Pular para o conteúdo principal

Resenha do livro - H. P. Lovecraft - Medo Clássico Vol. 1 (Darkside Books) (e sugestões de mangá e jogo para celular como bônus)


“ That is not dead wich can eternal lie,
And with strange aeons even death may die.
Morto não está o que pode eternamente jazer,
E com éons estranhos até a morte pode morrer.”
Lovecraft é um escritor americano conhecido como um dos mestres do terror da atualidade, junto de Edgar Allan Poe, e para nosso deleite teve sua obra publicada recentemente pela Editora Darkside Books, em duas versões: a Cosmic Edition, que brilha no escuro, e a Myskatonic Edition, que é simplesmente maravilhosa (foi a edição que eu comprei e simplesmente babo na estética). Como sempre, é quase impossível reclamar da edição da Dark. Com capa dura e ilustrações lindas, seu marcador de página em fitinha e páginas com borda verde, sentimos todo o esforço envolvido na produção desse livro.
“Não tento, senhores, explicar aquela coisa- aquela voz- nem posso me aventurar a descrevê-la em detalhes, pois as primeiras palavras levaram embora minha consciência, criando um vazio mental que perdurou até o meu despertar no hospital.”
Agora, sobre Lovecraft, propriamente dito: não posso negar que a mitologia desse escritor é fantástica e que o tipo de terror que ele escreve é um terror cuja possibilidade consideramos, ainda mais sobre o Necronomicon, do árabe louco, ou suas criaturas antigas e ancestrais, cósmicas e incorpóreas, evoluídas e místicas, que se escondem nos recônditos da terra.
Só que a escrita, bem, a escrita é maçante. A quantidade de adjetivos é ridícula e adjetivos que não fazem nada mais do que não dar ideia nenhuma do que está sendo apresentado.

“Mas o terreno que se estendia adiante de nós não era menos estranho, embora menos sujeito a inomináveis maldições. Logo após a fundação da cidade, a grande cordilheira se tornou o sítio dos principais templos, e vários entalhes retratavam grotescas e fantásticas torres rasgando o céu onde víamos somente cubos curiosamente presos às rochas e balaustradas.”

Sabemos que as torres eram grotescas e fantásticas, mas não sabemos mais nada. Com certeza esse tipo de narração possibilita que a imaginação do leitor siga pelo pior caminho, o que acaba deixando os contos mais místicos e sinistros, contudo, a partir do momento em que você lê praticamente o mesmo estilo de adjetivação por cerca de 40 páginas, sua vontade é de tacar o livro na parede.

Graças a Cthulhu, a edição da Dark é tão linda que você não faz isso por peso na consciência e a sua curiosidade pelo que vai acontecer acaba te impulsionando pelas páginas até o fim do conto.

Não que eu esteja falando para não ler. Estou falando para ter cuidado ao ler. Lovecraft não é para qualquer um e não é para qualquer momento da sua vida. A leitura é pesada e cansativa e leitores que pulam no livro por causa da beleza da edição e não sabem o que esperar podem acabar desistindo do mestre do terror.

Por exemplo, quando eu tinha uns 10 anos tive a brilhante ideia de ler Nas Montanhas da Loucura. Duas burrices em uma mesma frase, 10 anos e lendo Lovecraft e 10 anos e lendo Nas Montanhas da Loucura (não que uma criança não possa gostar, mas a maioria não se interessaria). Claro que desisti na época e voltei a ler Lovecraft apenas com 17 anos, persistindo no mesmo conto (que odiei na época) e A Busca Onírica por Kadath (que é maravilhoso), ambos publicados pela Editora Hedra (e agora eu percebo que eu li uma quantidade razoável dos contos do escritor).

E de novo, aos 22 anos, volto às Montanha da Loucura e percebo que sou que nem os personagens loucos dos contos, que não sabem o que estão fazendo, sabem que vão se arrepender, mas mesmo assim fazem. Continuo odiando Nas Montanhas da Loucura, mas por piedade de Azathoth (esse sim não pode ter seu nome pronunciado, outros como Você-Sabe-Quem são fichinha), o Vol. 1 do Medo Clássico de Lovecraft tem outros contos.

