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Todo clichê do amor, um filme de Rafael Primot, o filme de amor mais esquisito dos últimos anos, é aquela comédia romântica atípica que é um deleite de se ver



Todo clichê do amor é um filme cheio de nuances e belezas,  tanto humanas quanto estéticas, engraçadíssimo - se eu estivesse bebendo Coca-Cola, teria cuspido o líquido quando surgiu a piada do “eu vou te dar uma Pepsi que tá cheio aqui porque não vende mesmo…” :P 

Como diz o próprio trailer, “O filme de amor mais esquisito dos últimos anos”, Todo clichê do amor usa os clichês para produzir algo novo, intenso e visceral, ao mesmo tempo em que é hilariante e profundo. Tem uma história dentro de uma história dentro de uma história dentro de outra história, fragmentos das vidas de três núcleos de pessoas que buscam a mesma coisa: o amor. 
Alguns usam a subversão do clichê para conseguir (ou não) algo diferente. Rafael Primot usou os clichês para construir uma história única que merece ser vista e revista, apropriando-se dos clichês em vez de subvertê-los, nos surpreendendo, sim, pois, em vários momentos em que esperamos caminhos clichês de resolução na trama, isso não acontece... e colocando a subversão do gênero comédia romântica na forma criativa como o filme foi roteirizado, filmado e editado, nos próprios personagens (que, além de tornar o filme representativo, foge aos clichês de mocinhos e mocinhas das comédias românticas) e ainda se serve da metalinguagem (cada grupo de cada núcleo está vendo um filme, ouvindo uma radionovela ou lê um livro sobre a história do outro núcleo). É curioso ver que a atuação mais burlesca e forçada, estilo novela mexicana, da madrasta e enteada no enterro do marido/pai, é justamente a história da radionovela. Uma sacada sutil inicialmente e muito genial. 

Temos um homem que perdeu a capacidade de sentir gosto e sua esposa, cega; uma moça quase surda e sua madrasta; um ator de filme pornô e sua esposa, prostituta totalmente passional; uma balconista de restaurante de fast-food e um entregador obcecado por ela (esse casal foi o que mais me “assustou”, porque ele é meio que um stalker e, bem, ele acaba cometendo um assassinato por ela e… é bizarro.  Porém, por outro lado, é extrema e estranhamente comum ter um stalker esquisito sendo retratado como romântico e conquistando a mocinha... ou seja, mais uma vez, o diretor (que atua também aqui como esse stalker) usou novamente algo que é, sim, bem clichê em filmes "românticos". ;)


A forma escolhida para contar a história me lembrou Pulp Fiction - mas a narrativa de “Todo clichê do amor”, ao contrário de Pulp Fiction, é linear, e não são todos que se cruzam no final - do qual não vou falar mais para não estragar as surpresas, claro - e se não tem essa quebra de linearidade, bem típica de várias produções da década de 1990, tem outros elementos tanto nostálgicos quanto atuais que fazem desse filme uma obra autoral recente e marcante, que merece muito destaque e elogios. 

A escolha das paletas de cores para cada núcleo também é algo incrível, e eu particularmente já gostei desses tons de roxo e rosa nos cartazes do filme. Cores mais frias no núcleo do enterro, cores mais neon em momentos pontuais com a personagem de que mais gostei, a prostituta louca, exagerada e tão humana encenada por Marjorie... a propósito, o exagero, esse quê totalmente hiperbólico, foi outro elemento que, ao menos para mim, agradou muito e ajudou a render altas risadas!


Apesar de não ser a típica comédia romântica, posso garantir que temos pelo menos um final feliz. Sim, eu gosto de finais felizes. É claro que filmes tristes e com finais dramáticos são bem-vindos, é claro que às vezes a subversão completa do clichê do casal ficar junto do final funciona (eu fui uma das que gostou do final de La La Land), mas às vezes, subverter demais o clichê, se os criadores da obra não conseguirem lidar com o material que têm em mãos, pode acabar com o prazer que a gente tem de ver o filme. Comigo, esse ano, essa foi a minha frustração com Madame, sobre o qual vocês podem ler mais aqui, que apresentou uma ideia até que legal para o twist, mas cujo desenvolvimento me desagradou. Então, Todo clichê do amor não peca por querer subverter os clichês, mas se serve de vários deles e cria uma trama relativamente simples, divertida e com personagens inusitados e, no geral, bem carismáticos. 

E, afinal, o clichê é algo assim tão ruim? Eu acho que não. Todo gênero tem seus clichês, e abarcá-los com mestria é um dom. Nesse filme (que é totalmente independente, o que permitiu a seus idealizadores e criadores uma liberdade artística maior, com certeza), temos três histórias singulares, que se entrelaçam se não todas por encontro dos personagens, se entrelaçam porque todas lidam com amor. Seja o amor de família, seja o amor romântico, o amor está ali, o tempo todo. 
A estética do filme é bem bonita, apesar de termos uma prostituta e um ator pornô, o filme não descamba para um quê de pornochanchada, e somos levados a ver o lado humano dessas pessoas cuja existência às vezes é mais cômodo para nós ignorar, não é mesmo? 

Se a maioria das comédias românticas trilha um caminho seguro, este é um filme que com certeza não agradará a todos com sua proposta e com seu desenvolvimento, fato. Eu faço parte do grupo que amou o filme. Com uma história criativa e fora do lugar comum, brincando não somente com clichês do gênero, como com a forma de estabelecer as narrativas, com um elenco de peso e atuações marcantes, além das múltiplas referências e acenos a outros criadores que vieram antes dele, Rafael Primot criou um filme autoral que pode agradar a muitos, desagradar a outros e surpreender a outros tantos. Minha expectativa quando fui ver o filme já era alta. E é tão gratificante ter essa expectativa superada! E foi isso que aconteceu. 

Nota: 5 coraçõezinhos bem lindamente breguinhas batendo muito forte 

Estreia: 19/04



Achei esse texto aqui bem legal, sobre clichês e seu uso. Clica aê se estiver a fim de ler ;) - Por que não usar o clichê?   

Comentários

  1. Uaaau, adorei!
    Era disso que eu estava falando hahaha
    Quero mt ver!
    Arrasou no texto 👏

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  2. Obrigada! Sim, o filme é hilário, fantástico e tem partes fofas também :)
    Veja e depois me diga o que achou ;)

    ResponderExcluir

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