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“O Dia Depois”, filme do sul-coreano Hong Sang-Soo - Tive de mastigá-lo duas vezes para digeri-lo melhor, mas não é totalmente indigesto. Saibam por que a seguir…



Às vezes a minha experiência com o cinema autoral é excelente, como foi o caso com o filme “Quase memória”, do Ruy Guerra. Às vezes, mesmo apreciando a arte em si, o filme não toca naquela corda (esquecida ou não) no meu coração. Esse foi o caso para mim com “O dia depois”, do coreano Hong Sang-Soo. A fotografia é incrivelmente bela, ainda mais que eu particularmente amo filmes com uma bela fotografia em preto e branco, e o uso da câmera: com amplas panorâmicas e zoom, são pontos fortes, mas muito da trama em si só fez mais sentido para mim depois de um pouco de pesquisa sobre o casamento e o divórcio na Coreia do Sul. 

Eu sei que o filme tem umas pinceladas autobiográficas, já que recentemente o cineasta admitiu ter tido um caso com a atriz que faz a funcionária em seu primeiro dia no serviço, Areum, a Kim-Min-Hee, no filme “O dia depois”. E então, após essa pesquisa sobre casamento e divórcio na Coreia do Sul (cliquem aqui se ficaram curiosos por alguns - muitos - detalhes a mais), e vendo como as pessoas são (ainda) antagonizadas depois de se divorciarem, bem, pelo menos um pouco a pergunta “Por que diabos ele simplesmente não se divorcia?” foi meio que respondida, mas resolvi ver o filme novamente, dessa vez tanto sob o prisma da “releitura” quanto de ver a obra com um novo olhar, este consciente das informações não somente culturais como autobiográficas. E então sim eu consegui chegar a uma ideia melhor sobre o filme que, ainda que nem de longe tenha ficado entre os meus prediletos do ano,  acabou meio que me fazendo ter vontade de rever um outro filme sobre o qual eu já falei aqui e que, dependendo da minha “releitura”, talvez eu faça alguns comentários extras depois. ;)




Mas falemos de “O dia depois” e o que eu finalmente achei do filme! Eu aceitei o desafio de ver um filme de um diretor renomado, com seu cinema autoral, conhecido como o Woody Allen sul-coreano porque eu gosto de ver obras novas e menos conhecidas, já vi alguns filmes coreanos fantásticos, como Oldboy e A werewolf boy, e alguns k-dramas, me perguntei: então, por que não?

Logo no início do filme, a esposa de Bongwan lhe pergunta se ele tem uma amante. A gente sabe que ele está mentindo, mesmo que não tenha lido mais sobre o tema do filme, só pelas esquivas e evasivas dele. Logo depois nos são apresentadas cenas em flashback e, nesse caso, tanto da primeira quanto da segunda vez em que vi o filme, o uso do flashback, e não sei se foi proposital ou não, me pareceu confuso, não dando para notar que era flashback logo de cara. Isso me incomodou um pouco. E assim, no primeiro dia de trabalho de Areum com ele, ele acaba fazendo a ela várias perguntas pessoais, e eu achei isso um tanto quanto incômodo; novamente, não sei se era a intenção de mostrá-lo como invasivo mesmo, ainda mais que deveríamos levar em conta que a ex-funcionária dele que Areum está substituindo era sua amante… enfim… 

Algo que me incomodou também foi o Bongwan pedir para Areum chamá-lo de chefe, quando ele a chama pelo prenome; bem, seja algo cultural ou não, se era para ser realmente informal, por que ela não pode chamá-lo pelo prenome também? Isso é para lembrá-la de que ele é o chefe? Para lembrá-la de “seu lugar”? (Uma sobrancelha minha se ergue. seria machismo? Teria algo a ver com o fetiche chefe-secretária?  Um aceno do diretor ao assédio que está sendo desmascarado no mundo do cinema?  Esse lance do poder? Hummm…) 

Lembrando ainda que ele teve um caso com sua antiga funcionária, bem, essa insistência na informalidade, que na cultura deles não é assim tão normal nem comum, na verdade me faz ter ainda mais antipatia pelo protagonista. O homem, dono de editora e escritor, que contrata belas mulheres e que já teve caso com uma e usa a outra para encobrir seus rastros. Péssima pessoa, sério. 
No geral, coitada da Areum. Dá raiva dele de novo em vários momentos. Ainda mais no momento em que ele a demite, depois de ela querer sair e ele pedir que ela ficasse. Parece aquela coisa de que ele não quer sair por baixo, sabe?

Não vou entrar em detalhes demais para não encher vocês de spoilers, mas ele acaba sendo uma pessoa derrotada no final, mas nem assim ele ganha a minha empatia. Com essa “releitura”, eu senti na verdade mais empatia ainda do que na primeira vez por Areum, já que a amante dele foi outra que não conseguiu me cativar. Areum acabou entrando de gaiata em um barco furado de um drama pessoal de pessoas que ela nunca tinha visto antes, quando tudo que queria era apenas um emprego. O entrelaçamento do real com a ficção na história do filme também aparece quando a atriz que faz Areum, ex-amante do diretor, é “confundida” com a amante do personagem principal no filme. 


O filme não é ruim, mas eu me senti em vários momentos como se estivesse ao lado deles na mesa do restaurante, vendo as situações se desenrolarem de fora, em vez de me envolver com a trama. O que acaba me levando à conclusão de que não fiquei indiferente ao filme, mesmo que não tenha me envolvido tanto com ele, acabou sendo um filme que despertou minha curiosidade e me levou a refletir. O que já é algum mérito.

Nota: 3 copos cheios de soju. (Gente, aquilo é forte. E eles bebem soju em um dia de trabalho. Realmente, esse chefe é um tanto quanto bizarro. hehe) 




Comentários

  1. Vi um k-drama chamado Marriage not Dating em que o cara trai a esposa desde sempre, ela sabe e não pede o divórcio para não estragar a reputação dele e da família. Não vou contar o que acontece com eles no fim, caso você queira assistir. Mas acho que na Coreia o divórcio ainda é mesmo mal visto e é melhor a pessoa ser infeliz até o fim do que mostrar pra sociedade que não leva uma vida "perfeita".

    Lembrei aqui de um outro drama em que o cara vive com a amante mas todo o resto do mundo ainda acha que ele tá com a esposa, porque quando ele precisa ir em eventos e coisas assim a ex-esposa que não é ex-esposa vai com ele (o nome do drama é Heirs).

    No geral, quanto mais rica a família menos escândalo ela quer atrair para si (isso nos dramas, claro).

    Em outro drama a moça começa a namorar com o chefe (que também é um chef de cozinha) é só chama ele de Chef. Não tinha parado pra pensar nisso, mas acho que é meio machismo sim. Assim como a mulher ter que andar uns passos atrás do homem sempre. São coisas que a gente não repara muito.

    Enfim, a Coreia pode ser bem desenvolvida em alguns aspectos, mas em outros ela e bem atrasada.

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