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Resenha do livro: Deuses Americanos (American Gods), de Neil Gaiman

AVISO AOS VIAJANTESDeuses Americanos”, do Neil Gaiman, é praticamente um clássico moderno, além de ser ganhador dos prêmios Hugo e Nebula. Neil criou um mundo interessante nessa obra, mas devo adiantar a vocês que a história não é feliz… Ou seja, tem que estar preparado para lê-la, e não é de uma sentada só, já que o livro leva os leitores a refletir sobre diversos aspectos da vida, não só individual, como das pessoas como um todo.

O próprio autor faz uma advertência aos navegantes no início de seu livro, e vocês entenderão, após a leitura, o motivo pelo qual ele diz que “só os deuses são reais” nessa frase: “Nem é preciso dizer que todas as personagens, vivas, mortas ou mortas-vivas utilizadas nessa história são fictícias ou foram usadas em um contexto fictício. Só os deuses são reais.”

"Deuses Americanos" também pode ser entendido, sob determinado ponto de vista, como uma grande metáfora do autor inglês que mora e trabalha nos EUA. Assim como, em um sentido mais amplo, pode ser compreendido como uma história sobre como nós, humanos, vamos nos afastando não somente das crenças antigas, como vamos nos desapegando e, de certa forma também, vamos anulando parte de nossa história a cada era, que tende a, hoje em dia, ficar cada vez mais curta.

Para facilitar o entendimento da obra, faz-se necessário saber o mínimo sobre as mitologias abordadas, ou estar disposto a dar uma pesquisada básica. Entre as mitologias abordadas no Deuses Americanos podemos citar a mitologia celta, a eslava, a africana e a nórdica, mas, mais especialmente ainda a nórdica, já que o Deus-personagem-principal é Wednesday, ou seja, Odin, já que quarta-feira é o dia desse deus. Porém, mesmo que você não seja o maior conhecedor de mitologia do mundo, devo dizer que leituras de livros que abordam mitologias, como os de Rick Riordan, também ajudam muito a nos situar em Deuses Americanos. Estou acompanhando a série American Gods na Amazon Prime Video e devo dizer que, embora eu ame e sempre procure saber mais sobre mitologia, quando vi o Duat, acabei me lembrando dele por ter livro a trilogia egípcia do Rick Riordan. Memórias e suas conexões, vai entender. :)



“Shadow caminhou aos tropeços pelo terminal do aeroporto, claramente iluminado. Estava preocupado com o negócio do bilhete eletrônico. Sabia que tinha uma passagem para viajar na sexta, mas não sabia se serviria hoje. Para Shadow, qualquer coisa eletrônica parecia fundamentalmente mágica e suscetível de evaporação a qualquer instante.”


É muito curioso isso que já notei em várias histórias do Neil Gaiman. Ele quase sempre coloca, de formas diferentes, seu pavor a aviões e tudo que os envolve, em várias de suas histórias.

Cada capítulo de "Deuses Americanos" é aberto com alguma citação, seja de provérbio, como esta abaixo, ou algum trecho de alguma obra relevante a cada capítulo em si.


“Three may keep a secret, if two of them are dead.” Ben Franklin, Poor Richard’s Almanack {Três podem guardar um segredo, se dois deles estiverem mortos.}


FanArt
No meio da trama principal que leva Shadow em uma quest com Wednesday-Odin, Neil nos brinda com histórias paralelas em forma de interlúdios, tanto atuais, quanto de antigas eras, em que os deuses estão de alguma forma envolvidos, e que têm relevância para a trama como um todo, assim como podem ser lidas como histórias extras, a maioria com sua própria relevância em si.

Logo no comecinho da história, em um simples diálogo, Neil faz uma bela crítica à mania de estereotipação das pessoas:

Eu sou um leprechaun disse com um sorriso malicioso.
Shadow não sorriu.
É mesmo? perguntou. Você não deveria beber Guinness?
Estereótipos! Você tem que aprender a pensar além dos padrões disse o homem barbado. Tem muito mais coisas na Irlanda do que Guinness.
Você não tem sotaque irlandês.
Estou aqui há tempo demais.
Então você veio mesmo da Irlanda?
Já disse. Eu sou um leprechaun. A gente não vem da porra de Moscou!”



Deuses Americanos” é um livro atual, porque coloca todos os pavores e as pré-concepções que temos dos deuses, como “seres” que exigem sacrifícios, etc., de uma forma diferente, pois eles são personagens de certa forma decadentes, vivendo em nosso mundo moderno, e “competindo” com deuses do capitalismo, como, a televisão, os cartões de crédito, etc., o que, para muitos, a princípio, é uma simples crítica ao consumismo e ao capitalismo, para mim pode ainda também ser compreendido como algo muito mais profundo, uma crítica, como já mencionei acima também, à própria mania do ser humano de se esquecer de seu passado, de descartar tanto crenças quanto objetos com uma facilidade incrível. Descartamos costumes, crenças até pessoas, com a mesma facilidade com que jogamos lixo fora.


