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Ciganos de Ciambra, um filme de Jonas Carpignano: ficção com cara de documentário ou documentário que parece ficção?



No extremo sul da Itália, na cidade de Gioia Tauro, vive Pio, um garoto de 14 anos que não vê a hora de ser considerado adulto. Seguindo os passos de seu ídolo e mentor, Cosimo, o irmão mais velho, ele bebe, fuma e pratica pequenos delitos. Um dia, Cosimo acaba preso devido a um roubo mal-sucedido e então Pio é obrigado a assumir seu lugar. Embora aquele fosse o momento pelo qual ele ansiava, o fardo de ser provedor de sua numerosa família se revela pesado demais para seus jovens ombros.

Eu não sabia o que esperar quando entrei na sala de cinema para assistir a “Ciganos da Ciambra”. Meu conhecimento prévio sobre a história se limitava à sinopse (acima) enviada pela distribuidora. E é assim que eu prefiro: ir descobrindo o filme conforme ele vai sendo exibido, ir estabelecendo uma relação com os personagens a cada cena.

A câmera oscilante está sempre colada aos personagens, principalmente ao protagonista, então seguimos com ele pelas ruelas cheias de lixo e pelos corredores degradados do complexo de apartamentos (a tal Ciambra) onde ele mora com o avô, os pais, os irmãos e os primos. É muita gente para pouco espaço, muita gente para pouca grana. Em alguns momentos eu sentia que estava vendo um documentário, em outros a história assumia um tom de fábula.


Pio vem de um universo que gira em torno da masculinidade, em que os homens tomam as atitudes e as mulheres apenas sentam, esperam para lidar com as consequências e choram as inevitáveis desgraças. Então, é natural que o maior desejo de Pio seja “ser homem”. Mas o que é ser homem? Bancar o sustento da família? Nunca se mostrar vulnerável? Pagar por sexo? Agir com violência? Todas essas questões se apresentam ao protagonista em algum momento.

Assim como o personagem principal, que ora é considerado jovem demais para fazer parte dos roubos, e ora se vê como o único capaz de levar dinheiro para casa, o povo cigano também parece perdido, sem saber ao certo o seu lugar, tanto quando tem que lidar com o governo oficial, representado pela polícia, que os trata como cidadãos de “segunda classe”, não lhes oferecendo direitos, apenas cobrando deles os deveres, quanto quando se relaciona com o poder ilegal encarnado pela máfia, que acha que os ciganos não estão à sua altura, mas os usa para fazer seu serviço sujo.

Para complicar ainda mais a equação, entram na jogada os imigrantes africanos, que ficam ainda mais abaixo que os ciganos na escala social. Embora ambos os grupos sofram preconceito por ocuparem parte de uma terra que não podem chamar de pátria, os ciganos pelo menos falam a mesma língua que os italianos e são respeitados na prisão. E nesse mundo duro e violento, esse é o "privilégio" que eles têm em relação ao outro grupo.


Como é uma história de passagem da infância para a vida adulta, é claro que há um teste. Pio terá que fazer escolhas: ir atrás da própria identidade num mundo desconhecido ou aceitar seu papel na rígida sociedade cigana? Ser leal aos parentes que nem sempre o valorizam ou ao amigo inesperado que o protege assumindo o papel de pai/irmão mais velho quando seu pai e irmão mais velho de verdade vão presos e deixam tudo nas suas costas?

Achei interessante como o conceito de liberdade é trabalhado no filme. Os ciganos são conhecidos por não criarem raízes, por não seguirem regras, por não terem patrão. O avô de Pio aparece montado num cavalo (mais um símbolo da vida selvagem) na cena inicial dizendo algo do tipo “Quando nós, ciganos, vivíamos na estrada, éramos livres”. Os ciganos de Ciambra são pessoas do Século 21, que fixaram residência, que usam celular, que andam de moto. Mas, ao mesmo tempo em que parecem ter se adequado ao mundo contemporâneo, ainda têm um pé no passado, mantendo a hierarquia patriarcal em suas famílias e seguindo sem saber ler. A liberdade, agora, parece bem mais complicada.

Resumindo, o filme é sobre o amadurecimento prematuro de um jovem que se sente dividido entre seus sonhos e a realidade pungente em uma narrativa sobre família, amizade, lealdade, masculinidade e preconceito contra certos grupos étnicos. Se numa cena ficamos tensos diante da violência, na seguinte o coração já se aquece com um momento de ternura e ingenuidade. Sim, é um filme de dualidades, mas o amargo e o doce se complementam perfeitamente.


Curiosidade:
Quando surgiram os créditos finais, notei que todos os personagens do clã dos Amato interpretaram na tela uma versão de si mesmos. Para atores não-profissionais, foi um trabalho e tanto, principalmente o jovem e expressivo protagonista, Pio, e sua mãe, Iolanda. Depois, quando cheguei em casa, fui pesquisar a respeito e encontrei uma entrevista em que o diretor diz que conheceu os personagens de seu filme em 2011, quando estava rodando um curta em Gioia Tauro e teve seu carro, com todo o equipamento de filmagem, roubado por um dos Amato e foi negociar o resgate de seu veículo. Durante os seis anos seguintes, Carpignano começou a frequentar a Ciambra e foi aprendendo como funcionava o lugar, até que o garoto Pio se destacou por sua curiosidade genuína e acabou se transformando no protagonista da história. Outro fato interessante foi que os atores não seguiram um script, pois não sabem ler. As falas e situações foram criadas com base no que eles diziam e no que o diretor observou durante o período que conviveu com eles, e assim as cenas foram filmadas, havendo apenas orientações para que fossem mais sucintos ou elaborassem melhor determinado ponto.

Nota: Quatro cigarros fumados por crianças
Estreia: 03/05

Trailer legendado:


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