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Em um mundo interior (Flavio Frederico e Mariana Pamplona) - Primeiro documentário brasileiro sobre autismo



De acordo com a Organização Mundial de Saúde, aproximadamente 2 milhões de pessoas no Brasil têm algum grau de autismo, um transtorno neurológico que continua sendo uma incógnita. E ainda que não seja mais considerada uma condição rara, só agora ganhou as telas na forma do primeiro longa-metragem brasileiro sobre o tema. Com o filme “Em um mundo interior”, os diretores Flavio Frederico e Mariana Pamplona acompanham a rotina de sete jovens diagnosticados com autismo e de suas famílias, abordando o Transtorno do Espectro Autista por uma perspectiva mais humana, numa tentativa de discutir formas de inclusão dessas pessoas.

Numa espécie de mosaico, os diretores mostram pedacinhos do dia a dia das sete famílias selecionadas para o filme, desde o momento em que os pais percebem que há algo de errado com o desenvolvimento de seus filhos, passando pela busca pelo diagnóstico e pela luta diária para dar às crianças e jovens todas as ferramentas possíveis para que desenvolvam todo o seu potencial e tenham uma vida plena em sociedade.


O documentário, já exibido anteriormente no Festival É tudo Verdade 2017, desmistifica a ideia comum de que o autista é uma pessoa que vive em um mundo isolado, que não fala, que não olha nos olhos e não gosta de interação social. De fato, alguns podem ser assim, manifestando a forma clássica de autismo, mas, como a nova denominação indica, é um espectro, e, portanto, há vários graus de manifestação da condição. O que vemos na tela é exatamente isso: desde crianças com um nível extremo de autismo, exigindo atenção e acompanhamento 24 horas por dia, até outras que se comunicam sem dificuldades verbalmente ou mesmo usando outros recursos (como cartões, por exemplo), crianças que vão à escola, que brincam com outras crianças, que gostam de ser abraçadas, que brigam com os coleguinhas, ou seja, crianças como quaisquer outras.

Um dos trechos mais interessantes do filme é quando duas das crianças selecionadas utilizam as câmeras fotográficas que foram entregues a todas elas para registrar momentos de suas rotinas – um acerto e tanto dos cineastas para atingir o objetivo de mostrar o "mundo interior" dessas pessoas dando a elas protagonismo, deixando que elas mesmas decidissem o que queriam revelar. É justamente esse toque de sensibilidade que dá ao filme um caráter único, pois gera situações emocionantes sem forçar a barra para arrancar lágrimas do espectador.


As filmagens foram feitas ao longo de dois anos, com uma equipe reduzida, de modo a perturbar o mínimo possível o cotidiano das famílias, o que permitiu um retrato mais intimista de cada núcleo. O escritor Marcos Petry, que mantém no YouTube o canal Diário de um Autista, foi consultor da empreitada. A intenção de mostrar um painel variado do transtorno foi mais ou menos cumprida, já que, apesar dos participantes terem idades e graus de autismo variados, as regiões geográficas visitadas não foram tão diversificadas quanto se poderia esperar, assim como as classes sociais também não são tão diferentes. Imagino que, além da própria vontade das famílias de participar, fatores logísticos e financeiros tenham tido um papel limitante na seleção delas. Mas seria interessante saber como pessoas de classe social mais baixa e, portanto, com menos recursos que os participantes do filme, lidam com as dificuldades impostas pelo autismo no dia a dia, ou abordar um pouco mais as políticas públicas de inclusão e programas de terapia oferecidos pelo governo (eles existem?), por exemplo.

De todo modo, é louvável a iniciativa da dupla de diretores de apresentar ao público o mundo desconhecido das pessoas autistas, sem focar demasiadamente nas pesquisas e nos termos médicos, mostrando que é possível incluí-las nas mais variadas situações sociais, basta deixar o preconceito de lado. Todos só têm a ganhar.

Nota: 3,5 câmeras fotográficas da interação

Estreia: 31 de maio

Entrevista do Marcos Petry com os diretores

Trailer


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