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Resenha do livro De volta para casa, de Seanan McGuire (editora Morro Branco)


“Ela era uma história, não um epílogo. E se optasse por narrar sua própria vida uma palavra por vez, enquanto descia a escada para encontrar-se com a menina que acabara de chegar, não estaria fazendo mal a ninguém. Afinal de contas, é difícil perder o hábito da narração.”


Várias crianças desaparecem pelos lugares mais improváveis possíveis e quando retornam, contam histórias de mundos mágicos e aventuras épicas.
Nancy é uma dessas crianças. Por seus pais estarem preocupados com ela, eles a mandam para um internato com pessoas iguais à ela. Eleanor, a diretora desta escola, protege os alunos e tenta manter o local confortável para eles, alunos que sempre procuram uma porta para o mundo que deixaram ou que os deixaram para trás.
Em um ambiente novo, ao que tenta se adaptar, e com uma busca para voltar ao seu mundo, Nancy também terá que enfrentar acontecimentos terríveis que começam a ocorrer na escola.
“- É disso que as pessoas se esquecem quando começam a falar das coisas em termos de bem e mal [...] Para nós, os lugares aonde fomos eram nosso lar. Não nos importávamos se eram bons, maus, neutros ou o que quer que fossem. Nos importávamos com o fato de que, pela primeira vez, não tínhamos de fingir ser alguma coisa que não éramos. Podíamos só ser. Isso fazia toda a diferença do mundo.”
O livro tem uma história interessante, um universo super bem planejado e personagens complexos e bem construídos. E ainda temos a edição da Editora Morro Branco que está maravilhosa, com sua capa dura e marcador que acompanha o livro.
Podemos pensar que o ápice do livro é o mistério de quem é o assassino das crianças e por que elas estão sendo assassinadas. Contudo, é bem mais profundo do que imaginamos. 
“Nem sempre os pais gostam de admitir que as coisas mudaram. Eles querem que o mundo seja exatamente como era antes de seus filhos terem partido para viver essas aventuras transformadoras, e, quando o mundo não cede a eles, tentam forçá-lo a se encaixar nos moldes que construíram para nós.”
Um dos principais pontos é aceitação dos pais. Todas as crianças que saíram deste mundo querem voltar para o outro mundo, onde se sentiam em casa e podiam ser o que elas queriam ser. Ao voltarem, os pais tentavam mudá-las ou não aceitavam as mudanças que ocorreram, assim as mandando para o internato.
Esse ponto sempre é comentado, mostrando pais que não aceitavam o filho trans, ou a forma como a filha se vestia, ou as filhas que não se encaixavam nos padrões de perfeição que eles haviam estabelecido.
“O amor deles queria consertá-la, e se recusava a ver que ela não estava quebrada.”
A diversidade do livro é ótima falando nisso. Como dito antes, nos são apresentados personagens trans e até assexual.
A relação das crianças com o mundo para qual elas queriam voltar, no meu ver, era uma Síndrome de Estocolmo, pois não era nenhum mundo acolhedor, ele só permitia que a criança fosse o que ela gostaria de ser.
O que nos leva a outro ponto. O escapismo e talvez o egoísmo. Uma pessoa, para evoluir, nunca deve sempre fazer o que quer e se manter no mundo que lhe serve de escapismo. Sempre fazer o que quer é algo horrível, como no mundo em que se fazia experimentos em seres vivos e os utilizavam como refeição. Se for ver de perto, isso é totalmente desumano.
O meu mundo de escapismo são os livros, mas nem sempre devo ficar presa a ele, e sim viver no mundo real. Por isso, o personagem que mais me agradou foi o que aprendeu com tudo o que ocorreu e evoluiu, buscando ajudar outros que nem ele.

“Se quiser, chame isso de ironia, mas nós passamos muito tempo esperando que nossos meninos se percam, de modo que eles nunca têm a oportunidade de fazê-lo. Notamos o silêncio dos homens. Contamos com o silêncio das mulheres.”
Temos um leve toque sobre o machismo também, com a explicação de porque mais mulheres passam para o outro mundo. Além de nos depararmos com a transfobia, com o personagem trans sendo hostilizado pelos próprios pais, por colegas da escola e pelo próprio mundo mágico para qual foi transportado.
Por fim, o livro é lindo. Mesmo não concordando com alguns pontos dele, para mim o conjunto todo faz com que este seja um livro que valha a pena estar na estante das pessoas. Ele tenta nos ensinar a ter empatia e tem ótimas mensagens ao longo de suas páginas, com um toque de amargura e tristeza, além de, segundo uma personagem maravilhosa do livro, a palavra mais perigosa, esperança. Esperança de que, independentemente do mundo em que ficarem, todas aquelas crianças se encontrem, e por fim, façam a sua própria casa onde estiverem.
“Essa era a verdadeira história dela. Encontrar um lugar onde pudesse ser livre. Essa também é a história de vocês, de todos vocês.”
Nota: 3 portas e 1 baú com um possível caminho para um mundo de aventura.
 Resenha por: Dhuane Monteiro

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