Crítica do filme "Tudo que quero", um filme de Ben Lewin. Eu amei! Quer saber mais? Só continuar lendo. LLAP


O poder de uma história não afeta apenas aqueles que são tocados por ela quando a leem ou veem, mas sim a quem as escreve também. 
"Tudo que quero" (Please Standy By - e ah, a importância dessa frase para Wendy... omg! T___T) é um filme fofinho e divertido, com vários momentos que fazem acenos para fãs de Star Trek, como… ah, um personagem cujo nome não vou citar e de repente começa a falar em Klingon! Toda a parte de Wendy ser fã de Star Trek, de assistir a episódios e escrever um roteiro de fanfic para um concurso da Paramount, tudo isso também tem um viés metafórico e até mesmo uma certa identificação de Wendy com Spock, é a base para um retrato de momentos importantes na vida de uma personagem autista, Wendy. [É curioso saber, no entanto, que, embora ela tenha sido escrita como autista, a palavra em si não é usada em momento algum no filme.]
O autismo, também conhecido como TEA - transtornos do espectro autista - pode ser “definido”, em linhas simples, como uma polarização privilegiada do mundo dos pensamentos, das representações e dos sentimentos pessoais, com perda, em maior ou menor grau, da relação com as pessoas e comportamento social e com o mundo que cerca o autista. Alguns autistas são altamente funcionais, outros, não, os graus variam, assim como as peculiaridades, de pessoa para pessoa. Há também a Síndrome de Asperger, que é uma síndrome do espectro autista. Bem, não vou e nem tenho como fazer nenhum tratado sobre autismo aqui, nem tenho como dizer se a representação de Wendy como autista é cem por cento realista, mas tenho sim como analisar como essa personagem foi representada. 
Embora muitos pensem que o diagnóstico de autismo condena a criança e o futuro adulto a uma vida solitária e desprovida de realizações, a história provou o contrário, que muitos com as formas de autismo altamente funcional fizeram grandes feitos. Você sabia que Bill Gates é autista? Que Anthony Hopkins é autista? Então é totalmente convincente que Wendy tenha uma imaginação excelente e tenha criado um roteiro para um concurso como no filme. 
Pode até ser vista como uma opinião impopular, mas, embora a personagem principal seja autista, mas a atriz, não, não vejo problema nisso. Eu discordo de muitos que acham (muitas vezes sem um motivo de fato, só por achismo ou para ter do que reclamar...) que um personagem gay deve ser representado por um ator gay, o que, aliás, acontecia antigamente, por motivos de preconceito, infelizmente, pois nenhum ator não gay ia querer “esses papéis” - triste assim -, entre outros, mas, ainda no caso de um personagem autista, é difícil, pelas próprias peculiaridades do transtorno, ter muitos atores autistas, ainda mais alguma que se encaixasse no que os criadores queriam para Wendy. Usando uma forma de exagero para traçar a comparação, bem, não podemos dizer que apenas atores e atrizes com as condições x, y e z façam determinados papéis - pois é ficção, e o trabalho do ator é atuar. Imagine onde iríamos parar se apenas assassinos pudessem fazer papel de assassinos no cinema… Li relatos de várias pessoas que se encontram dentro do espectro autista e que disseram que não conseguem nem se imaginar atuando, ou seja, não é simples assim. Mas há quatro atores autistas no filme, cujos nomes aparecem nos créditos. Isso é muito importante em termos políticos e sociais, claro. 

Devemos bater palmas para a representação positiva do autismo no filme. Mas, a essa altura, além de fofinho e representativo, você já deve estar se perguntando o que mais achei do filme, não?

Então, eu adorei o filme! Adorei a personagem da Wendy e seu amor por Star Trek e sim, eu super me identifiquei com a forma como ela meio que se identifica com o Spock, e gente, aquele catioríneo! Pensa num cachorrinho que rouba a cena várias vezes em um filme (como em Melhor é Impossível, por exemplo, como bem me lembrou a Gabi do @livrocitose hehe)! Temos um catioríneo roubando cenas, temos toda a inadequação social de Wendy que, embora possa render risadas (e várias por identificação, mesmo não sendo autista, pelo menos até onde eu saiba…), de modo algum é colocada como algo ridículo. 

Tocante e sincero, o filme exala incompreensão mesclada com tentativa de fazer “o melhor para ela”. Como a estrada para o inferno está pavimentada com boas intenções, ninguém bota muita fé nela e em seu sonho. E quando Wendy cai na estrada para perseguir seu sonho e entregar seu roteiro, ela se prova muito mais adulta e capaz do que seus “cuidadores” querem ou conseguem admitir que ela seja. Não é aquela típica comédia tosca para a gente rir do começo ao fim. Não é totalmente de nicho por causa de Star Trek… Ah, não entenda errado. Sim, os Tribbles - Pingos -, o Klingon, as roupas, mochila etc. de Star Trek, tudo isso está sim lá. Mas o foco é o lado humano - de fãs ou não. Ainda assim, nós, fãs, somos presenteados com uma coisa linda da indignação do filho da cuidadora de Wendy quando ela confunde Star Wars com Star Trek! Me senti realizada pessoalmente, porque eu juro que não entendo como podem confundir os dois! É. tão. diferente!

Ah, outra coisa que adorei e foi salientada foi como pessoas “normais” surtando ficam indignadas quando os outros se incomodam com isso, mas pessoas com autismo… aí têm que aceitar tudo, não? Mas muita coisa não se faz realmente por maldade. Scottie parece mesmo se importar com Wendy, e sua irmã também. Talvez a parcial incompreensão dos processos da mente do autista, por mais que os estudos estejam mais avançados, seja um obstáculo. 

“Tudo que quero” pode não ser aquela obra-prima fantástica nem do nicho nerd, nem da representação do autismo, nada realmente excepcional, mas é, como disse Maxfield Sparrou aqui, um filme subversivo “na moita”, cujas ideias e abordagens entram de fininho nas mentes das pessoas e, voilà, se instalam. Precisamos de mais filmes assim. Filmes que mostram distúrbios e deficiências (como o lindinho “De encontro com a vida”, que já indico e do qual falarei em breve aqui) com um viés positivo. Por um mundo melhor, certo? E, ah, conectando os pontos com o que falei lá no começo. Escrever sua história foi importante para Wendy. [E a memória dela, a memória... não vou entrar em detalhes para não soltar spoilers e estragar muita coisa, mas que memória!] Ver essa história foi importante para mim. O entretenimento molda pessoas, gerações, para o bem e para o mal. Então, que filmes sorrateiramente subversivos como esse comecem a surgir e sejam bem aceitos, cada vez mais. 

Vida longa e próspera. 
Nota: 5 tribbles/pingos que podem dar cria e trazer mais filminhos bem-vindos como este ;)
Qapla’

[Estreia em 26/04]

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Comentários

  1. Respostas
    1. Precisa! Muito amor envolvido mesmo xD Ah, e a zoeira com quem confunde Star Wars com Star Trek... não tem preço LOL Qapla' + LLAP :)

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  2. Depois volta aqui e me conta o que achou do filme ;)

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  3. Muito importante tratar dessa temática e cachorineos realmente roubam a cena ;)

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