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O Nome da Morte, um filme de Henrique Goldman



Quanto do nosso país a gente desconhece? Quanto de situações de vida que fogem da nossa zona de conforto estamos dispostos a ver sem julgar nem condenar? 
Em O Nome da Morte, somos apresentados à história de Júlio Santana, um pistoleiro. O que temos em comum com ele, além do fato de sermos seres humanos? Ou ele seria menos humano do que “meros mortais” por ser um pistoleiro?

Questionamentos profundos podem ser levantados antes, durante e depois de assistirmos a esse filme, cuja narrativa nos leva a conhecer um homem que matou 492 pessoas e vive solto em nosso país, tendo sido preso apenas uma vez e solto no dia seguinte. 


A estreia de Marco Pigossi no cinema como um assassino profissional religioso é marcada por sua atuação intensa, que surpreendeu até mesmo o autor do livro que deu origem ao filme, ele mesmo que disse na coletiva que tinha um certo pé atrás por Marco ser "muito bonito". A fotografia do filme é de uma beleza estupenda. Como disse o diretor na coletiva, sim, foram usados filtros e toda a tecnologia que hoje temos a nosso dispor para a criação de obras da sétima arte, mas a beleza natural dos cenários era tão incrível que nem mesmo a câmera seria capaz de fazer jus a ela. 

Como disse o Bruno ainda lá no artigo sobre a coletiva de imprensa, A chamada “Indústria da Morte” não se resume aos matadores, ainda existe por trás disso a produção bélica e a construção de discursos altamente violentos na mídia e politica.”  E é bem por aí. Se em filmes  relativamente recentes como “O Homem de Ferro”, Hollywood nos leva a ver um pouco do lado feio dessa indústria, e filmes um pouco mais antigos como “O Senhor das Armas” já haviam metido o dedo na ferida, em “O Nome da Morte”, temos um pouco do melhor da safra atual do cinema brazuca fazendo bonito na cena, em um belo filme em que nos é mostrado um lado "feio" de vidas em um Brasil que muitos preferem ignorar. Ou apenas julgar. 



No filme, vemos Júlio se tornando um pistoleiro não por desejo de matar, o que ele faz por ser sua profissão, assim como um matador de gado o faz por necessidade e demanda da indústria alimentícia, o pistoleiro mata pessoas por “necessidade” e “demanda” da indústria da morte. Sim, se não houvesse mandantes, não haveria pistoleiros. A “necessidade” gera a profissão. A “demanda” gera a matança. Se Júlio se recusasse a matar sob demanda, outros tomariam seu lugar. É muita ingenuidade achar que esse ciclo de mortes sob encomenda teria fim apenas com a "aposentadoria" de Júlio. 

Deixando um pouco de lado o cunho sociopolítico, o filme brinca com um modelo clássico de narrativa que acaba gerando uma novidade, explorando e mudando aquele lance típico de começar com uma cena e explicá-la no fim do filme. Não é assim, a produção vai além e surpreende em termos criativos ao contar uma história relativamente simples, mas profunda per se e que deixa os espectadores pensando por muito tempo depois em como essas coisas aconteceram e acontecem, e muitas vezes continuam acontecendo, enquanto estamos nos confortos de nossos sofás ou no cinema e tudo isso se desenrola e ou se desenrolou enquanto dormíamos “em segurança”.



Mais um filme provocativo (e que me deixou com muita vontade de ler o livro e me aprofundar ainda mais nessa realidade tão díspar da minha, e tão pesada e surreal e ao mesmo tempo tão cruelmente real) e para levar o espectador a questionar aquilo que muitas vezes temos como verdade e/ou estigma, “O nome da morte” merece ser visto nas telonas por sua brutalidade e beleza. E por nos fazer lembrar de que julgar pode parecer fácil… mas você faria diferente naquelas circunstâncias?


Nota: 5 de 5 balas certeiras bem no meio da testa.


Sinopse do livro no Skoob: Depois de matar, Júlio Santana reza dez ave-marias e vinte pai-nossos para pedir perdão. Tem medo de acabar no inferno. Sem ideologia, Júlio Santana mata por ofício. Uma profissão que aprendeu em família, com seu tio Cícero, que lhe passou um trabalho aos 17 anos. Depois de 35 anos de ofício, contabiliza quase 500 vítimas registradas num caderninho com a capa do Pato Donald. Sem compaixão ou ódio, Klester Cavalcanti faz o matador respirar e nos assombrar com sua frieza. Pela primeira vez, um pistoleiro mostra seu rosto e conta sua vida. Mais do que a denúncia da impunidade e o desnudamento das engrenagens da viciada máquina Brasil, O Nome da Morte quer chacoalhar o país, acordá-lo desse triste sonho que ele insiste em viver como se fosse a realidade. Júlio Santana existe e dorme tranquilo. 



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