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Café, de Cristiano Bortone – Uma bela metáfora em um filme um pouco “chocho”


Na essência, o longa Café, de Cristiano Bortone, faz uma belíssima metáfora que compara a bebida que dá nome ao filme com a passagem de cada indivíduo pela vida. Assim como degustar o café, viver nos possibilita passar por momentos amargos e azedos, mas por fim nossa existência deve ser apreciada como o perfume dessa bebida. 

A produção conta três histórias em lugares distintos, Itália, China e Bélgica, tendo todas elas em comum o café. Porém, não é só a bebida que faz o pano de fundo dos episódios do filme, também são exploradas, de forma acanhada, questões socioeconômicas nesses três países. 



O italiano Renzo (Dario Aita) é um amante do café e, após ser demitido de seu emprego como barista na capital, decide ir com sua namorada para o interior a fim de buscar outras oportunidades de vida. Mas, após descobrir que a garota está grávida, ele se dispõe a tomar decisões que vão facilitar o ganho de dinheiro, mas que podem não parecer as mais corretas. 




No oriente, é apresentado Ren Fei (Fangsheng Lu), um importante executivo que foi escolhido por seu futuro sogro e patrão para resolver problemas em uma de suas fábricas em Fei, cidade conhecida pela produção cafeicultora e que por acaso é a cidade natal de Ren, no interior de uma China totalmente capitalista. Porém, após conhecer uma jovem moradora e ter reuniões com um representante dos trabalhadores da fábrica, o executivo se encontra em um dilema.  



A história belga fica por conta de Hamed (Hichem Yacoub), comerciante e imigrante que passa a tomar decisões complicadas após ter sua cafeteira de prata roubada durante atos de vandalismo em uma manifestação. O ladrão, um jovem pai sem perspectivas, torna-se cada vez mais agressivo quando procurado pelo comerciante, tendendo a levar a situação a um fim trágico. 



As três situações são interessantes, mas pecam ao se prenderem em clichês e personagens muito estereotipados. Explorar os dilemas sofridos pelos personagens é de fato excelente, apresentando a crise no capitalismo e mostrando seus problemas, como a falta de emprego que gera uma dificuldade nesses indivíduos para que tomem suas decisões, o que por sua vez acaba gerando crises internas.  

No entanto, existe muito mais para ser explorado e o filme foi tímido ao avançar em grandes dilemas da sociedade contemporânea. Assuntos como racismo, exploração da indústria, crises imigratórias e até mesmo o machismo foram muito pouco explorados, em uma produção em que havia espaço para tal. 



Talvez isso seja explicado pelos países responsáveis pela produção, Itália e China, que ainda têm um conservadorismo muito presente. Por exemplo, o tema do aborto apareceu no longa de uma maneira que, ao meu ver, subjugou a garota e não deu margem a sua decisão. No geral, as mulheres ficam em segundo plano no filme, tratadas como personagens de apoio. Acredito que em um filme que se propõe a ter três historias, há espaço em pelo menos uma delas para se ter uma protagonista mulher.

No geral, é um bom filme, não podemos deixar de dizer que a maneira de se abordar os temas cabe aos seus produtores e a suas intenções com a produção, sendo assim o que foi apontado é apenas uma opinião particular de como a trama poderia ser mais relevante. 



Café consegue livrar seus personagens da figura de bonzinhos, mostrando o lado humano de cada um e como a situação de suas regiões, por exemplo, acabam provocando tomadas de decisão completamente fora do que um dia esses indivíduos poderiam imaginar.  

Café me ganhou de certa forma (talvez por eu amar a bebida) ao fazer a metáfora que apresentei no primeiro parágrafo, pois de fato nossas vidas são no geral amargas, e até mesmo azedas, mas se pararmos para sentir os perfumes de nossa existência, vamos a aproveitá-la melhor e dar a ela o seu devido valor. 

Nota – Duas sacas e meia de café (2,5 de 5)

Bruno Machado Roque



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