E verdade seja dita, em contos pequenos, Lovecraft é ótimo. Mesmo sua narrativa cheia de adjetivos vira um charme neles. São assustadores e perturbadores na medida certa e apresentam histórias que nos deixam surpresos com a criatividade do escritor.

Contos grandes geralmente são mais cansativos e talvez seja por causa deles que muitos consideram Lovecraft um péssimo escritor (infelizmente, eu concordo). Nas montanhas da Loucura é um conto de quase 150 páginas onde apenas 50 páginas têm história, o resto é descrição e repetição:

“[...] Pois era apenas um pinguim- a despeito de ser uma espécie gigantesca, maior do que os mais grandiosos pinguins-reis conhecidos, monstruosa em sua combinação de albinismo e virtual ausência de olhos.
            Quando seguimos a coisa até o interior da arcada e voltamos nossas duas lanternas para o indiferente e desatento grupo de três, vimos que nenhum possuía olhos, eram todos albinos e da mesma espécie gigante desconhecida [...]”

Sério, Lovecraft? Você praticamente repetiu em um parágrafo o que você escreveu no anterior.  

Claro que eu sou totalmente encantada pelos contos dele, ou não teria comprado esse livro, lido anteriores e que possivelmente vou comprar o Vol. 2 dessa coleção. Sua escrita, que não gosto nem um pouco, e seu preconceito escancarado (outro aviso para aqueles que vão ler), são aturáveis por causa de sua maravilhosa mitologia e pelo terror que arranha as bordas do subconsciente do leitor.


Se você quiser ter um gostinho mais leve...

Se você está com um pé atrás e não sabe se o terror vai valer a pena, diria para ler o mangá publicado pela JBC, pois por ser um quadrinho, apresenta recursos visuais para colaborar com a leitura.
E olha que é linda a arte, e a Editora JBC caprichou na edição (acho que é lei fazer uma edição bonita com os contos do Lovecraft).
O mangá se chama O cão de caça e outras histórias, sua adaptação e arte é pelo Gou Tanabe, a capa tem verniz e o papel é off-set. Os contos são: O Templo, O Cão de Caça e A Cidade Sem Nome. Dois desses contos estão presentes no livro da Darkside Books e, se você gostar ou achar assustador, saiba que o conto original é bem melhor.

 Joguinho para Mobile


 Os Estranhos Casos do Prof Samuel Dumont é um joguinho para mobile que é inspirado nos contos do Lovecraft. Tem uma ambientação maravilhosa e jogar antes de ler dá vontade de conhecer as obras, e ler antes de jogar deixa o jogo melhor ainda.
Por meio desse joguinho, eu descobri que morreria rapidinho no universo do escritor, porque olha, é impressionante, mas só faço coisas que me deixam enlouquecer no jogo.


Então, vale a pena ler o livro? Sim. Vale a pena ler, só cuidado para quando estiver lendo ficar louco que nem os personagens dos contos (seja pela escrita ou pela história). A mitologia é maravilhosa e depois de um tempo você começa a considerar algumas coisas dos contos. Claro que tudo não passa de histórias de uma mente perturbada... não é?

E o mangá? O mangá é maravilhoso, então recomendo.

E o joguinho? Vou entender? Como tudo no Lovecraft, você não precisa entender, apenas aceitar e imaginar o pior. E o jogo te dá o pior se você for inconsequente que nem eu (tipo tocar na gosma vermelha estilo sangue que está pingando do livro macabro no escritório mais macabro ainda). Também é um ótimo pontapé para querer ler o livro.

