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Desencavei: Distopia, medos, fábula e metáforas da vida em Coraline, um livro de Neil Gaiman



Quando li pela primeira vez o livro Coraline, em inglês, assim que foi lançado, em 2002, eu me lembro vividamente de que o li em uma viagem de ônibus, e como de esse livro me marcou por muitos anos depois disso. Ao fazer essa releitura recentemente, mantive a mesma sensação que tive na época, me lembrando do fato de que Coraline é uma exploradora, de que ela é uma menina pobre (sua mãe lhe compra roupas largas para servirem por mais tempo) e tive também uma visão diferente dos pais dela, que, segundo minha interpretação, possibilitada pela visão de Umberto Eco, a interpretação do leitor, seus pais deveriam estar em algum projeto freelance ―  hoje eu sei como é isso justamente por trabalhar com isso!

Mas o que eu não sabia na época, mesmo porque não se ensinava isso em escolas, nem em faculdade, era que essa obra fantástica, que tem elementos de fantasia, fábula, terror, tem também um grande pé na distopia! Como assim, não é? Sim, os elementos distópicos são muito fortes para serem ignorados, ainda mais em uma releitura atenta. Então podemos nos arriscar a dizer sim que Coraline é uma fantasia-distópica!
Vale dizer que “O prefixo grego dys (δυσ-) significa “doente”, “mal” e “anormal”. Conforme sugestão de François Ost, evidenciada em sua análise das fontes do imaginário jurídico contidas nas obras de Franz Kafka, as distopias seriam utopias às avessas, ou seja, más utopias, sociedades* imaginárias nas quais as condições de existência são muito piores do que aquelas das sociedades reais. Parece que o termo “distopia” foi utilizado pela primeira vez em 1868 por Greg Ebber e John Stuart Mill em um discurso no Parlamento Britânico”. Porém, estou novamente me adiantando, mas era uma citação importante para o desenvolvimento dessa resenha. 

Ainda usando uma citação de estudiosos, “Nas distopias literárias, as relações sociais entre os sujeitos não são amenizadas, não são tratadas à luz da justiça, mas abordadas do ponto de vista que pode transparecer mais injusto do que o que ocorre na realidade aparente, uma vez que castram as esperanças de seus sujeitos, tornando-os meros acomodados às situações em que se vêem como impotentes”, pois “distopia, em vez de anti-utopia, é um termo usado para imagens negativas”, de acordo com Sargent citado por Levitas (1990: 167).

E o que essas citações têm a ver com a história que Neil Gaiman criou em Coraline? Tudo! Em primeiro lugar, num dia chuvoso em sua nova casa, ela fica entediada enquanto seus pais estão trabalhando, e eles mesmos sugerem que ela explore a casa, conte portas e janelas, coisas azuis, enfim. Como a exploradora que é, ela topa o desafio. Coraline não é uma criança medrosa, mas ela se depara com o que é citado como coisas mais injustas do que ocorrem em sua realidade aparente, já que os pais do “outro lado da porta” são versões pitorescas dos seus que não demoram muito para se mostrar como tais.

“Havia um gato preto altivo que se sentava sobre os muros e os tocos de árvores a observá-la, mas que escapulia quando ela se aproximava para tentar brincar. Foi assim que Coraline passou suas duas primeiras semanas na casa ―explorando o jardim e o terreno em volta.” [ainda não chovia]

Curioso é que não há duas Coralines. E nem dois gatos. O outro mundo é limitado. E horrível, castrando suas liberdades e tornando-a, mesmo que momentaneamente, impotente. Coraline mescla fábula ― sem o conceito pendendo para o mais moralista e “seguro” de O mágico de Oz, cuja conclusão é de que “Não existe lugar como sua casa”, refletindo os conceitos da época, em que se queria as crianças sempre grudadas ao lar e aos pais, o que não é o caso de Coraline, que tem liberdade de sair, exceto em dias de chuva.

 “― Então explore o apartamento ― sugeriu o pai. Olhe aqui tem um pedaço de papel e uma caneta. Conte todas as portas e janelas. Faça uma lista de tudo o que for azul. Organize uma expedição de busca ao aquecedor de água central. E me deixe trabalhar em paz.”

Não é “igual” a O mágico de Oz e nem mesmo Alice no País das Maravilhas, e nem As crônicas de Nárnia, justamente porque os horrores por que Coraline passa ocorrem dentro de sua própria casa! E você pode vê-los como um reflexo de seus medos, uma obra de fantasia e, até no fim, achar que nada daquilo aconteceu e tudo se passou na cabeça dela ― o que não tira a aura distópica da obra.

“As aranhas causavam-lhe intenso desconforto.”

A jornada da heroína de Coraline lida mais com seus medos, ao meu ver, novamente com base em Umberto Eco e suas três interpretações de uma obra, e pode-se dizer que a obra de Gaiman é grandiosa justamente por refletir não só a fábula, não só a distopia, como também os medos humanos.

É interessante que o próprio Neil Gaiman diga  que esse livro assusta mais a adultos que a crianças propriamente ditas. Crianças tendem a ser exploradoras, com medos, claro, mas exploradoras. Infelizmente, as crianças mais quietas não têm experiências de vida desde cedo.