Vejam alguns exemplos da escrita peculiar de Gaiman {prosa poética, metáforas estilosas, etc.}


“De repente, começou a se perguntar se o mulso (hidromel) seria o responsável por ele soltar a língua. Mas as palavras saíam como água espirrando de um hidrante quebrado no verão, e ele não poderia contê-las mesmo se tivesse tentado.”

“Você não sente o prazer correndo nas veias, igual à seiva das plantas na primavera?”

“Sobre sua cabeça, o céu era cinza-aço, sem formas, e plano como um espelho. Continuava nevando, de forma irregular, em flocos fantasmagóricos que pareciam tropeçar no ar.”

“Uma réstia de sol passava através da janela, fazendo com que as partículas de poeira dançassem na luz.”

“Neve (…) Uma massa e um grupo de flocos de neve enormes e estonteantes caindo pelo ar, remendos de branco contra o céu cinza-chumbo, neve que toca a língua com frio, que beija o rosto com um toque hesitante antes de congelar a gente até a morte. Trinta centímetros de neve de algodão-doce, criando um mundo de conto de fadas, deixando tudo irreconhecível de tão lindo…” 

“Uma gatinha parda colocou a cabeça para fora e pulou no meio das latas de lixo atrás de um prédio… a luz transformava até o lixo em magia.”

Outro ponto alto e extremamente instigante do livro é seu clima estradeiro  que praticamente leva o leitor em uma viagem pelos Estados Unidos levemente modificado, como o próprio Neil adverte no início do livro, em sua quest… e qual é essa quest, afinal? Ficamos sabendo qual era o grande propósito de Wednesday ao recrutar Shadow? Sim… e várias dicas são dadas desde o início, quando o primeiro diz ao último algo sobre uma tempestade que se aproxima… e o desfecho do livro resolve diversos elementos que podemos não entender a princípio, e todas as linhas são ligadas, como em uma bela história de suspense que reúne, no final, todas as dicas que foram dadas desde o princípio, e a conexão de elementos aparentemente dispersos nos leva à conclusão que, já adianto, é belíssima… mas é triste. Bem triste. [Já ouvi duas pessoas dizerem que Os Filhos de Anansi, spinoff de Deuses Americanos, é alegre e sua leitura é mais leve também.]

É um livro que nos faz refletir, e cuja leitura eu sugiro que seja propositalmente lenta, para  uma digestão completa da quantidade imensa de informações e personagens apresentadas e exploradas por Neil Gaiman. Personagens estes que, embora sejam muitos, são apresentados em momentos especiais e cruciais na trama, e não ficam perdidos e nem um pouco jogados.

“A linguagem é um vírus (…), a religião é um sistema operacional e (…) as orações são a mesma coisa que a porra do spam.” 

“Esses são os deuses que foram esquecidos e agora eles podem até estar mortos. Só podem ser encontrados em histórias áridas. Eles se foram, todos eles, mas seus nomes e suas imagens continuam entre nós.” 

“Esses são os deuses que já perderam a consciência da memória. Até mesmo seus nomes se perderam. Desde há muito tempo, seus totens foram quebrados e derrubados. Seus últimos sacerdotes morreram sem passar o segredo adiante. Deuses morrem. E quando morrem de verdade, ninguém chora por eles nem se lembra deles. As idéias são mais difíceis de matar do que as pessoas, mas também podem ser assassinadas no fim.”

A obra pode ser considerada um expoente do Mitopunk: é urbana, decadente, tem aquele feeling meio noir até, em alguns momentos, e tem o elemento da mitologia como principal, mesmo que seu significado seja metafórico, já que, neste livro, os Deuses não apenas existem, como são personagens principais de uma trama complexa e ricamente detalhada e contada.

Em vez de abordar a clássica jornada do herói, pode-se chegar a afirmar que a jornada de Shadow é a jornada do anti-herói, já que ele foi preso, foi solto, foi recrutado para “trabalhar” para Odin, o que implicava envolver-se em trapaças, brigas e outras tramóias do Pai de Todos. Recusou-se a princípio... E depois, bem... até chegar ao final de sua jornada, tanto metafórica quanto literal, pelos Estados Unidos, os deuses antigos e os deuses novos lutam por lugares que ambos acabarão perdendo, pois a Humanidade está cada vez mais rapidamente se afastando não só de suas crenças como de suas criações também.

Curiosidade: No livro “Coisas Frágeis 1 há uma noveleta que se chama “O Monarca do Vale” que revela a verdadeira identidade do Shadow.

Em meio a relatos tristes, há alguns poucos, porém eficientes momentos de ironia e piada, como estes, por exemplo:

Você é grandão disse Nancy, olhando nos olhos cinza-claro de Shadow com seus olhos velhos cor de mogno. Um pedaço de mau caminho, mas eu preciso falar, você não parece muito inteligente. Você lembra meu filho, que é tão imbecil como se tivesse comprado sua burrice numa liquidação de dois por um.” 

Quando se é diretor de funerária, não se faz perguntas a respeito da saúde de ninguém. As pessoas ficam achando que você está conferindo se vai ter trabalho disse, em tom grave.” 

