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Nasce um movimento, nasce um monstro? - Cyberpunk e o lado feio, bruto e sujo da realidade na ficção


Vamos falar sobre o cyberpunk, um “movimento” literário que teve (e ainda tem) repercussões e influências na TV, no cinema e ainda hoje na própria literatura, mas que, segundo os estudiosos, nasceu e já morreu, mais especificamente nascido em 1983 (com o escritor Bruce Bethke tendo cunhado o termo com a história “Cyberpunk”) e morto em 1991. 

Mas afinal, que diabos é cyberpunk? Como já dizia Oscar Wilde, “definir é limitar”, mas vamos citar uma “definição” aqui:

A parte “cyber” do nome desse movimento reconhece o seu compromisso em explorar as implicações de um mundo cibernético no qual a informação gerada por computador e manipulada torna-se uma nova fundação da realidade. A parte “punk” reconhece a sua atitude alienada e às vezes cínica para com a autoridade e o estabelecimento de todos os tipos (LANDON, 1997, p.160).

E suas influências na vida real? Como estão? Apesar de oficialmente morto, o fantasma do cyberpunk ainda está entre nós. E isso pode ser bom e ruim, não? Mas que tal questionarmos um pouco algumas coisinhas em vez de nos focarmos (tanto) em definições e tal, que tal adentrarmos essas águas lodosas de um subgênero da ficção científica que rompia com e renovava a ficção científica clássica de Arthur C. Clark e Asimov, por exemplo, e trazia a tecnologia e a ciência como referências para levar ao questionamento sobre questões mais humanas, como política, psicologia e religião. 

Na CPBR11, Salvador Bayarr *** fez uma palestra sobre Philip K. Dick, vida, obra e legado, e citou que o mundo que vivemos hoje está muito para mais para PKD do que George Orwell. Sim, embora tenhamos muito mais o que foi “previsto” por PKD, temos alguns elementos Orwellianos, Clarkeanos e muitos outros. O cyberpunk, em termos tecnológicos e culturais, transcendeu as páginas dos livros e das revistas e podemos ver seus “representantes” pelas ruas em nossas casas no dia a dia. Querem exemplos?


A série de TV Mr. Robot pode não ser considerada cyberpunk, mas tem elementos de cyberpunk em seu DNA. Veja esse artigo aqui.



“Ghost in the shell” é um expoente nipônico do cyberpunk. O anime (eu não li o mangá, portanto, não posso falar sobre ele) tem os questionamentos sociais e tecnológicos, sim, mas tem um quê mais espiritual também. E suas influências podem ser vistas no filme “Avatar”, de 2009 - na verdade, elas nem são vistas, infelizmente, no live-action norte-americano do anime, que, entre seus muitos defeitos, deixa todo o questionamento espiritual de lado. 

E aí vem sempre à memória Philip K. Dick. Embora ele mesmo não tenha escrito cyberpunk, ele praticamente inspirou toda uma onda de obras, além da miríade de suas próprias obras, protocyberpunks, pós-cyberpunks e nem tão cyberpunks assim, mas com todos os questionamentos do que é ser humano, da espiritualidade em meio a tanta tecnologia e esse quê do high-tech/low-life que é uma das dicotomias que sempre levam a várias outras dicotomias, entre elas: o problema são as máquinas ou os humanos? A tecnologia pode ser inerentemente algo ruim? Ou ela vira algo ruim por causa de seu uso pelos seres humanos? Ou, na verdade, sua essência é neutra? 



A ficção científica prevê o futuro ou solta migalhas e alimenta os monstros que existem dentro de nós? Será que os autores mais famosos de ficção científica ficariam felizes por terem previsto várias desgraças que hoje já deixaram de fazer parte da ficção? 

*** A palestra (em inglês) de Salvador Bayarr sobre Philip K. Dick na Campus Party 2018 (#CPBR11) pode ser vista, completa, no vídeo abaixo ;) 


Veja também:

Comentários

  1. Muito bom! Me esclareceu algumas dúvidas sobre o movimento. Eu não acho que o cyberpunk morreu, acho que ele se adaptou às novas realidades.

