Definitivamente é um filme que vale a pena ver. É algo muito diferente ao que estávamos acostumados a ver.

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