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Personal Shopper, um filme de Olivier Assayas


Storyline: Maureen segue com seu trabalho de personal shopper para uma celebridade do mundo da moda enquanto espera em Paris por um sinal de seu irmão gêmeo.

    Após trabalhar com Kristen Stewart em “Acima das Nuvens”, o diretor Olivier Assayas retoma a sua parceria com a atriz, ainda discutindo características da personalidade e da formação do eu, mas dessa vez em um toque sobrenatural tangível e uma prospecção abstrata bastante inteligente.

    Com uma estrutura onde o desenvolvimento intermediário de um roteiro tradicional é comprimido por um pós-terceiro ato alongado, a introdução de “Personal Shopper” revela rapidamente todas as informações essenciais e regras dramáticas. Porém, o formato de apresentação acelerada que coloca na mesa todas as principais cartas do jogo de sua protagonista não se configura como uma cartilha simples e óbvia, mas sim como um trabalho sistemático e controlado das informações. Não há toa, é apenas no último diálogo do primeiro terço (que acontece com Ingo) que finalmente o espectador tem a informação palpável acerca do que Maureen realmente está esperando e por quê. Tal diálogo também confirma as pressuposições iniciais acerca do entendimento do sobrenatural dentro da trama e prepara o espectador para a ascensão do terror que virá a seguir.

    Nesse processo introdutório, o roteiro de Assayas se volta para a arte abstrata por meio da descoberta de uma artista que teria antevisto a criação desse escola muito antes de Kandinsky, e tal processo poderia ser atribuído ao contato sobrenatural que, supostamente, a artista em questão teria acesso. A informação, além de compor mais solidamente o interesse de Maureen por confirmações da existência do sobre-humano, também apresenta uma possível e talvez importante chave de leitura do filme em que a capacidade de projeção do eu na construção de uma forma especifica de comunicação, como seria o caso das artes plásticas (ou do cinema), tem especial impacto. Mas ao escolher a arte abstrata, Assayas aponta para uma criação em conjunto entre artista e observador em nível mais elevado do que em outras manifestações pictoricamente específicas. Semelhante subjetividade perpetra todo o longa-metragem com especial ressonância para a ansiedade frente à morte repentina, e daí a conexão de Maureen com seu irmão e o respaldo que lhe permitira, de uma forma indireta, algum tipo de alívio frente à angústia que a acomete. 



O que, por fim, também se reflete em seu emprego desprovido de valor pessoal, ou seja, a partir da confirmação de uma possível existência subsequente, uma nova valorização é encontrada pelo indivíduo que espera. A presença na história de um duplo não materializado (o irmão gêmeo de Maureen) confirma tal impressão já que o entendimento desse recurso, como por exemplo, na literatura, remonta a cisão do ser humano entre dois polos ou a sua não aceitação do real, em um processo de espelhamento, um jogo de sombras, que poderia remeter a concepção de existência de deuses e entidades superiores construídas pelo próprio agente imaginativo.

    O filme então se aproveita desse cenário (que até então traz elementos discursivos consideravelmente recorrentes, mesmo que bem desenhados) para manifestar fisicamente o terror que acomete Maureen e o suspense que seduz o espectador e mantém sua atenção em qualquer detalhe que possa confirmar suas pressuposições. Inicialmente investindo na imersão com um desenho de som minimalista, “Personal Shopper” vai gradativamente engrandecendo o confronto com o desconhecido ao aumentar a presença e o volume da trilha musical enquanto sons não diegéticos manifestam encontros com o sobrenatural não confirmados pelo estado psicológico da sua protagonista.



    Com planos-sequência longos em que intervalos de tempo curtos são removidos dentro da ação, a direção permite uma continuidade de tempo reconhecível que situa o espectador enquanto fracciona a percepção de tempo diegético criando um estado de flutuação e desconexão com o todo, mas não com sua protagonista. Quando a passagem de tempo precisa ser conotada como tal, fades são usados em sua acepção e entendimento de montagem clássica. O que, em última instância, tende a prejudicar o projeto quando usados próximos ou durante falas como se fosse preciso abandonar rapidamente aquela atmosfera e se conectar com a seguinte, o que não funciona quando o resto do projeto demanda imersão e investimento. Tal controle de tempo é também um dos principais responsáveis por fazer funcionais todos os planos-detalhe que trazem a conversa de Maureen com um desconhecido pelo celular. Se em “Águas Rasas” Jaume Collet-Serra usa o celular como uma forma de plano e contra-plano de diálogo criativo, aqui Assayas dá novas possibilidades para a concretização da proposta (o que no caso de “Personal Shopper” sustenta o estado de suspense).

    Demonstrando um domínio do terror com um trabalho consistente do fora de quadro e do segundo plano, Olivier Assayas volta a abordar a identidade, as potencialidades do indivíduo e a angústia da dúvida, da espera e da existência em suas significações pessoais e abstratas.



Texto de Raphael Cubakowic


Raphael Cubakowic é montador, crítico de cinema e atua como editor e assistente de curadoria na Versátil Home Vídeo. Além de experiência com roteiro e som de curtas-metragens, é responsável pela montagem de obras como "Fragmentos de Uma Metrópole", "Hora Extra" e "Pontos de Vista". 
Crítica originalmente publicada aqui.  


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