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Felicidade por um fio, um filme de Haifaa Al Mansour e que nunca foi "apenas" sobre cabelo!




Nós vivemos em uma sociedade que não só encoraja como impõe, especialmente às mulheres, uma busca irrealista por perfeição. Nós vivemos em uma sociedade cuja grande parte acha que a mulher deve se curvar ao homem, agradar o homem. Nós vivemos em uma sociedade racista, misógina, machista, colorista - em que a beleza das mulheres negras quase sempre é vista em termos de tons mais claros de pele e/ou cabelos mais lisos e próximos dos “ideais” de beleza brancos. E aqueles que ainda acham esses tipos de filmes desnecessários e fruto de uma "modinha politicamente correta” deveriam estudar um pouco mais as condições da minorias. Não basta pregar que se respeitem as pessoas como os seres humanos que elas são. O contexto histórico das mulheres e das minorias está só para ser pesquisado por qualquer um com um pouco de boa vontade e de menta aberta. 

Como já citei aqui na crítica de “O insulto” e em várias outras críticas, temos preconceitos embutidos. Sim, TEMOS. Ou você acha que o termo “denegrir” não é racista? Dizer que você já namorou um negro não te torna não racista e por aí vai. Infelizmente, sei que muitos pregam o geral: “Ah, pra quê movimentos pró-minorias? Temos que amar e respeitar a todos e blá-blá-blá.” Em teoria, sim, na realidade, não é o que ocorre. Então, sim, pedir por mais diversidade, um Oscar menos branco, #blacklivesmatter e movimentos LGBT são sim necessários. Os direitos dos animais não excluem os seus. Então, se você está lendo isso é é bitolado, tenta abrir a mente. Eu vivo abrindo a minha a cada dia, desde pequena. Fui criada por uma mãe racista, homofóbica etc. Não tenho vergonha de admitir isso aqui. Sinto tristeza. Mas eu não sou assim. Então, usar a desculpa da criação errada é repetir um discurso hipócrita. Vamos mudar? Vamos nos informar? Com obras fictícias ou não, também temos inteligência para discernir o que é fake news e o que é propaganda exagerada, mas, sim, usar  discernimento faz bem e ajuda o mundo a ficar a cada diz menos preconceituoso, violento e, sim, meu lado otimista diz, melhor.



Eu não sou uma mulher negra. Mas não preciso ser para me identificar com s problemas delas. Some ao fato da misoginia o racismo. Chamado de misoginoir. Coloca nessa lista que a mesma mulher negra seja lésbica. Tenha alguma deficiência. Tenha a pele “escura demais” ou o cabelo “ruim” demais… E entramos no ponto focal de Felicidade por um fio. 

Primeiramente, amei o título em português. Em inglês, é Nappily ever after [nappy é um dos termos que se usa para falar do cabelo negro, algo como “crespos”, mas nós sabemos que os termos em geral são bem mais ofensivos, como bucha, bombril, pixaim, etc.), um trocadilho com o Happilly ever after [Felizes para sempre]. 

A sinopse está na internet e na própria Netflix para quem quiser ler. Mas não se trata de uma mulher fútil preocupada cos os cabelos como vi em algumas críticas feitas por homens brancos. Os produtos para alisamento de cabelos negros, uma real exigência no nosso mundo em muitos locais de trabalho, causa dans terríveis, e não só aos cabelos. Tem a autoestima, os danos reais ao couro cabeludo e até mesmo cicatrizes internas já foram descobertas em estudos. 



Violet é uma mulher forte, sim, mas que vive em um mundo que exige não só que ela seja perfeita, mas que ela seja mais que perfeita. Por ser mulher, por ser negra, mesmo com muito talento, ela cai nas redes do que a “sociedade” impõe. Até que ela vai se libertando. Não é um conto de fadas. É uma história fictícia, sim, mas é tão real que dói na alma. 

O filme quebra o clichê do final feliz com casamento (que ela almejava, veja bem, porque o sonho da mãe dela era esse e foi embutido nela desde cedo). Ela tem culpa? Eu sempre digo que existe culpa e responsabilidade. Temos que assumir nossas culpas e nossas responsabilidades, mas a sociedade, o mundo patriarcal, predominantemente branco, machista e misógino (tipo, oi, eu nã tenho que aceitar um elogio de um estranho na rua porque meu cabelo é roxo, não o conheço, não sou um manequim de vitrine, nenhuma mulher negra tem que aguentar elogios de estranhos e até pedidos de fotos com elas por seus cabelos exóticos, e isso são apenas dois exemplos).

Foi assustador ver o taxista no filme mencionando que se o homem não trai nem bate na mulher, não há nenhum problema com ele. Oi?

É assustador vermos como o “menos ruim” é comumente visto como “bom” e isso é errado. Felicidade por um fio é muito mais do que um filme sobre cabelos, não é um filme para um nicho (mulheres negras), não é “mimimi” da sociedade que deseja filmes politicamente corretos e mais diversos. É uma necessidade. Super indico. E aproveito para indicar a série Cara gente branca também. 

E se filmes com negros e/ou gays e/ou negros(as) e gays não “tocam” você, já parou para pensar que essas pessoas não fazem mimimi e curtiram e/ou tiveram que tolerar, durante anos, séculos até, não somente filmes e séries como livros e revistas os colocando como estereótipos horríveis e coisas do gênero? Não é tão difícil assim buscar compreender um mundo “que não é o seu”. Existem dinossauros no seu mundo? No meu, não. E amo Jurassic Park. 

Nota: 10 produtos para cuidados de cabelos de mulheres negras com produtos que não destroem ainda mais por fora e por dentro o que nosso mundo já vem fazendo há anos. 


Bônus: Super destaque para a atria mirim Daria Johns <3



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