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Praça Paris, um filme de Lucia Murat, é um convite à empatia... não apenas pelos desfavorecidos, mas pelos seres humanos (bônus: entrevistas com diretora e protagonistas)


“Praça Paris”, novo filme da diretora Lucia Murat, tem estreia nacional confirmada dia 26 de abril. A coprodução Brasil-Portugal-Argentina é um thriller que mostra o conflito entre uma psicanalista portuguesa, Camila (Joana de Verona), que veio ao Brasil para desenvolver uma pesquisa sobre violência, e sua paciente, Glória (Grace Passô), num Centro de Terapia de uma universidade brasileira (UERJ). Glória é ascensorista na universidade e tem uma história de violência muito difícil: violentada pelo pai, tem apenas no irmão, Jonas (Alex Brasil), traficante do morro, a proteção para seguir sua vida na comunidade.  O filme mostra uma relação de transferência ao inverso, onde o medo do outro acaba dominando a trama e retrata a violência que voltou a explodir no Rio através da distância entre as duas personagens centrais.

"Todo mundo é bicho."

Pelo que eu tinha lido antes sobre o filme, eu notei a problemática sobre o julgamento e preconceito (temas do filme) até mesmo em algumas críticas. Eu saí do cinema com empatia pelos personagens, sim, mas tentando entender todos os lados. É retratado preconceito contra o homem negro, sim, apenas por ele ser negro já se deduz que está fazendo algo suspeito. Há a visão da terapeuta estrangeira, a princípio deslocada e depois, pelo menos do meu ponto de vista, vítima da cultura do medo que “rege” a própria sociedade, especialmente pelo que ouço dizer do Rio de Janeiro. Mesmo sendo brasileira, eu mesma quase me sinto estrangeira, de tão diferente e vasto que é nosso país. Consegui sentir empatia e entender sim o lado de Glória, mas também entendo o lado de Camila, especialmente quando ela diz que não temos como assumir a vida de uma outra pessoa. Sim, por mais que usemos de empatia e tentemos entender outra pessoa e sua vida, não temos o mesmo background sociocultural que ela, o que torna de fato impossível saber exatamente como é estar naquela situação. 


Acho extremamente importante ver os dois lados da moeda, e os vários matizes entre o branco (a soma de todas as cores) e o preto (a ausência de cor). Só não consegui mesmo simpatizar com a polícia abusando de seu poder quando seu lema é servir e proteger. Inaceitável. 

Outra coisa importante a se salientar, não desmerecendo de modo algum o preconceito contra homens e mulheres negras, mas a forma repulsivamente invasiva como as pessoas, independente de credo, raça ou cor, tendem a agir para com as outras. Vemos isso no cara pregando na rua que pega Camila pelo braço, sem respeito algum por ela. No rapaz que começa a agredi-la verbalmente porque ela não quer ajuda. Chamar alguém de branquela não é legal. Por favor, não vamos pregar igualdade usando de racismo inverso, certo? Respeitar as pessoas e o espaço pessoal dela é mais do que necessário. 

"Estupro não tem perdão."

Sim, a vida de Glória é, fazendo um trocadilho infame, bem inglória. Mas ela mesma se questiona quanto a sua responsabilidade por fatos horríveis. Ela foi e é vítima, sim, mas ela também é humana e acerta e erra. E, para uma pessoa que não convive com a violência no seu dia a dia, a sensação de estar sendo ameaçada por algo contra o que ela gostaria de estar blindada não é em si moralmente condenável, assim como não creio que uma pessoa seja culpada pela decisão de outra e crime de outra apenas por “reclamar” de uma pessoa para outra, como ocorre com Glória e seu irmão - aliás, o relacionamento entre ambos é complexo, levemente assustador em si, já que, mesmo sabendo do que ele é capaz, Glória se sente meio que em dívida com ele. 

Sim, os assuntos abordados no filme renderiam horas e horas de debate, e ele é incrível nisso de fazer a gente pensar e refletir e não creio que a terapeuta seja uma vilã, como alguns sugeriram. Uma terapeuta não é nossa amiga. É uma profissional. E quando os limites da terapia e da “amizade” ficam borrados, bem… é tenso. 

