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Se você soubesse, filme de Joan Chemla (ou meu segundo filme de ciganos na sequência)



Com três curtas no currículo, a roteirista e diretora francesa Joan Chemla lança seu primeiro longa-metragem, que conta a história de Daniel (Gael García Bernal), um cigano excluído de sua comunidade devido à morte de seu melhor amigo, Costel (Nahuel Pérez Biscayart), a quem ele iniciara no mundo da criminalidade. Com o peso da culpa lhe assombrando e as ameaças do irmão do falecido, Daniel vaga pelo submundo tentando encontrar seu lugar e uma forma de seguir vivendo.

Não vou mentir que o que me fez querer assistir a “Se você soubesse” foi a presença de Gael. Desde que o vi pela primeira vez em “Amores brutos”, tenho acompanhado a carreira desse ator mexicano que vem entregando ótimas performances trabalho atrás de trabalho (tá, e que eu o acho lindo e tem um sotaque delicioso, admito). No filme em questão, não foi diferente: o personagem desnorteado que ele interpreta consegue dizer muito sem nem abrir a boca, graças aos seus olhares expressivos. Num mundo caótico, violento e sem esperança, Daniel faz a diferença com sua gentileza, ainda que em gestos mínimos.


Numa entrevista à Variety, a diretora contou que seu filme é uma adaptação livre do livro “La casa de los náufragos”/“Boarding Home”, do cubano Guillermo Rosales, e que, durante sua pesquisa, ela encontrou semelhanças entre a situação da população latina em Miami mostrada no livro com a dos ciganos espanhóis em Marselha, no que se refere à noção de pertencimento, ambos os grupos lidando com as dificuldades de estarem em um país estrangeiro enfrentando desde barreiras linguísticas até todo tipo de preconceito.

Daniel é duplamente excluído: primeiro, de sua terra natal, depois, da comunidade cigana. Não é à toa que se sinta tão perdido. A culpa e a falta do amigo aumentam ainda mais sua angústia. Todo o clima sombrio e sufocante é perfeitamente traduzido em imagens dos corredores escuros e decadentes do hotel Metrópole, no qual vivem outras pessoas igualmente excluídas. Além do gerente sádico. E da mocinha por quem o protagonista se apaixona. E é então que as coisas começam a desandar no filme.


A cena inicial, em um casamento cigano, é maravilhosa, e a câmera carrega o espectador pelo salão (e nos deixa espiar os bastidores). Com uma narrativa fragmentada, a história avança e retrocede no tempo, mostrando consequências e causas fora de ordem. Até aí, nada muito difícil de seguir. A entrada da frágil Francine (Marine Vacth) na trama é crucial para fazer Daniel enxergar novas possibilidades na vida, mas tudo relacionado a ela é estranho, desde a primeira cena um tanto bizarra e supostamente romântica entre os dois. Se fosse uma esquisitice da personagem, tudo bem. O problema é que o filme, em si, começa a se transformar em um amontoado de cenas que não se encaixam em lugar nenhum e que parecem estar ali só para “encher linguiça” (as pessoas ainda usam essa expressão?) e, muitas vezes, incomodar pela violência de personagens secundários que são totalmente descartáveis.

Parecia bem promissor, mas acabou sendo decepcionante. Não há apuro visual nem ator talentoso que dê conta de um enredo frouxo. Mas foi o filme de estreia da diretora. Boas ideias e um olhar refinado ela tem. Tomara que no próximo trabalho, não deixe a história em segundo plano.

Nota: 2,5 roubos mal-sucedidos.
Estreia: 03/05 apenas no streaming (várias plataformas)

Trailer (legendado em inglês):


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