Festival Varilux: Primavera em Casablanca (de Nabil Ayouch)



Cinco pessoas diferentes e que não conhecem umas às outras, mas que vivem na mesma cidade e lutam, cada uma à sua maneira, pela liberdade. Assim como no filme de mesmo nome, Casablanca, a maior cidade do Marrocos, é novamente palco de resistência e de promessas de amor não concretizadas.

Conhecemos o primeiro personagem, Abdallah (Amine Ennaji), nos anos 80, nas montanhas do Atlas, onde ele é professor. Dedicado, ele é adorado pelas crianças do povoado, mas a chegada da reforma educacional que obriga o uso da língua árabe nas escolas acaba com o prazer de aprender dos alunos, e faz Abdallah perder o emprego, já que ele se recusa a ceder à imposição do novo idioma e a abrir mão de sua identidade berbere. Sem perspectiva de ganhar a batalha, ele abandona sua terra natal, deixando para trás Yto (vivida por Saadia Ladib quando jovem e por Nezha Tebbai no Século 21), a mulher que ama.


Trinta anos depois, em Casablanca, acompanhamos as dificuldades de Salima (Maryam Touzani), uma mulher que tem sua personalidade constantemente tolhida pelo namorado e por estranhos, só porque fuma, gosta de roupas curtas e de se banhar no mar. Outro que não se encaixa, vira motivo de chacota no bairro onde mora e ainda tem que lidar com o desprezo do pai, é Hakim (Abdelilah Rachid), um rapaz fanático por Freddie Mercury, que não só vive cantando suas músicas, como também usa calças justas e jaquetas cheias de patches. O dono de restaurante, Joe (Arieh Worthalter), que enfrenta antissemitismo, e a adolescente Inès (Dounia Binebine), que está descobrindo sua sexualidade e começando a ter suas primeiras decepções amorosas, completam o quadro de personagens cujas vidas nos são apresentadas em pequenos fragmentos.

Embora as histórias dos personagens principais não se entrelacem, elas se tocam de leve quando alguns deles acabam no mesmo evento. Ainda que eles não interajam diretamente uns com os outros, estão todos ligados pelo sentimento de inadequação, pela frustração de não poderem externalizar quem de fato são, por estarem sempre tentando agradar aos outros e, com isso, abrirem mão de si mesmos e de seus próprios desejos. Quando a revolução individual de cada um deles finalmente tem início, ela coincide com a Primavera Árabe de 2011, a onda de revoltas populares resultantes de crise econômica e de ausência de democracia.


Com tantos personagens principais, é impossível desenvolver todos eles de forma detalhada. A jovem Inès, por exemplo, parece estar no filme só para servir de elo com outra história. Já Salima teve uma resolução melhor, tanto como personagem individual como dentro da trama como um todo, principalmente porque faz uma ligação com acontecimentos lá dos anos 80 e mostra que algumas coisas resistem ao tempo – intolerância é uma delas.

O filme mostra como identidades são apagadas, começando pela língua e pela religião, e passando pelos costumes, e como a uniformização forçada, que supostamente serviria para unificar, acaba tendo o efeito oposto e gera apenas conflitos. Numa cena emblemática do povo insatisfeito tomando as ruas de Casablanca, fica claro que vozes podem ser silenciadas por um tempo, quando isoladas, mas, ao se unirem, não há como conter o grito.

Nota: 4 mergulhos no mar

Estreia: 6 de junho (primeira sessão em São Paulo)*
* O filme faz parte do Festival Varilux de Cinema Francês 2018. Confira a programação no site do evento.


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