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    1. Que bom! Então, segundo os teóricos, o cyberpunk morreu em 1991, até mesmo pelo que o movimento em si representa, embora vejamos, como falei, o fantasma do cyberpunk por aí. Justamente por ser um "mutante", não é mais cyberpunk. Até mesmo porque vivemos muito dessa "realidade", né? Tem um artigo de estudiosos sobre a genealogia muito bom aqui, se quiser se aprofundar, fiz meio que um basiquinho aqui, talvez faça mais artigos nesse estilo :3 http://www.flacsoandes.edu.ec/comunicacion/aaa/imagenes/publicaciones/pub_106.pdf

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  2. Na verdade acho que o cyberpunk não vai morrer enquanto dependermos da tecnologia. E para mim a tecnologia é algo neutro e são os seres humanos que acabam decidindo o que ela vai se tornar. Uma coisa boa dela pode ser utilizado para o mal, como algo mal ser utilizado para o bom. E sempro me surpreendo ao ouvir que o Dick não é cyberpunk.

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    1. Para entender melhor isso de "morreu", é só pensar nas eras dos quadrinhos. Cada era correspondendo ao Zeitgeist - e é esse espírito do tempo que caracteriza o cyberpunk. O Gibson meio que popularizou o cyberpunk, mas hoje ele mesmo diz que não escreve mais cyberpunk. Na verdade, tem uma checklist para classificar algo como cyberpunk ou não (para os mais puristas, qualquer coisa depois de 1991 já não é mais cyberpunk), eu só não a coloquei aqui porque queria instigar o debate, mas vou incluí-la em um próximo artigo. E, sim, como assim PKD não é cyberpunk, né? Ele meio que lançou as sementes, mas a época dele era outra, e também o cyberpunk mesmo teve essa vida curta, e agora temos a retrowave, o biopunk, solarpunk, e muita coisa que poderia ser cyberpunk meio que se tornou retrofuturista (Blade Runner 2049, por exemplo), e, mesmo que várias outras obras atuais sejam classificadas como cyberpunk, não o são, por causa do Zeitgeist e também porque os questionamentos sociais mudaram, a tecnologia mudou, muito do que eles "previram" se tornou real... mas até mesmo pela nostalgia, o cyberpunk acaba sendo revisitado com frequência. O que não deixa de se encaixar na retrowave, né?

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    2. Mas se o subgênero apenas muda algo por evoluir ele não continua sendo o mesmo? Por exemplo fantasia. Ela evoluiu e mudou ao longos dos anos, mas continua fantasia. Mudamos nossos ideais e sociedade e algumas coisas do Cyber já aconteceram, só que diferente do Steampunk (que já está desatualizado e sendo pouco utilizado) o Cyber continua na nossa vida com grande frequência. Não seria maus certo o "matarmos" só quando descobrirmos um outro tipo de tecnologia? (Só dúvidas mesmo, porque sou bem noob nesse subgênero)

