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O Insulto, um filme de Ziad Doueiri, Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro



Somos frutos de feridas que nunca cicatrizaram e cujo feio pus ainda está lá, e muitos de nós ainda as cutucam. Sim, digo “nós” porque, por menos que nos demos conta muita vezes, o ser humano, de modo geral, acaba descanbando para discursos de ódio. 

Estamos socialmente melhores em comparação com a forma como lidávamos com questões sociais do que há 20, 30, 50 anos? De modo geral, sim. Muitos ainda carregam cicatrizes e outros tantos, fantasmas de guerras e ódio passados que acabam transmitindo porque o ser humano tende a perpetuar hábitos já “consolidados” e pensamentos e atitudes “consagrados”. 

Dizer que “O Insulto” é apenas um drama racial” é simplificar demais um filme que é excelente em se aprofundar justamente nas questões do que reveste discursos e crimes de ódio. 

A sinopse é ótima e vai direto ao ponto: Em Beirute, um insulto explosivo leva Toni, um cristão libanês, e Yasser, um refugiado palestino, para o tribunal. De feridas secretas a revelações traumáticas, o circo midiático que envolve o caso divide o Líbano em uma crise social, forçando Toni e Yasser a reconsiderarem suas vidas e preconceitos. 

... e com certeza os responsáveis pelo filme quiseram que nós repensássemos os nosso também! O que ódio que semeamos, que perpetramos, mesmo "sem querer". Porque é natural. Não é natural. Não, não é. 


Será que um insulto é mais grave do que uma agressão física? Depende. tudo depende. Mas o filme nos apresenta um palestino e um cristão, no Líbano, indo a tribunal por causa do que “começou com uma calha”. E então o filme vai construindo e desconstruindo as situações, as pessoas, o ódio que foi e vai sendo e continua sendo semeado, a importância que tem um pedido de desculpas para aquele que se sente totalmente no direito de recebê-la e outras atitudes que acabam levando a mais e mais ódio racial. 

Longe de ser um filme panfletário, eles vai mostrando como o ser humano corrompe e distorce conceitos simples segundo sua situação - as partes do tribunal são incríveis, especialmente para quem, como eu, já tem uma quedinha por esse tipo de narrativa - até acabar mostrando que, na verdade, o passado influencia sim todo ser humano, seja para o bem ou para o mal. Tem aquilo do “culpado por associação”, em que alguém vê uma pessoa de determinada raça/religião/cultura diferente da sua como um fruto ou fantasma daqueles que perpetraram algum mal com sua família, sua própria cultura, país, etc. 

O filme passa do tema geral da intolerância e vê muitas vezes os dois lados da moeda em situações de guerra, de discussão, e muito mais. Nada é preto no branco. Nada é simples nada vida, e a narrativa linear, com apenas uns toques de flashback com recorrência em momentos cruciais, despretensiosa e instigadora nos envolve na situação como um todo e vai desdobrando os problemas até chegar a uma solução que não é fácil, não é simplista, que nos entrega uma “solução” com a qual eu pessoalmente concordo, mas nos deixa ainda pensando e refletindo em vários pontos diferentes, e não apenas o tema da primeira camada, que seria a intolerância e o preconceito e descarregar o ódio em outrem que é vítima por tabela. A fotografia é realista, lembrando um documentário, mas nada amador, a paleta de cores dá um tom realista que se une a excelentes atuações e tudo isso nos convida e nos imergirmos nos mundos e nas questões pessoais dos personagens. É incrível!



Não, tudo não começou com uma calha. Tudo não começou com um insulto. Não só isso, não. É o passado de guerras e ódio que vem para assombrar e encher os corações de um ódio e um egoísmo - a ponto do protagonista passar mais tempo no tribunal do que cuidando da filha recém-nascida… 

Sério, filme que acertou em cheio, nos entregando um resultado potente, gracioso em seus detalhes, poderoso em suas atuações e cenas, e que mereceu totalmente a indicação ao Oscar. Como não vi todos os indicados na categoria, não tenho como dizer que é meu predileto, mas, junto com “Corpo e Alma”, embora seus temas sejam totalmente diferentes (ou não, afinal, tudo meio que se resume a seres humanos e suas relações, não?), foram dois dos filmes indicados à categoria de Melhor Filme Estrangeiro para os quais eu nem dava muita bola, e que acertaram em cheio ao tocar em cordas diferentes e fazer belas canções cinematográficas do belo e do feio no ser humano, em termos metafóricos (ou não). 

Ah, sim, e não achem que o filme só se aplica ao preconceito contra palestinos - é só imaginar a situação com qualquer grupo que sofre com preconceito e funciona. O filme é incrível também por não se limitar a algo regional, tendo um conceito e uma miríade de mensagens amplas demais, o que o torna ainda mais especial. 

Não tive como não pensar na citação de “Extraordinário” - Se tiver que escolher entre estar certo ou ser gentil, escolha ser gentil. E, em um momento crucial e excruciante, eu me senti como a Leeloo em “O quinto elemento”, ao ver as cenas dos horrores perpetrados pelos seres humanos em nome da guerra. Cuidado com o que você semeia. Cuidado com o ódio que você semeia, mesmo sem querer. Que nós semeamos, mesmo "sem querer". Do qual cuidamos quase como se fossem bichinhos de estimação que podem acabar comendo nossos corações no fim das contas. 

Nota: 5 palavras gentis em vez de um insulto ;)



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