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Resenha do livro O nome em seu pulso, de Helen Hiorns (Editora Farol Literário)



Quando comprei "O nome em seu pulso", pensei que eu leria um romancezinho sobre pessoas em busca de suas almas gêmeas, então fiquei um pouco surpresa ao acabar lendo uma distopia à la "Destino", da Ally Condie, sem quase nada de romance.

No mundo do futuro em que a protagonista Corin vive, logo nos primeiros anos de vida cada pessoa tem marcado no seu pulso o nome da sua alma gêmea, e isso é visto como algo meio que divino. Além de não ter escolha de com quem vão se casar, as pessoas também não escolhem o que vão estudar, no que vão trabalhar e até o que vão comer. O livro não acrescenta nada de novo ao gênero, e as respostas a todas as perguntas lançadas durante a leitura são insatisfatórias ou nem existem (preciso MUITO discutir com alguém o caso dos pais da Corin), mas a história é boazinha e tem umas citações bem bacanas.

"Claro, Jacinta estava perturbada... mas apenas como qualquer outro adolescente ficaria. Tudo começa com os pais que amam tanto seus filhos que inventam histórias e futuros antes mesmo de eles existirem; mas nem sempre os pais são os melhores em prever o futuro e, por causa disso, eles muitas vezes formam ideais sobre o filho que são irreais e impossíveis de alcançar.
E isso significa que você se sente como se não fosse bom o suficiente. Todo mundo tem uma espécie de moldura feita por seus pais, e eles tentam forçar você a caber nessa moldura, e, ou você se espreme em um espaço em que nunca se encaixará, ou surta e se recusa a tentar - é ceder ou se rebelar. Nem faz com que seu pais deixem de amar você, nem impede o ressentimento por você não ser exatamente o que eles queriam, nem faz você deixar de amar seus pais.
Em seguida, o resto do mundo se une em ação. Todo mundo está sujeito a ter ideias preconcebidas e ideais de como você deve ser, como você deve querer ser, o que você deve fazer. Nada estraga mais uma pessoa quanto os outros esperarem algo dela. O mundo deixa você para baixo, você se irrita, não consegue corresponder às expectativas, ou, quando o faz, não é exatamente como esperou que fosse. No fim, todos não passam de caquinhos recém-colados com fira adesiva e pedaços de barbante."

O meu principal problema com o livro foi a protagonista, não consegui gostar dela. Corin acha que a vida dela é uma droga, e que todo mundo tem culpa por isso: o pai morto, a mãe emocionalmente ausente, a irmã mais velha que passou por um episódio traumático que marcou toda a família, mas é claro que as decisões idiotas que ela toma não têm nada a ver com isso. Eu até entendo  porque ela fas o que faz, é uma forma que ela tem de assumir algum controle numa vida sobre a qual ela não tem controle algum, mas tenho certeza de que existem formas menos destrutivas de se rebelar. Esta citação resume bem a protagonista:

"As pessoas geralmente tomam decisões idiotas, mas é pior que isso: elas têm razões idiotas para essa decisões; porque elas estavam em cacos e foram forçadas a se reerguer, para ser de um jeito que provavelmente nunca pretenderam ser."

No geral, "O nome em seu pulso" fala sobre aquilo que outros livros distópicos já falaram (sem deixar de lado as críticas ao mundo de hoje, claro): com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, e o livre-arbítrio é bem assim. Pena que poucas pessoas saibam o que fazer com ele.

"- Destruíamos florestas, praias e zonas rurais. Gerávamos montanhas de lixo. Buscávamos mais o conhecimento do que a felicidade. Mulheres eram estupradas como estratégia de guerra. Ameaçávamos uns aos outros com armas nucleares que matariam milhares. Tentávamos curar as doenças que afetavam os ricos e ignorávamos o resto. Quase destruímos o planeta em nossa busca por mercadorias. Matávamos uns aos outros em nome de Deus.    As crianças não sabiam quem eram seus pais. As necessidades das crianças não eram consideradas. Algumas não tinham acesso à educação; outras eram corrompidas por um sistema de ensino falido. As pessoas estavam infelizes, mas acreditavam que o único caminho para a felicidade era ganhar mais dinheiro, posses, símbolos de status. Você entende, senhorita Blacksmith? Estávamos destruindo nosso mundo. Estávamos destruindo a nós mesmos."

Classificação: dois pulsos cortados

Resenha por: Vanessa W. 

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