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Resenha do livro Só os animais salvam, de Ceridwen Dovey (Editora Darkside)


Minha bebê praticamente posou para as fotos sendo apenas linda como ela naturalmente é <3

Animais, vida, morte e guerras. “Só os animais salvam” é um livro de contos que leva o leitor pelas trincheiras, pelos amores e dissabores nas vidas de animais, os narradores e personagens, usados, amados, esquecidos e relegados pelos humanos. 




Entre guerras, e não somente as mais conhecidas, como a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, como guerras menos faladas, conflitos locais, somos levados à morte em meio aos conflitos humanos, ou em decorrência disso - como exemplo, animais usados em guerras. É triste demais. Não é aquele livro fofinho que faz surgir um sorriso bobo no rosto, embora toda a tristeza retratada não deixe de ter no meio momentos belos e felizes, pois tristeza e felicidade não são mutuamente excludentes. 




Em meio aos conflitos dos humanos, muitos animais sofrem. E eles não pediram por isso. Sejam animais de estimação ou não - vejam quantos animais são abandonados por motivos ridículos e nada humanos! 


Aqui, os animais de certa forma ajudam a definir os seres humanos. Por vezes mesquinhos, horríveis, capazes de amar em um dia e ignorar ou odiar no dia seguinte. Humanos egoístas, mesquinhos, odiosos, e animais com sentimentos, amores, ódios, conflitos, tudo tão profundo e belo e triste que não tem como a gente fechar a última página e não pensar em uma pergunta que costuma ser típica da ficção científica, em expoentes como as obras de Philip K. Dick: O que é ser humano? Se ser humano é essa coisa cruel e brutal retratada neste livro, que não deixa de ser uma dura verdade que muitos preferem ignorar, a coisa é bem triste. Ainda vejo na minha mente os animaizinhos sendo usados de formas hediondas na guerra, os bichinhos explodindo e… =/ 


"Ele vai para o inferno por isso, vai sim", continuou. "O goanna está vindo para levá-lo. O fantasma do Natal passado.
(...)
Também tenho fantasmas em meu passado, quis contar a Henry Lawson. Os fantasmas dos outros camelos embarcados comigo na ilha de Tenerife, nossa terra natal, vendidos juntamente aos treinadores - que vinham de lugares ainda mais distantes - para um cavalheiro inglês que seguia para a Austrália. Fui o único de minha caravana a sobreviver àquela travessia tenebrosa pelo mar. As mulheres morreram à minha volta, no porão de cargas, uma por uma."

“Alma de Gata” e “Alma de Chimpanzé” são dois dos meus prediletos. Questões de gênero, questões de o quão humano é um animal, e o quão “animal” é um humano… questões como abandono, são tantas as coisas feias e sujas abordadas no livro de uma forma tão bela, com uma escrita que tem vozes diferentes para cada animal-narrador e a época em que se passa cada história. “Alma de Chimpanzé” é, para mim, o conto mais forte do livro e, junto com muitas histórias sobre a humanização dos robôs e desumanização dos humanos, me levou a questionar novamente o que é ser humano e por que ser tão cruel. 

"Herr Karsten, o que os oprimidos aprendem com sua opressão? Aprendem compaixão, bondade ou empatia, um desejo de evitar o sofrimento dos outros? Não! Aprendem apenas isto: da próxima vez, consiga um porrete maior!"

Não tem como eu não me lembrar do "vilão" do filme do Pantera Negra com esse trecho... Bem, voltando ao livro... Em cada um dos contos de Ceridwen Dovey, somos imersos nas sensações de cada animal que narra o conto, cada um intitulado “Alma de [o animal]” e com a data de morte deste antes do início da história, que começa sempre com epígrafes. 







"Descobri que ela escondia todo o pão que ganhava sob a esteira. O medo da fome estava tão arraigado que ela preferia guardar a comida em vez de comê-la. Um instinto animal deturpado fez o terror da fome ser pior que suas agruras reais.
Pulga na cama. Foi difícil a decisão de pegá-la e comê-la, em vez de dá-la a meu grilo. Mas eu estava faminta."

"Emoções fortes gastam muita energia. E já não nos resta muito mais."

***

"O amor cheira a morte."

Temos as presenças “ilustres” de George Orwell, Franz Kafka, Virginia Woolf, Liev Tosltói, Douglas Adams, entre outros no livro, em meio a cada história, que nos transportam bela e por vezes cruelmente ao momento histórico em que se passam. 


"Ouvi-o dizer que gostava de colocar animais em suas histórias porque fazia os humanos parecerem piores."

Tanto a ilustração da capa, como a paleta de cores usada no livro, como as ilustrações internas, belíssimas, passam aquele quê de melancolia que os contos em si também têm. Alguns são melhores do que os outros, mas não desgostei de nenhum deles. 


"Só deve arriscar o nudismo aquele que aprendeu a vestir roupas."

***

"Ter prazer na dor, tirar forças da privação, isso é ser humano."

***

"A Inglaterra quer espremer a Alemanha até o caroço. E nós, minha cara, somos o caroço."

Apesar de todas as coisas feias, temos momentos sublimes entre os próprios animais e e até mesmo entre eles e seus “humanos”. Novamente preciso citar PKD - a empatia. Por favor, gente, a empatia. Como disse a Dhuane lá quando ela falou sobre o evento da New Pop, isso de se identificar com os personagens… nem sempre é necessário. A história… não importa que você não seja ou não tenha um gato, ou cachorro, ou camelo, enfim, não seja um ser humano animalesco ou robótico e tente desenvolver a empatia, se você já não tem. Se tiver, prepare-se para lágrimas. O livro fala sobre abuso, uso, abandono etc., mas prega amor. E, mesmo em meio a toda essa desolação, nos resta ter esperança de uma evolução social e pessoal junto com a evolução tecnológica e os avanços científicos e culturais. Menos ódio, mais amor, menos guerras, mais paz. Por favor?


"Lambi suas lágrimas, e isso fez com que caíssem ainda mais."

Nota: 5 ovelhinhas pulando contentes em um mundo sem maldade (utopia, eu sei, mas vale ter esperanças)




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