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    3. Vamos por partes, que nem Jack, o Estripador lol
      Cyberpunk é subgênero - o gênero é a ficção científica. Fantasia é o gênero, não um subgênero.
      O Steampunk é retrofuturista. E está ligado ao século XIX. Também tem que ter elementos de uma listinha para ser considerado steampunk.
      A ficção científica, per se, está ligada ao futuro. (Eu sei, dá um nó de pensar em retrofuturismo como subgênero da ficção científica...)
      Só que revisitar o passado e imaginar o que poderia ter sido vai sempre se enquadrar em algum tipo de retrofuturismo. Já o cuberpunk representava muito os medos e as paranoias e a visão (bem pessimista) da tecnologia e da sociedade da década de 1980 até o comecinho dos 90. A segunda parte dessa série de artigos se chamará (*spoiler alert* lol) Isso é muito Black Mirror!
      Como a visão de mundo é diferente, os questionamentos são diferentes, e muito da tecnologia e das previsões já aconteceram (te aconselho a ver o vídeo da palestra, ele fala umas coisas muito fódas sobre as previsões de PKD e o que se faz hoje na ciência), ou se tornaram até diferentes do que foi previsto. (OU igual. Às vezes, assustadoramente igual.), o que surgiu depois de 1991 já não é mais cyberpunk, mesmo que contenha alguns elementos. Exemplo, se uma espécie X tiver parte do DNA da espécie Y, podemos dizer que X = Y? Não, né? Assim é com o cyberpunk. Mesmo que muita coisa antes ou depois tenha elementos do cyberpunk (e sabemos que tem, desde PKD ao próprio Black Mirror), já não é mais cyberpunk.
      Claro que isso tudo dá pano pra manga. E eu queria mesmo gerar um debate aqui nos comentários Como disse, ainda vou citar a checklist daquilo que faz do cyberpunk o que ele é. Mas, segundo os puristas, mesmo que ATUALMENTE, você escreva algo checando todos os quadradinhos dessa lista, não será cyberpunk por causa da época.
      É complicado, mas espero que tenha dado pra entender um pouco melhor.
      E lembra que Star Wars é retrofuturista. Isso me dá agonia. Como o retrofuturismo pode ser um subgênero da ficção científica se a FC tem a ver com o futuro? LOL :)
      Vou tentar correr com a parte em que falo de Black Mirror e a checklist dos elementos do cyberpunk, mas vê o vídeo da palestra e o artigo cujo link postei acima, em resposta à Ada, pra começar a entender melhor e curtir tb ;)

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    4. *cyberpunk e não cuberpunk LOL LOL LOL Escrevi cuberpunk acima :P

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  3. Eu acho um tanto quanto pretensioso declarar a morte do Cyberpunk. Se ainda se produz obras com repercussão e não é um "revival", ele ainda é atuante como movimento artístico. E a ficção científica não prevê o futuro, apenas projeta o presente dentro de uma linha possível. E mesmo que o autor queira antecipar , ele acaba escrevendo sobre seu próprio tempo. Arthur Clark estava inserido no contexto do deslumbramento das viagens espaciais. Não temos naves como as descritas em 2001. O visão Cyberpunk é de que a tecnologia não resolveu problema nenhum, só criou novos., que exatamente o mundo em que vivemos hoje.

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    1. Oi, não fui eu quem disse que o cyberpunk morreu, embora eu concorde com isso: foram os próprios inseridos no movimento, escritores e estudiosos.
      Veja isso:
      "Na década de 90 começaram os anúncios da “morte” do cyberpunk
      enquanto movimento literário. As temáticas centrais são apropriadas e repetidas por outros autores.
      Gibson, Shirley e outros tentam se desvencilhar do termo. Em 1991, a novela Snow Crash de Neal
      Stephenson, é chamada de pós-cyberpunk. Em 1993, Paul Saffo publica o artigo Cyberpunk R.I.P.
      comparando o surgimento e desaparecimento do cyberpunk com a geração beatnik e o movimento
      hippie. "
      De: http://www.razonypalabra.org.mx/anteriores/n52/6Amaral.pdf
      Como eu disse no artigo, tem muitos elementos de cyberpunk em obras atuais, mas concordo que o cyberpunk, assim como a escrita de Clarke e outros, refletia seu tempo.
      É simplista demais dizer que a visão do cyberpunk era de que a tecnologia não resolveu problema nenhum. Era bem mais do que isso. Na verdade, um dos pontos do cyberpunk era o reflexo do medo que se tinha da tecnologia. E da análise das relações humanas com a tecnologia. Respondendo à minha própria pergunta: eu acho que a tecnologia é neutra, e que é o ser humano que traz problemas.
      Como disse o Bruno, acima, "Curativa ou mortífera, o homem decidirá. A ação do homem acaba ditando como o jogo irá funcionar."
      Vou fazer uma série desses artigos. Num próximo eu colocarei a checklist de elementos que são a base do cyberpunk, entre outras coisas.

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