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Blade Runner 2049 e a revisitação do universo cyberpunk de Blade Runner


Storyline: K, um Blade Runner, após “aposentar” um androide, encontra um mistério enterrado há mais de 30 anos.

    “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas”* de Philip K. Dick, escrito em 1968 e que inspirou o filme “Blade Runner”, é uma jornada complexa e introspectiva por um universo em que o elemento definidor da humanidade é o principal tema de busca e observação, tendo como alguns destaques as questões relacionadas a Caixa de Empatia (e o modificador de humor) e os animais, sendo o primeiro completamente ausente na adaptação para os cinemas e o segundo transformado em um recurso da trama bastante inteligente. Guardadas as devidas proporções, “Blade Runner” resguarda poucas características em relação ao seu livro fonte, mas a busca pela definição do humano se manteve vigorosa. Trinta anos depois da primeira incursão cinematográfica, “Blade Runner 2049” retorna ao sombrio e imersivo universo distópico de seu antecessor para, agora, dar um passo adiante na mesmérica busca por uma unidade coerente de projeção que permita entender o que faz do humano, um ser humano.

    Se no filme dirigido por Ridley Scott em 1982 a dúvida acerca da possibilidade de seu protagonista ser um replicante emergia vagarosamente rumo a um potente desfecho, na direta continuação regida por Denis Villeneuve, as bases são invertidas. Partindo diretamente do pressuposto de que seu protagonista é de fato um androide, o questionamento acerca de sua potencial humanidade é combustível dramático e reflexivo que, quando bem manejado pelo roteiro, gera reverberações ainda mais introspectivas do que seu antecessor.



   Assim, o longa-metragem apresenta um futuro ainda mais distante onde diferenças sociais de classe e gênero pioraram consideravelmente. A calamidade geográfica deixou de ser um agravante para se tornar uma condicional da decadência inevitável. Na redoma estéril e sintética, surge diante do espectador um espetáculo visual digno de nota, conjecturado por uma direção de arte soberba e a coerente e intensa fotografia de Roger Deakins. Elemento concretizado do imaginário colocado em quadro que jamais se torna puramente plástico (como de praxe nas pífias ficções científicas que chegam aos cinemas todos os anos), mas prático e dramático, território onde informações importantes são acrescidas para o desenvolvimento das personagens e para os contornos metafóricos. E aqui a direção de Denis Villeneuve, em seu estilo dosado de controle de informação e elipses relevantes, dá um passo para trás frente sua matéria-prima, não no sentido negativo, mas sim de respeito a toda uma mitologia que requisita de seu manipulador a habilidade para contar e conduzir, mais do que surpreender e sobrepujar, pois, sua magnitude inerente já é capaz de fazê-lo. Doravante, o tônus do diretor surge nas cenas de ação/suspense que se destacam por sua síntese impactante.


    Hampton Fancher, roteirista do primeiro "Blade Runner", junto de Michael Green (famoso por seus péssimos roteiros) comanda um texto de bons diálogos e progressão dosada. Contudo, há um desequilíbrio prejudicial na arquitetura da escrita que sobrecarrega cenas específicas com um volume grande de informações e apresentações, tornando-as cépticas e deselegantes (como todas as que trazem a figura de Wallace) e dando demasiado destaque a outras que consomem grande tempo de tela para acrescentar muito pouco. Por outro lado, existe um processo constante de reiteração de informações que, apesar de fatigar o espectador atento por meio da repetição, faz um inteligente trabalho de desviar a atenção ao pontuar fragmentos de menos importância, blindando informações relevantes que serão ativadas apenas mais à frente a fim de extrair um grande impacto dramático. Sistema que faz com que o desfecho funcione e tende a suavizar flutuações do roteiro provenientes de uma suspensão de descrença que pede ao espectador um pouco mais de comprometimento para aceitar o encadeamento causal deficiente do terceiro ato. Nesse espaço de desenvolvimento narrativo, a montagem de John Walker elimina espaços de interação intermediários e ressalta cenas de apresentação, o que tende a gerar uma construção semelhante à memória tão comentada no subtexto da fala de suas personagens. Mesmo que sacrificando concisão, confiante na capacidade de agregar unidade proveniente da edição de som histriônica, mas potente, e da ótima trilha musical (atmosférica e talvez um tanto recorrente), a montagem se arrisca em cortes estruturais ríspidos e funcionais.


    E se no primeiro filme, a memória era um elemento importante, que extraia impacto a partir de uma apresentação lírica e uma impressão ambígua, em “Blade Runner 2049”, ela desempenha um papel fundamental de constituição narrativa e também é o pivô da nova discussão acerca do ser humano. Mas, para seguir adiante, não bastaria apenas desenvolver este aspecto tão nuclear. Sendo assim, as escolhas associadas à memória, e consequente a formação de uma personalidade capaz de tomá-las é o que proporciona o novo fôlego do tema. Centradas na figura de K, as escolhas deixam de ser apenas elementos de construção da narrativa para ganhar reverberações metafóricas e relevância discursiva, em especial nos minutos finais (mesmo que sua condução seja bastante frágil). Por outro lado, a fim de sublevar em definitivo os argumentos acerca da constituição física como elemento fundamental do ser humano, Joi, um personagem puramente holográfico, se mostra um dos elementos mais interessantes (e humanos) do roteiro. Mesmo que suas ações ocorram apenas em função de K, às vezes em andamentos terrivelmente óbvios, ainda assim a empatia está presente e a coerência do todo garante às peças a sua unidade. E como forma de incitar o espectador a prospecções mais incisivas, o longa-metragem ainda apresenta elementos como o enxerto de “Fogo Pálido” de Nabokov (um livro já bastante metalinguístico) e outros pequenos comentários que revelam a importância do toque e do suposto “contato físico” como uma falsa pista rumo à saída do labirinto acerca da humanidade essencial, enquanto o contato humano em termos afetivos parece mais próximo de uma resposta.

Clique na imagem para vê-la em tamanho maior

   É dessa forma que “Blade Runner 2049” restaura o impressionante universo Cyberpunk do filme de 1982 e permite ao espectador uma jornada visualmente estonteante pelos meandros de uma sociedade que há muito se esqueceu da empatia, da memória e de sua própria humanidade. 

Texto de Raphael Cubakowic

Raphael Cubakowic é montador, crítico de cinema e atua como editor e assistente de curadoria na Versátil Home Vídeo. Além de experiência com roteiro e som de curtas-metragens, é responsável pela montagem de obras como "Fragmentos de Uma Metrópole", "Hora Extra" e "Pontos de Vista". 
Crítica originalmente publicada aqui.  


Clique aqui para ler a resenha do livro "Androides sonham com ovelhas elétricas", por Ana Death. 

Faixa Memory da trilha sonora



Comentários

  1. Me parece muito interessante os filmes por que podemos encontrar de diferentes gêneros. De forma interessante, o criador optou por inserir uma cena de abertura com personagens novos, o que acaba sendo um choque para o espectador. Desde que vi o elenco de Blade Runner 2049 imaginei que seria uma grande produção, já que tem a participação de atores muito reconhecidos, pessoalmente eu irei ver por causo do ator Harrison Ford, é muito comprometido. É um dos melhores Filmes de Drama e vale muito la pena ver, os recomendo muito.

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