Destaque para o bom uso das cores, da câmera, inclusive uma cena bem à la filme noir que se esvanece e dá lugar a algo bem com cara de docufilme. O uso da câmera que capta imagens desfocadas, especificamente em um monte climático também foi genial. Outro destaque para a trilha sonora. Lágrimas do céu é um fado simplesmente fantástico!  




O filme é um convite ao exercício da empatia. Em que as pessoas deveriam tentar, sempre tentar, pois não é possível realmente captar 100% do que o outro vive ou sente, pois você não é ele/ela, se colocar no lugar de todos os personagens, e não somente daqueles que são aparentemente desfavorecidos. Porque independente de raça, sexo, credo, cor, orientação sexual, etc., as pessoas têm em comum o “simples” fato de serem (complexos) seres humanos.

Nota: 5 lágrimas caindo no oceano

Curiosidades: Praça Paris, no bairro da Glória, próximo ao centro do Rio de Janeiro, tem jardins em estilo Francês, semelhante aos do Palácio de Versailhes, com grandes gramados, lago e chafariz, em composição simétrica. É uma relíquia do final da Belle Epoque. Não creio que tenha sido por acaso (e provavelmente não só por isso) que o nome da personagem da excelente Grace Passô seja exatamente Glória. ;)




Entrevista com a diretora Lucia Murat


1-     Como surgiu a ideia de escrever e filmar Praça Paris? 

Há alguns anos tive contato com uma psicanalista que me falou sobre problemas que estava tendo num centro de terapia para carentes. As pessoas que cuidavam dos pacientes eram muito jovens, em geral do último ano de psicologia ou do mestrado, de alta classe média e que estavam desenvolvendo problemas de perseguição, num processo de contratransferência a partir de pacientes com um histórico de violência muito grande. Isso foi antes da implantação das UPPs no Rio. Pensei desde essa ocasião em fazer um filme de gênero – um thriller –  acentuando essa questão. Mas o tempo passou e outros projetos surgiram. Quando a violência voltou a explodir no Rio pensei em filmar esse projeto e a ideia foi exacerbar a distância entre os dois personagens fazendo da psicóloga uma estrangeira. Propus o filme à Fado filmes, uma excelente produtora portuguesa, e fechamos a proposta.  



2 -      Praça Paris levou o prêmio de melhor direção no Festival do Rio 2017 e recebeu convite para participar de vários festivais internacionais.  Você esperava esta repercussão?

Quando a gente está fazendo um filme nunca tem muita ideia da sua repercussão. A primeira sessão do filme junto ao público é onde vemos e temos uma ideia melhor do que vai acontecer. A primeira sessão de Praça Paris foi no Festival do Rio e a sala pulsou. Foi muito bonita a interação do público com o filme. Al a gente viu que o filme impactava.

3 -      Grace Passô já recebeu prêmio de melhor atriz no Festival do Rio ano passado e no Festin deste ano. Como você selecionou a atriz para viver Glória?

Eu precisava de uma atriz que pudesse dar densidade ao papel, que fugisse da vitimização e de um personagem raso. Conheci Grace quando ela era dramaturga de uma peça sobre a guerrilha do Araguaia e onde fui convidada a dar uma palestra sobre minha experiência de resistência à ditadura. A partir dali fui acompanhando seus trabalhos. Para mim, era muito importante o fato dela ser dramaturga pois ela poderia colaborar mais ainda com o papel. O que acabou acontecendo. Ela deu sugestões excelentes que deram ao personagem a densidade que queríamos. 



4 -     Como foi fazer a parceria com o roteirista Raphael?

Eu sempre escrevo meus roteiros, mas é muito bom também dividir o trabalho, poder trocar ideias. Em cada filme procuro alguém que possa ajudar, complementando situações que não vivi ou onde não tenho experiências. No caso, como queria fazer um thriller foi natural procurar um escritor jovem que trabalhasse com suspense Li um livro dele e imediatamente pensei que ele poderia ajudar em muito a criar um clima no filme. Foi uma parceria muito feliz.

5 -      Praça Paris fala sobre muitos assuntos que estão na pauta atual. De certa forma o filme previu a falência das UPPs?

Quando estávamos fazendo a pesquisa para o filme, entrevistando ONGs que trabalhavam em favelas e lideranças comunitárias, já estava clara que a falência ia ocorrer. A gente escreveu em cima dos que nos falavam. O que aconteceu é que dois anos depois quando o filme ficou pronto, a realidade infelizmente já era essa. Daí também o impacto do filme. 



