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Demônio de neon - Volátil e fugaz como o neon, a beleza é uma máscara que esconde demônios internos que querem fugir - um filme de Nicolas Winding Refn


Sabe aquele filme que não sai da sua cabeça por alguns dias? É esse o caso de Demônio de Neon para mim. 

Em primeiro lugar, embora alguns classifiquem esse filme como terror, não é aquele terror típico no maior estilo O Exorcista, não. 

Para começo de conversa, os demônios desse filme são internos. Como dito na própria série (que estou vendo atualmente, na segunda temporada) O Exorcista, “não é preciso o diabo para o ser humano fazer coisas horríveis uns com os outros”. 

Em Demônio de neon, Elle Fanning está simplesmente exemplar. Em Demônio de neon, cada personagem e cada ação - ou falta desta - leva a um resultado por vezes chocante, às vezes bem esperado, já que as indicações de que algo sinistro está acontecendo estão sempre ali, à tona, na margem, então nem tem como esperar algo como um “final feliz”. Desde a primeiríssima cena na abertura do filme. 



Muitos odiaram esse filme, pelo que andei vendo por aí. Acabei ficando com vontade de vê-lo por causa de uma montagem de fã com a música “She will always be a broken girl”, do She Wants Revenge, e a Aline, lá do blog Livro Lab, me indicou o filme também, aí decidi ver esses dias. 

Bom, eu amei O demônio de neon. Em primeiro lugar, não achei nada entediante como vi muitos dizerem. Talvez não seja seu estilo de filme, e aí, tudo bem. Mas o filme é estranhamente lindo. E os silêncios e as cenas psicodélicas e com diversas mensagens subliminares são de uma beleza encantadora e assustadora ao mesmo tempo. 

A paleta de cores escolhida depende muito do foco do momento no filme. Totalmente psicodélico com muitas cores em determinado momento, e o alto contraste do branco com preto, e muito vermelho, tudo isso tem um motivo para estar lá. 



Não exatamente comparando, mas a sensação deixada por Demônio de neon é similar à de filmes de Lars Von Trier e Garota Exemplar. Os rastros desse tipo de filme tendem a ficar na mente por anos, pelo menos para mim. E aí eu me lembro de quão perturbador é Garota Exemplar, que vi há anos, logo que saiu, no cinema, e de que ainda me lembro. Impressionante. Logo, não preciso rever tão cedo hehe ;)

Há cenas bem fortes e "horripilantes", sim, em Demônio de neon, mas eu realmente estou acostumada com terror mais explícito desde criança, logo, para mim as cenas gore não são o pior. É justamente isso da maldade versus inocência, da inocência mesclada com maldade, da beleza e da busca por “ser alguém” quando seu vazio interno é tão grande que você acaba “vivendo” uma busca por algo que nem sabe o que é. 



Embora o filme aborde o lance das modelos e essa busca por beleza e perfeição e fale do quão efêmero é esse mundo da moda, dá para tirar mensagens ali que vão muito além disso. 

A trilha sonora tem todo esse encanto decadente futurista retrô, o que leva o filme a uma quase perfeição - só porque sou meio chatinha e nunca acho que nada é perfeito. E a beleza, como a vida, é efêmera. 



O ser humano tende a demonizar muita coisa. Muitos demonizam o sexo, por exemplo. Sociedades em que se aceita violência, mas o sexo é "vergonhoso", pecado. E, numa tentativa de exorcizar seus demônios por meio do sexo, muitos acabam criando outra legião infernal com suas atitudes. 

As poucas “pessoas boas” no filme acabam perdidas, para não entrar em muitos detalhes e estragar a experiência de vocês ao verem o filme. Mas também não vi isso de pessoas cem por cento boas ou más. As pessoas são uma mescla de emoções e sensações que podem levá-las  a seguir por uma espiral mortal, o que acaba transformando cada minuto de suas vidas em um filme de terror per se. 



Também não vi o fato de a personagem de Ruby, a maquiadora vivida e muito bem interpretada na tela por Jena Malone, ser lésbica, como algo afrontador, pois as pessoas podem ser perturbadas e doentias, independentemente de sua orientação sexual. 

Hoje temos bem mais filmes positivos com personagens que não seguem a  estereotipação negativa de quem foge da heterormatividade, e isso é bom, claro. Com amor, Simon é apenas um exemplo disso. No entanto, por outro lado, eu  poderia citar diversos filmes aqui que mostram heterossexuais fazendo coisas abomináveis, mas creio ser desnecessário, já que esses filmes são Legião: são muitos. O próprio Garota Exemplar que citei acima. Querem um exemplo com um típico homem branco hétero? Kalifornia, com Brad Pitt, só para não citar um tão óbvio. E a lista segue em frente. 



O neon é um gás altamente volátil. Está associado à decadência e motéis baratos e casas de strippers. O neon permeou toda a estética, que hoje é deliciosamente retrô, das décadas de 1970-80. Eu poderia me aprofundar aqui sobre a relação entre maquiagem e mortos e vivos e seus rituais, mas estaria extrapolando os limites da crítica e adentrando o campo da análise, então apenas deixo a vocês a indicação. 



Nota: 9 demônios de neon e um filhotinho de cordeiro deformado, envelopados em fitas de seda e batons e envoltos por fumaça de cigarro e música oitentista 

Ps.: Geralmente usamos notas de 1 a 5 aqui. Nesse caso, em prol da alegoria dos 9 círculos do Inferno de Dante, usei a escala de 1 a 10 ;)




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