Crítica do filme Operação Red Sparrow, um filme de Francis Lawrence




Da série "Precisamos falar sobre..."

Precisamos falar sobre “pontos de vista”. E sobre como alguns são assustadores, mais, muito mais do que muitos filmes de terror por aí.

Em uma época em que, mais do que finalmente, há denúncias crescentes de abusos físicos, sexuais e mentais na indústria do entretenimento, fiquei bem chocada ao ler críticas sobre o filme “Operação Red Sparrow” dizendo que se tratava de um “thriller erótico”, o “50 tons de cinza” da espionagem e outras coisas do gênero. Achei chocante, até mesmo mais chocante do que aquilo retratado no filme, que é bem chocante per se. 

Vamos por partes. Dá até para entender que algumas pessoas que viram o filme achem que falta química entre o casal principal. Mas não dispensem a realidade de que espiãs e seus alvos podem se apaixonar, como foi o caso real de Marita Lorenz, que se apaixonou por Fidel Castro. Também é bom lembrar que narrativas ficcionais, e até mesmo biográficas também dependem de pontos de vista. E já vimos muitos relatos, sejam em livros ou filmes, romantizando demais e glamourizando a espionagem. “Operação Red Sparrow” mostra a parte bem feia e suja por trás disso. Desde o recrutamento da própria sobrinha, passando pela degradação mental, física e sexual no treinamento, tudo isso é mostrado sem glamour, sem “beleza” nem, pelo menos sob o meu ponto de vista, o propósito de erotizar nada ali. Aliás, não consigo ver estupro como algo erótico. E, sim, temos estupro, abusos físicos e mentais de formas diversas, lavagem cerebral e dessensibilização em relação a todas essas questões no “treinamento”, ou pelo menos a tentativa de fazer isso. 

Ao rever 1984 também nessa semana, não há como não comparar ambos, mesmo que sejam duas coisas diferentes: a tortura “funciona” para fazer com que a pessoa diga o que você quer, mas será que ela necessariamente faz com que a pessoa acredite nisso? 

Por um cinema com menos bond girls e mais filmes como "Atômica" e "Operação Red Sparrow" 

Informações em troca de relações sexuais… Usar o corpo para conseguir informações… Muitos diriam que a pessoa “escolheu” isso, então não seria exatamente “não concordado”, “sem consentimento”, não é? Não é bem assim. Na vida nem tudo é preto no branco e os diversos tons de cinza aparecem aí nessa paleta de situações complexas e mostradas quase como uma parábola em “Operação Red Sparrow”. Nós fazemos escolhas. Nem sempre são o que achamos que seria, nem sempre tínhamos realmente escolhas, por todas serem horríveis, e muitas vezes as pessoas fazem coisas degradantes a si mesmas para sobreviverem. A história e o dia-a-dia têm muitos exemplos disso. Infelizmente, mas é a realidade. 

Mulheres são forçadas a usarem o corpo e outros ardis em programa de treinamento de espionagem russa nesse filme. E não achem que isso só se limita à Rússia, ou aos Estados Unidos, a vida de espião não é o glamour todo que foi perpetuado em muitos filmes de James Bond, gente. Se “Atômica” já mostrou uma agente bem mais realisticamente machucada do que os filmes mais glamourizados, Operação Red Sparrow foi mais brutal, apesar da fotografia bela e dos muitos focos nos tons de vermelho que vão desde o sangue jorrando de corpos até as roupas de bailarina, por exemplo. 

Apesar de o foco maior estar na parte da espionagem, achei bem pontuado o que foi feito para tirar Dominika dos palcos. Tão desumano aquilo [que não vou falar aqui porque é spoiler], mas tão possível que dá medo. De como o ser humano é capaz de fazer coisas tão hediondas, e se prestarmos atenção no mundo em que vivemos, veremos que a ficção retrata a realidade, mesmo que em forma de ficção, as situações são tão plausíveis e possíveis que, por mais que o desfecho encerre alguns pontos positivos para as “boas” pessoas, também vemos questionamentos que ficam sem respostas, a serem respondido por nós: o que são boas pessoas? Quando se tem escolhas péssimas, o que é mais ou menos aceitável? O que poderia ser condenável?


Eu gostei do filme. Eu me senti bem desconfortável com as imagens não porque “ah, não precisavam mostrar tanto corpo e sexo e tortura etc.” e sim porque a tortura, o sexo sem consentimento, os espancamentos etc. são coisas horríveis. E, repito, achar que isso tudo é erótico me assusta. Porque a maior parte das cenas de sexo ali, quase tudo, pois poucas são as vezes em que realmente há consentimento, não têm o propósito de "agradar" o público, portanto, não sendo “erótico”. E se agrada o público a ponto de considerarem aquilo erótico… bem, é um ponto de vista que, para mim ao menos, é assustador. 

Creio que “Operação Red Sparrow” não seja o thriller erótico que talvez muitos queriam ver… mas ele é um filme que conversa com os horrores e não tem medo de expô-los de forma brutal, embora cinematograficamente belo, mas de forma alguma se propondo a encantar o público com a suposta arte de sedução da escola de pardais. Creio que “Operação Red Sparrow” seja um filme necessário. E algumas pessoas deveriam se questionar quando acham a nudez e o gore incômodos, mas se esquecem de ou fecham os olhos para a verdade de que aquela violência tem raízes bem arraigadas na realidade…  e, em muitos casos, parecidos ou diferentes, começa bem perto de casa... com a família que supostamente deveria nos proteger. Infelizmente. 

Nota: 4 pardais e um destroçado cheio de sangue… vermelho e preto. 

Já dá para ter uma boa ideia de como será o filme só por esse trailer. Afinal, entre morrer ou se degradar... as escolhas são realmente dignas de serem chamadas de "escolhas"? =/



Comentários

  1. O longa-metragem definitivamente perde essa força no restante de sua duração, apesar das mazelas relacionadas à Egorova serem fortemente sensitivas pelo público. Quando leio que um filme será baseado em fatos reais, automaticamente chama a minha atenção, eu amo os filmes baseados em livros, adoro ver como os adaptam para a tela grande. Particularmente It - A Coisa, esse filme foi uma surpresa pra mim, já que apesar dos seus dilemas é uma historia de horror que segue a nova escola, utilizando elementos clássicos. Com protagonistas sólidos e um roteiro diferente.

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