6 - O filme fala sobre a relação dos personagens que vivem entre Brasil /Portugal, como também é uma coprodução Brasil/Portugal/Argentina. Como você vê a colaboração cultural entre os dois países?

Já há algum tempo venho fazendo coproduções internacionais. Com a Cepa filmes, da Argentina, já fizemos cinco coproduções, sendo a Taiga majoritária, como no caso de Praça Paris, ou minoritária, como no caso de “Ninguém está Olhando”. Acho sempre muito enriquecedor ter uma equipe de vários países. São experiências que se somam.

No caso da Fado Filmes, de Portugal, foi o nosso primeiro trabalho junto, apesar de que a Fado já fez várias coproduções com o Brasil. Foi também uma excelente parceria. E desde o início pensamos em trazer uma atriz portuguesa para o papel da psicóloga estrangeira. A grande vantagem de ser portuguesa era ser ao mesmo tempo estrangeira, o que acentuava a distância entre os dois personagens, mas falar a mesma língua.



7-      A homenagem feita à UERJ foi planejada ou a ideia ocorreu após a decisão da locação?

A proposta de filmar na UERJ foi do Raphael Montes, que estudou lá e dizia que a sua arquitetura seria muito boa para um thriller. Escrevemos o roteiro para a UERJ. Quando filmamos já estava uma situação complicada, com os terceirizados sem receber, problemas sérios de infraestrutura. Quando terminamos de fazer o filme, a UERJ viva uma situação dificílima, e precisava da nossa solidariedade. Por isso, o filme é dedicado a ela, que não somente é importantíssima na parte de ensino e pesquisa, mas também foi a primeira universidade brasileira a implantar cotas sociais.

Entrevista com a atriz Joana de Verona (Camila)

1- Como surgiu o convite para trabalhar com a diretora Lucia Murat em Praça Paris?

Foi através da coprodução Brasil/ Portugal, da Fado Filmes, em um teste, através de leitura que fiz com Lúcia Murat.



2- Este é o primeiro filme que faz no Brasil?

Não, já havia filmado "O Touro" no nordeste, filme dirigido por Larissa Figueiredo.
Assim como o projeto "Africa da Sorte" de Renata Belo Pinheiro e Sérgio Oliveira em Recife.

3- Como você vê as coproduções entre Brasil/Portugal na área audiovisual?

São fundamentais.
É ótimo poder haver uma comunicação artística entre dois países irmãos, que falam a mesma língua, mas com realidades tão distintas entre si. É bom haver esse rico intercâmbio cultural, uma vez que a cinematografia dos dois países é diferente, vêm de passados diferentes, e podem se contaminar e inspirar mutuamente.

4- Quais são seus novos projetos?

Um espetáculo de teatro/ dança, de Mónica Calle. "Ensaio para uma cartografia" no teatro nacional dona Maria II em Lisboa.
Preparação do meu próximo documentário (como diretora) e como intérprete outro projeto de cinema.



Entrevista com a atriz Grace Passô (Glória)

1 - Como você construiu seu personagem Glória, a protagonista de Praça Paris?
Preocupei-me em mostrar que ela tinha crítica e consciência de sua realidade, e também em mostrar que ela transformou seu histórico de violência em motivos para que ela fosse uma mulher sagaz, inteligente e resistente. Acima de tudo, defendi essa personagem. 

2- O convite para participar de Praça Paris veio de que forma? Qual impacto teve na sua carreira?
Fiz uma participação no longa Elon não Acredita na Morte, dirigido por Ricardo Alves Jr. Gostei, desejei uma maior aproximação do cinema e recebi o convite da diretora Lucia Murat e do produtor de elenco Gabriel Bortolino.
Já conhecia e me interessava pelo trabalho de Lúcia, mas a encontrei pela primeira vez quando a entrevistei (junto a outras artistas de teatro) para um processo de criação de um espetáculo que escrevi sobre guerrilheiras na ditadura brasileira de 64. 

3- Quais são seus próximos projetos no cinema? 
Espero pelo lançamento dos longas que atuei: No Coração do Mundo, de Gabriel Martins e Maurílio Martins e também de Temporada, dirigido por André Novais, ambos da Filmes de Plástico. 

Trailer:


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