Crítica do filme A Livraria, um filme de Isabel Coixet (adaptação do livro homônimo de Penelope Fitzgerald)


Um deleite para quem ama livros… ao mesmo tempo em que traz a tristeza para quem ama livros também, “A Livraria” é um belíssimo filme que retrata mais do que a paixão por livros, pois vai além e retrata como a futilidade, a inveja e o dinheiro podem arruinar os planos mais simples de vida de uma pessoa.

Em uma cidadezinha da Inglaterra, em 1959, Florence decide abrir uma livraria. Se analisarmos sob o prisma de hoje em dia, não parece nada de outro mundo e não daria para entender por que tanto boicote, tanta fúria e tentativa de destruir Florence e sua livraria. 

Ah, mas cada vez que o excêntrico Sr. Brundish abria um pacote de livros… E o deleite de ler Ray Bradbury - ah, como entendo isso! <3

Como eu disse acima, o ano é 1959. Florence é uma viúva e que decide realizar um empreendimento que tipicamente não é feito por mulheres. Não é uma época em que as mulheres são realmente levadas a sério como empreendedoras (analisemos: até hoje mulheres ainda recebem salários inferiores a homens, há profissões consideradas masculinas etc.) e, sendo assim, há todo um complô, um boicote, situações revoltantes por parte da senhora rica que se sente a dona das decisões e faz de tudo para acabar com o sonho, aparentemente simples, de Florence e sua livraria. 

Embora tenhamos momentos deleitosos com a paixão pela leitura tanto por parte de Florence quanto pelo “esquisitão” da cidade, o Sr. Edmund Brundish, há muito mais momentos em que a revolta pela mesquinhez da socialite rica, Violet, e aqueles que a ela se associam acaba se tornando exacerbante. 

A pequena Christine, inicialmente ajudante de Florence na livraria, acaba desempenhando um papel importantíssimo no final e o que temos é uma bela alegoria sobre a determinação, a coragem de ousar, mas também os limites para uma luta, e assumir quando não há como vencer. 

É triste em alguns pontos, não triste no sentido do drama exagerado, mas ver aquela mesquinhez, maldade pura e simples, tudo isso porque aparentemente uma pessoa que tinha o “poder” (dinheiro e influência) resolveu arruinar os planos de uma outra mulher, apenas porque ela podia fazer isso. 

Quase todos na cidade duvidam da capacidade de Florence de ser bem-sucedida em seu empreendimento, e muitos ajudam na tentativa de afundá-la. A condescendência e inclusive a insistência do banqueiro para que ela desistisse do imóvel é algo repulsivo. Porque subestimar uma mulher é revoltante. Porque subestimar e tentar arruinar as pessoas é revoltante. 

Se Florence parece deslocada e frágil ao mesmo tempo em que é nobre, tem bom coração e é culta, temos que nos lembrar da época. Temos que nos lembrar que seria muito fantasia colocar uma mulher simples daquela época como uma guerreira e a nossa atual (e clichê, muitas vezes, diga-se de passagem) “personagem forte do sexo feminino”. Não há como ser uma heroína sempre, e menos ainda quando se é  uma pessoa comum, viúva, em uma cidade pequena em que todo mundo controla a vida do outro e em uma sociedade que acha que a mulher é incapaz por natureza. E isso é tão dolorosamente realista que o filme me tocou no coração.

Por não termos uma esperada heroína que vai até o fim e acaba sendo vítima das tramas maldosas de Violet, isso não quer dizer que a moral da história seja de que devemos aceitar a perda. O filme conta uma história que não tem um final feliz, já adianto, mas que nos leva a refletir que nem sempre tudo termina bem. Nem sempre toda a determinação do mundo pode lutar contra a maldade, o dinheiro e/ou os frutos dos dois juntos. 

Se fica um gostinho amargo no final, não é pelo filme, mas sim pelos seres humanos que desde sempre e ainda hoje buscam arruinar os sonhos dos outros só porque eles mesmos não têm nenhum. 

O filme acerta em cheio ao retratar a "alta sociedade" hipócrita e até mesmo o quanto pessoas que não fazem parte dessa ala da sociedade são mesquinhas e julgadoras e seguem a onda de quem domina o status quo. É tristemente realista isso. 

Os planos de câmera são belos, as atuações são fortes, especialmente a da atriz mirim que faz Christine - e, se em meio à mensagem de que a maldade junto com dinheiro e poder podem destruir... resta aquele fiozinho de esperança de que algo ou alguém poderá mudar alguma coisa. 

Se você está a fim de ver um filme com uma pegada mais realista, belas cenas bucólicas (e cujos melhores momentos estão entre Florence e Christine e Florence e o Sr. Brundish e suas interações), eu mais do que indico esse filme. 

Não li (ainda) o livro que deu origem ao filme [temos um quê de metalinguagem no final do filme sobre isso ;)], então não posso falar em termos de adaptação, mas, como filme, para mim foi um deleite agridoce.
"Entre livros, ninguém pode se sentir sozinho."


Como disse a diretor: "As pessoas se arriscam todos os dias. Oportunidades grandes e pequenas, seguras ou perigosas: e muitas delas passam despercebidas. Mas o que acontece quando essas oportunidades SÃO percebidas? E como isso se reflete no mundo em que todos nós vivemos hoje?"

Injustiças são perpetradas? Sim. Fica tudo bem no final? Não. Isso é algo ruim? Caberá a você decidir. Para mim o filme é bem realista e retrata muito bem uma sociedade mesquinha e movida pelo patriarcado, pelo dinheiro e por preconceitos. 

Já vi opiniões divididas quanto a esse filme, mas eu gostei sublimemente dele. :)

Nota: 4 livros encontrados inteiros em meio ao fogo ;)

O filme foi vencedor do Goya 2018, considerado o Oscar do cinema espanhol.


Trailer:





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