Resenha do livro Escola dos sabores, de Erica Bauermeister (Editora Sextante)



Sabe aquele livro cuja beleza da escrita deixa a gente levemente extasiada, mas que, quando finalmente, depois de uma leitura arrastada por teimosia, a gente vê que se trata apenas de um livro tecnicamente belo, mas vazio em termos de história? “Escola dos Sabores” foi assim para mim. 

Não é um livro péssimo, mas está longe de ser bom. A "história", embora rica em descrições, alegorias e metáforas sobre comida, que eu imaginei que fosse ser um deleite tão suculento quanto um fondue de queijo, acabou sendo uma experiência na frustração. 

A “história” mais parecem crônicas, recortes das vidas dessas pessoas que frequentam, por motivos diversos, e com históricos de vida também diversos, um curso de culinária que Lilian dá uma vez por mês. No decorrer de vários meses, temos insights nas vidas dessas pessoas, agora e no passado. 

Junte a parte da gastronomia, dos sabores e odores e toda a parte poética com uma história no mínimo envolvente e as chances são grandes de se ter um bom livro. Não foi o caso para mim com “Escola dos Sabores”. A princípio achei que fosse o momento de leitura, ou que eu estava esperando demais do livro, depois de tantas leituras excelentes, mas cheguei à conclusão de que não é isso não. O livro tem um pouco de sabor, mas lhe faltou alma. É como uma bela comida que, na verdade, não tem um sabor tão bom assim. 



Não vou dizer que algumas passagens não me fizeram erguer os cantos dos lábios, porque de fato isso aconteceu. Porém, infelizmente para mim, isso se deu mais por causa da expectativa de que algo fosse finalmente mexer comigo e por causa da bela escrita do que devido ao conteúdo em si do livro, da história. 

Como disse a Vanessa, que resenhou aqui “O nome em seu pulso”, faltaram altos e baixos na história. É quase como várias pinceladas de um quadro que não se formou por completo. É quase como crônicas, com a diferença de que até mesmo crônicas e contos bem curtos conseguem ser mais envolventes. 

Eu esperava uma história fofinha, até melancólica, por que não? E o que tive foi um esboço de uma história, tal como os ilustradores fazem… com a diferença também de que eu adoro sketches e geralmente eles me encantam tanto quanto um desenho finalizado, completo. Mas é bem isso: a história não tem altos e baixos, nada que prenda demais o leitor e parece um esboço de algo que poderia ter sido mais do que apenas tecnicamente belo: como um robô sem alma, perfeito esteticamente, mas sem aquela centelha de vida que o tornaria único. 

Nota: Duas taças de champanhe e meia, porque o conteúdo da terceira foi perdido com a falta de um quê a mais que a história poderia ter.


Quotes:

"O momento e o motivo seriam diferentes para cada um, e era aí que estava o fascínio. Não existem dois temperos com o mesmo efeito."

"Em sua mente, a mãe era um museu de palavras, e ela, um anexo, necessário quando o espaço no prédio principal estava acabando."

"Quanto mais cozinhava, mais passava a ver os temperos como transmissores de emoções e de lembranças dos lugares de onde vinham e que haviam percorrido ao longo dos anos."

"A mãe de Lilian continuou a comer como sempre fazia, recolhendo-se depois a sua dieta constante de romances ingleses do século XIX, nos quais a comida raramente desempenhava um papel dramático."

"(...) e viu as batatas se transformarem de formas em textura, de montes em nuvens espessas e finalmente am algodão."

"(...) a filha de 3 anos agarrada a sua perna como um polvo vertebrado (...)"

"Na cadeira seguinte, quase escondido no canto do aposento, estava um homem cuja camisa parecia ter sido engomada com sua tristeza."

"Para que possamos, conscientemente, fazer algo que nos deixe feliz, é preciso saber quem somos. Tentar descobrir isso ultimamente era como pescar em um lago numa noite sem lua: não havia como prever o que o anzol iria fisgar."

"Era possível descobrir tudo sobre um casal simplesmente observando sua coreografia na cozinha ao preparar o jantar."

"É claro que ele conhecia as estatísticas do divórcio. Elas faziam parte de seu trabalho. Na verdade, as estatísticas previam que as chances de um casal se divorciar eram bem superiores às de um acidente de carro, de uma morte violenta, ou de uma pessoa perder algum membro do corpo - e talvez por isso as seguradoras não vendessem apólices de estabilidade conjugal."


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