“A Coisa dos ídolos, a verde e pegajosa cria das estrelas, despertara para reclamar o que era Seu. As estrelas estavam novamente alinhadas, e o que um antigo culto falhara em realizar intencionalmente, um bando de marinheiros inocentes concretizara por acidente. Após vigesilhões de anos, o grande Cthulhu estava à solta novamente e delirava de prazer”


Agora, meus amigos, alguns segredos e nomes foram revelados nesse post, pessoas antes de mim que leram e souberam sobre essas coisas ou enlouqueceram ou sumiram, algumas sofreram “acidentes”. Esses segredos eu passo para vocês. Leiam por sua própria sorte e lembrem-se: “Cthulhu fhtagn”.

Notas:
Livro: 3 polvinhos
Mangá: 4 antigos
Jogo: 4 sonhos macabros na eternidade

Comentários

  1. Dhuaneee, adorei a resenha!!!
    Eu encontrei dois livros dele na biblioteca e folheei e deixei ali mesmo.
    Nossa ,a diagramação me deu desespero 😅😅😅
    E mesmo rápido eu pude notar que não me interessaria pela escrita. Vou deixar pra outro momento então rrsrs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E um tempo atrás eu ainda ia comprar um livro dele, gigantesco, todo em inglês 😂😂😂 ingênua
      Mas era pela edição mesmo! Assim como essa da darkside, ela era tbm arrasadora!

      Excluir
    2. Gente! Que cruel ia ser ler Lovecraft em inglês. Uma das coisas que pensei ao ler foi que o tradutor deve ter sofrido kkkk. Se você quiser ler tem que se preparar bem, porque, olha, eu que gosto já fiquei irritada. O grande problema é que ele é um clássico e a maioria do pessoal gosta de exaltar, mas acho que o Lovecraft nem é tão bom escritor. Então se você não gostar ou nunca estar preparada eu vou compreender de todo coração kkkk.

      E Obrigada pelo elogio e por ter lido minha resenha :) !

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Midsommar - O mal não espera a noite tem um quê de dèjá vu com pontas de originalidade, mas peca por ser longo

Com influências de Corra!, da série Hannibal (principalmente perto do final do longa), com um quê de clima de Anticristo, sem deixar de lado A chave mestra, Colheita Maldita (filme inspirado na obra homônima de Stephen King), O homem de palha, e, como me disse a Ana, que é megafã de Supernatural, inclusive um episódio da série que sacrificava “estrangeiros”  em prol do “bem” da cidade de Burkitsville, no décimo-primeiro episódio da primeira temporada da série, tudo isso também é bem sentido em Midsommar – O mal não espera a noite. Com todas essas referências, senão inspirações, dá para imaginar o desconforto que o filme passa.


Com 147 minutos (171 na versão do diretor), ser longo é um problema no filme. As partes boas são realmente boas e chocantes, o culto e o que parece haver de muito sinistro por trás deles é bem estabelecido, mas os personagens, especialmente os secundários, não são muito aprofundados e, quando começam a “desaparecer”, a tendência é que o telespectador não ligue m…

La Boya, um filme de Fernando Spiner

Netflix anuncia nova série em mandarim, “A NOIVA FANTASMA”

“Certa noite, meu pai me perguntou se eu gostaria de me tornar uma noiva fantasma...” A nova série original da Netflix “A Noiva Fantasma”, dirigida pelos premiados diretores malaios Quek Shio-Chuan e Ho Yu-Hang, foi produzida na Malásia e conta com uma equipe internacional de roteiristas de Hollywood, Malásia e Taiwan, liderados pela escritora de TV americana-taiwaneesa Kai Yu Wu, conhecida por seu trabalho em sucessos como Hannibal e The Flash.

A produção é uma adaptação de um best-seller homônimo do New York Times, escrito pela malasiana Yangsze Choo e lançado no Brasil, em uma edição belíssima, pela Editora Darkside Books. A série adota uma abordagem de produção refrescante.


A trama se passa em uma colônia da década de 1890, onde a protagonista, Li Lan, uma jovem educada e culta, recebe uma proposta capaz de mudar sua vida para sempre: casar-se com o herdeiro de uma família rica e poderosa. Há apenas um detalhe: seu noivo está morto. A oferta parece irrecusável, já que ajudaria sua fa…