“A névoa envolvia a casa como uma cegueira. Coraline caminhou lentamente até os degraus que levavam ao apartamento de sua família, então parou e olhou a seu redor.Em meio à névoa, o mundo era fantasmagórico. Em perigo?, resmungou Coraline. Isto soava-lhe emocionante. Não soava como algo ruim. De modo algum.”


Coraline era uma exploradora destemida. Nada de dama em apuros. E o gato? É interessante notar que ele não é exatamente um “grilo falante”, e sim como o Milou, de Tintin, como se fosse a voz do que Coraline, o que ela mesma, não expressa. E ele só tem voz do outro lado.

“― Boa-tarde ― disse o gato.Sua voz soava como a voz dentro da cabeça de Coraline, a voz com a qual ela pensava as palavras, mas essa era uma voz de homem, não de menina.”

A princípio, a situação “do outro lado da porta” para Coraline é mostrada como utopia, um ideal de perfeição, mas não demora muito para ela ver o “doente”, o “mal” e o “anormal” do prefixo grego que forma a palavra distopia.

“― Quem é você? ― perguntou Coraline?― Sou sua outra mãe ― respondeu a mulher. Vá dizer ao seu outro pai que o almoço está pronto. ― Ela abriu a porta do forno e Coraline se deu conta, de repente, do quanto que estava faminta. O cheiro era maravilhoso. ― Bem, vá logo.”

“Levantou-se e acompanhou Coraline até a cozinha. Sentaram-se à mesa e a outra mãe de Coraline serviu o almoço. Um frango assado e enorme com batatas fritas e pequenas ervilhas verdes. Coraline despejava a comida pela boca. Tinha um sabor maravilhoso.”

Mesmo que você deseje ler esse livro sem pensar no lado distópico dele, como eu disse, a obra é grandiosa e vai além disso, fala de aceitar as pessoas como elas são, crescer, como diria Joss Whedon, é uma história sobre “growing up” (crescimento), e é curioso que isso ocorre em um pouquíssimo tempo.

“Totalmente só no meio da noite, Coraline começou a chorar. Não havia nenhum outro som no apartamento vazio.”

“Quando você tem medo e faz, mesmo assim, isso é coragem.”

E quantas vezes nas nossas vidas, um só dia basta para que caiamos na real e mudemos completamente de atitude em relação ao mundo? Isso, segundo Jung, se chama insight, e sempre que alguém me pede uma sugestão de obra de entrada em livro de Neil Gaiman (em quadrinhos sempre sugiro Sandman), eu sugiro “Coraline”. Porque mescla distopia, fantasia, contos de fadas tradicionais atualizados, falando de medos, realidade e pesadelos, tudo em um livro curto que não precisa de muitas palavras para passar sua mensagem.

“Havia uma dúvida muito pequena dentro dela, como uma larva no miolo da maçã.”

Muitas dicas são dadas ao longo do livro para que você monte seu próprio quebra-cabeças e nem isso torna o livro chato, em momento algum.

“A mensagem é a seguinte: Não passe pela porta.”

Os personagens secundários são um show à parte, mas eu quero que vocês os descubram e os curtam lendo o livro, porque esse é um daqueles livros que não devem faltar na coleção de vocês. Então, não vou entrar em muitos detalhes quanto a eles, só vou dizer que são bem bizarros e eles também ajudam, de certa forma, Coraline em sua jornada de heroína.


Com as assustadoras e apavorantes, porém belas (eu sei que é paradoxal), ilustrações de Dave McKean, Coraline é um dos meus livros prediletos de todos os tempos!

“Não estou apavorada pensou [Coraline] , ao pensar nisso, sabia que era verdade!”

Eu já disse que as pessoas do outro lado têm botões nos lugares dos olhos? O HORROR!

“Seus olhos de botões negros permaneciam inexpressivos, mas comprimia os lábios com uma fúria fria.”



Meu sonho (ou pesadelo, rs) seria ver esse filme adaptado por David Lynch, com pessoas. Mas vocês podem ver e já me deu vontade de rever, a animação, disponível na Netflix ;)

Nota: 5 pares de botões (5/5) 

Curiosidade 1: Epígrafe do livro: “Contos de fadas são a pura verdade: não porque nos contam que os dragões existem, mas porque nos contam que eles podem ser vencidos.” ―C. K. Chesterton

Curiosidade 2: Não falta nem citação a Shakespeare: “A rose by any other name” no meio do livro e com contexto! <3 {que também me faz me lembrar de Star Trek e- S2}

Curiosidade 3: (em inglês) Lista de prêmios que “Coraline” ganhou e outras curiosidades (e até excerto em áudio em inglês)

* sendo que sociedade não se limita à grande sociedade em geral, mas também a grupos de pessoas que vivem juntas em uma comunidade organizada, como os habitantes de um prédio, por exemplo.


Ps.: Origem das citações no começo da resenha:

PHRONESIS: Revista do Curso de Direito da FEAD • no 4 • Janeiro/Dezembro de 2008

Terra roxa e outras terras – Revista de Estudos Literários ― Volume 12 (Jun. 2008) – ISSN 1678-2054

Trailer do filme:



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