Podemos afirmar que Gaiman conseguiu realizar a façanha de colocar o espírito da década em palavras lá nos idos de 2001, quando muitos autores estão repensando esse assunto apenas agora. E é nesse momento que afirmo que “Deuses Americanos” é leitura  e releitura obrigatória, não somente a fãs de fantasia e mitologia, mas a todos os leitores que estiverem dispostos a encarar uma história estradeira em que deuses decadentes vivem em meio à Humanidadeque a cada dia que passa sabe menos não só sobre os deuses antigos, como sobre sua própria história, como brilhantemente Neil consegue colocar em um outro parágrafo em que um dos deuses, no caso, uma deusa, reflete sobre as mudanças de paradigmas na história e na importância dos “deuses” para os mortais:


Costumavam adorar as estradas de ferro aqui, mas num piscar de olhos os deuses de ferro estão tão esquecidos quanto os caçadores de esmeraldas…”

Curiosidade: Quando Shadow sonha com o Pássaro-Trovão e uma montanha de ossos é uma referência  a “Um sonho de mil gatos” de Sandman, em que a gatinha fala de um sonho em que ela está andando em uma montanha de ossos e tem um pássaro voando com a mesma descrição do livro Deuses Americanos.

Não tinha como não citar o discurso da Sam aqui… mesmo sendo um dos mais citados em toda a internet e em muitas das resenhas sobre esse livro, é indispensável! Então, abrupta, mas belamente, escolhi encerrar essa resenha com ele, com as palavras de Neil Gaiman em si, pois elas falam muito mais do que as minhas aqui tentaram chegar perto de exprimir a beleza, a crueza, a tristeza e o encanto de “Deuses Americanos”:

“Posso acreditar em coisas que são verdade e posso acreditar em coisas que não são verdade. E posso acreditar em coisas que ninguém sabe se são verdade ou não. Posso acreditar no Papai Noel, no coelhinho da Páscoa, na Marilyn Monroe, nos Beatles, no Elvis e no Mister Ed. Ouça bem… Eu acredito que as pessoas evoluem, que o saber é infinito, que o mundo é comandado por cartéis secretos de banqueiros e que é visitado por alienígenas regularmente uns legais, que se parecem com lêmures enrugados, e uns maldosos, que mutilam gado e querem nossa água e nossas mulheres. Acredito que o futuro é um saco e que é demais, e acredito que um dia a Mulher Búfalo Branco vai ficar preta e chutar o traseiro de todo mundo. Também acho que todos homens não passam de meninos crescidos com profundos problemas de comunicação e que o declínio da qualidade do sexo nos Estados Unidos coincide com o declínio dos cinemas drive-in de um Estado ao outro. Acredito que todos os políticos são canalhas sem princípios, mas ainda assim melhores do que as outras alternativas. Acho que a Califórnia vai afundar no mar quando o grande terremoto vier, ao mesmo tempo em que a Flórida vai se dissolver em loucura, em jacarés, em lixo tóxico. Acredito que sabonetes antibactericidas estão destruindo nossa resistência à sujeira e às doenças, de modo que algum dia todos seremos dizimados por uma gripe comum, como aconteceu com os marcianos em Guerra dos Mundos. Acredito que os melhores poetas do século passado foram Edith Sitwell e Don Marquis, que o jade é esperma de dragão seco, e que há milhares de anos em uma vida passada eu era uma xamã siberiana de um braço só. Acho que o destino da humanidade está escrito nas estrelas, que o gosto dos doces era mesmo melhor quando eu era criança, que aerodinamicamente é impossível pra uma abelha grande voar, que a luz é uma onda e uma partícula, que tem um gato em uma caixa em algum lugar que está vivo e que está morto ao mesmo tempo (apesar de que, se não abrirem a caixa algum dia e alimentarem o bicho, ele no fim vai ficar só morto de dois jeitos), e que existem estrelas no universo bilhões de anos mais velhas do que o próprio universo. Acredito em um deus pessoal que cuida de mim e se preocupa comigo e que supervisiona tudo que eu faço, em uma deusa impessoal que botou o universo em movimento e saiu fora pra ficar com as amigas dela e nem sabe que estou viva. Eu acredito em um universo vazio e sem deus, um universo com caos causal, um passado tumultuado e pura sorte cega. Acredito que qualquer pessoa que diz que o sexo é supervalorizado nunca fez direito, que qualquer um que diz saber o que está acontecendo pode mentir a respeito de coisas pequenas. Acredito na honestidade absoluta e em mentiras sociais sensatas. Acredito no direito das mulheres à escolha, no direito dos bebês de viver, que, ao mesmo tempo em que toda vida humana é sagrada, não tem nada de errado com a pena de morte se for possível confiar no sistema legal sem restrições, e que ninguém, a não ser um imbecil, confiaria no sistema legal. Acredito que a vida é um jogo, uma piada cruel e que a vida é o que acontece quando se está vivo e o melhor é relaxar e aproveitar.”

Nota 5 de 5 gatos cinzentos senis ;)


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