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De encontro com a vida, de Marc Rothemund, é um encantador encontro às cegas com o amor, com a superação e com o sucesso, além de render muitas risadas e uma quentura fofa no coração

Não perca seus sonhos de vista



“De encontro com a vida” (Mein Blind Date mit dem Leben) é uma comédia romântica alemã. Eu não me lembro de algum dia antes ter visto alguma comédia romântica alemã. Na verdade, não me lembro de ter visto algum filme alemão que não fosse drama. Quase sempre, drama. Ou sempre, drama. Enfim… Rapaz, agora eu preciso dizer para todo mundo: assistam a esse filme porque é a coisa mais fofa, divertida, que merece nota 11 de 10. Sério mesmo! 

Eu adoro romcoms. Tem gente que considera guilty pleasure, e não tenho como me esquecer do Batman de Lego Batman ser viciado em romcom. Pois é, eu sou que nem o Batman. Amo a boa e velha comédia romântica. Mesmo as clichezonas. Então imagina só a alegria de ver uma comédia romântica que, sim, segue a fórmula das romcoms, claro, com direito a final feliz (por favor, obrigada), mas que, ao mesmo tempo em que segue a fórmula da comédia romântica, tem uma sensibilidade incrível, não torna os personagens caricatos e tem uma abordagem humana e extremamente divertida de situações tragicômicas, e que tem aquele amigo que, ah!, eu quero um amigo como o Max, por favor!  

Saliya é um rapaz do Sri-Lanka na Alemanha, que sonha em trabalhar em um hotel 5 estrelas, que perde nada mais nada menos do que 95% de sua visão devido a uma doença hereditária. Ele praticamente tem um “encontro às cegas” não só com a vida, mas com uma moça que ele conhece no trabalho também… mas estou me adiantando. Vamos lá. 


Um filme feel-good de que todos nós precisamos em algum momento de nossas vidas, “De encontro com a vida” tem atores fantásticos, carismáticos, e apresenta uma retratação tão positiva da maioria das pessoas, que é simplesmente um filme tão bem-vindo! Claro que haverá algo tremendamente decepcionante e uma das pessoas horríveis é o pai de Salyia… é muito triste, mas, mesmo quando mostra as partes dramáticas, com a rejeição do pai logo de cara e aquele momento em que tudo dá errado antes de dar certo, o filme não descamba nos clichês mais que batidos e nos traz cenas lindas, tanto em termos de fotografia, bem colorida, com muitos planos abertos e luz natural, quanto em termos de história, pois as interações entre a maioria dos personagens são repletas de carinho, empatia, parece que o filme transborda amor e alegria e vontade de viver e, claro, superação - e o mais impressionate: é com base em fatos reais. 

O próprio Salyia escreveu o roteiro do filme, e tinha escrito, em 2009, sua autobiografia, em que ele conta como, por quinze anos, ele escondeu que ele tinha apenas cinco por cento de visão, para conseguir fazer uma carreira no mundo daqueles que enxergam. O tato, seus ouvidos e sua intuição substituem sua vista. Ele aprende com o uso de voz no computador, mapas da cidade, memorizando os menus de bebidas do bar… E vemos isso nas telas. Só que vemos uma versão bem mais otimista, ainda que com os percalços, ao mesmo tempo em que ele se recusa a contar até mesmo para sua amada que ele é quase cego, até o ponto em que tudo desaba e ele acaba sendo aceito assim e se aceitando assim também. 



Achei que seria uma comédia que fosse pender mais para o lado agridoce, mas ela é mais docinha: tudo acaba dando super certo no final, tanto em termos profissionais quanto no campo amoroso, mas, hey, gente - é uma versão fictícia e romantizada de uma história real, não é um drama, apesar de ser triste o que acontece com Salyia, claro, sua perda de visão… então, minha sugestão é que você entre nesse encontro às cegas com esse filme e saia de lá com uma sensação boa de que o mundo pode ser menos feio, sujo e malvado do que ele realmente é.

Nota: Cinco taças limpinhas e tinindo! 
Estreia: 19/04


Trailer:



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