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Crítica do filme Eu, Tonya, um filme de Craig Gillespie


Precisamos falar sobre a dessensibilização quase automática em relação à violência. O humor slap-stick, só para citar um gênero, faz piadas em cima de coisas que, não nesse contexto, poderiam ser consideradas bem violentas. Bem, desenhos infantis, e vamos citar apenas um entre muitos, Tom e Jerry, mostram a violência como algo engraçado. No entanto, os seres humanos deveriam saber quando a violência na vida real é inaceitável, não? Deveriam saber, na verdade, que a violência, seja ela qual for, é inaceitável, não? 

Pois bem, quantas vezes você ouviu alguém reclamando de que não se pode bater mais nos filhos? E/ou que fulano ou fulana é assim porque não apanhou o suficiente? 

Quantas vezes você mesmo ou alguém conhecido ouviu os pais falando que 8 ou 9 não era uma nota boa o bastante na escola, que segundo lugar não valia nada e outras coisas do gênero? Quantas vezes você ouviu, na escola, em casa, no trabalho, que não era bom o bastante? 

Nunca? Se essa for sua resposta, ou você vive em um mundo ideal que eu desconheço, ou então você vive em uma bolha. 

“Eu, Tonya” é um filme que tem diversas camadas. Aquela trama absurda parece coisa inventada, mas é real. De tão absurdos que são alguns desenvolvimentos, diversas partes são realmente hilárias. E é aquela moeda suja da qual você nem consegue mais distinguir os dois lados: o do aceitável e do não aceitável. Do engraçado e do trágico. E, segundo Tonya Harding, a realidade dela foi ainda pior do que retratada no filme, embora ela tenha gostado dele, assim como seu filhinho de 7 anos que faz patinação artística como hobby. Precisamos falar sobre  violência e abuso, tanto físico quanto verbal. 

Tonya sofre abusos desde pequena. Da mãe, do marido, abusos físicos e verbais, a mãe que a diminuía, que a ofendia, que batia nela e levou Tonya a achar que ela “merecia” apanhar. Em uma frase bem triste, Tonya resume isso: “Minha mãe me batia, e ela me amava.” 

Agressões físicas e verbais constantes podem moldar uma pessoa de uma forma infeliz. Tonya foi julgada por suas ações e pela falta delas. Será que Tonya Harding realmente fez alguma coisa errada? Talvez sim, talvez, não. Muito possivelmente sim, afinal, errar é humano. Porém, a formação de um indivíduo vai sendo moldada de acordo com expectativas, experiências e como o mundo e as pessoas próximas nos tratam. Tonya realmente tinha talento. Mas o mundo da patinação artística também não foi legal com ela. Acima do talento, eles queriam imagem. E não era assim só na década de 1990. Imagem ainda conta, e muito. Infelizmente, espera-se famílias perfeitas e que as pessoas, sejam ou não celebridades, se encaixem no molde daquilo que eles, os defensores do status quo, consideram ideal. 

O filme é excelente e reflete não só muito bem a década de 1990, como conta a história quebrando a quarta parede e nos convidando a sermos cúmplices daquilo tudo, e também com uma trilha sonora excelente e bem encaixada que sempre me faz lembrar de que, apesar da moda de gosto duvidoso, as músicas das décadas de 1990 e 1980 são excelentes e assim permanecem até hoje. Infelizmente, as atitudes tóxicas, tanto no âmbito dos esportes, das celebridades em geral, da mídia e do lado mesquinho do ser humano, em nível pessoal ou não, ainda parecem estar avançando a passos curtos em direção a grandes mudanças. Sim, há progressos. Mas muito dessa história se repete, sim, com outros personagens e outros cenários, mas se repete, ainda hoje. 

Recomendo demais a todos, mesmo para quem nem liga para patinação artística. Eu mesma desconhecia o "incidente" abordado no filme. Porque não é sobre patinação artística. É sobre sucessos e fracassos, pontos de vista, momentos felizes e momentos tristes, humanidade e seus egoísmos, seus ódios, seus amores e dissabores. Sobre nunca ser bom o bastante e tentar ser bom o bastante em mundo que julga muito pela cobertura e não pelo recheio do bolo. Um tapa na cara de muita gente, "Eu, Tonya" já se tornou um daqueles filmes prediletos da vida para mim, para rever de vez em quando, um daqueles filmes que tocam num lugar macio no meu coração. 

Para refletir: Desde quando nós nos tornamos tão insensíveis a ponto de muitos dentro de uma sala de cinema rirem alto com uma mãe atirando uma faca na filha? Eu não ri. Não nessa cena especificamente, pelo menos. Mas com certeza todos nós já rimos de algo que não era normal, aceitável e muito menos engraçado. O que os pais fizeram com seus filhos? O que foi que o mundo fez conosco? O que foi que fizemos com nós mesmos? 

Trailer



Nota: 5 saltos triplos Axel 

Abaixo, no filme, Margot Robbie e o triplo Axel



Abaixo, o vídeo (real) de Tonya Harding quando ela foi a primeira mulher americana a fazer um triplo Axel, em 1991




Comentários

  1. Depois de décadas, finalmente passei aqui para conhecer seu blog e ler seu post de Eu, Tonya. Tenho notado cada vez mais esse riso nos momentos mais impróprios nas salas de cinema. E não estou falando daquele riso nervoso que damos em certas cenas que causam constrangimento. É um riso de deleite, realmente achando engraçadas coisas que não o são. Isso me deixa chocada. Mas como você bem disse no final, precisamos refletir o que está errado e tentar mudar isso. Porque algo está muito errado, sem dúvida.
    E Eu, Tonya é realmente ótimo.
    Bjo!

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