Pular para o conteúdo principal

Melancolia, de Lars von Trier: Um filme belo, asfixiante e digno no retrato que traça da depressão como doença



Melancolia, de 2011, de Lars von Trier, é um passeio nada agradável, no entanto mais do que belo pelo que é a depressão como doença, mostrada tanto de forma realista quanto metafórica, cujas imagens de abertura, com uma fotografia e cinematografia para lá de incríveis, já "preparam" o espectador para o que está por vir. 

Vejam por si a sequência de abertura ao som de Tristão e Isolda, de Richard Wagner: 



Uma das frases do filme, algo como: "Se eu consigo ficar feliz, você também consegue", realmente não ajuda alguém com depressão. Como diz Justine, e é mostrado linda e metaforicamente em algumas cenas do filme, ela caminha na vida como se raízes a prendessem, tornando difícil o seu andar. 

Melancolia mostra vários comportamentos indignos e repulsivos de familiares e outros entes queridos, mas não se limita, de forma alguma, a traçar alguém como bom ou mau. Sem entrar no campo minado dos spoilers, os personagens principais não são cópias carbonadas e sem vida de seres humanos da vida real, eles são densos, e vamos acompanhando um pouco de suas implicâncias, mesquinhezas, mas também de suas frustrações e medos e inseguranças, e é quando o sobrinho de Justine vê a tia naquele estado de depressão que achei um dos momentos mais tocantes do filme, que teve, obviamente, vários, me senti mais desolada, embora ainda ache que esta palavra é imprecisa para descrever o que senti: muitos esperam que você seja uma mulher forte, ainda mais quando, na casca, por fora, você é bem-sucedida e está se casando com o amor da sua vida. Mas, é quando Justine finalmente desaba, que o filme ganha uma nova dimensão. 



A obra-prima sobre a depressão é dividida em duas partes, em ordem cronológica, com foco no ponto de vista de Justine na primeira metade do filme, depois com foco em sua irmã. Pelas lentes de Lars von Trier, somos conduzidos a ver o feio e o horrível nas atitudes daquele que dizem gostar de nós e até mesmo nos respeitar, só que, cujas ações, não condizem nem um pouco com suas atitudes. 

Há críticas sociais no filme? Sim, claro. Festas de casamento caríssimas, parentes que tentam e fracassam terrivelmente nas tentativas de manter as aparências, atitudes fúteis que são feitas porque a sociedade quis assim, claro, temos essas situações. 

Temos um cientista que acha (ou não) que o planeta, não por acaso chamado de Melancolia, colidirá com a Terra. Seria o fim da vida na Terra se isso acontecesse. Mas ele é otimista. Ao que parece. Quando se desvelam as cortinas vamos vendo além das primeiras cascas dos personagens, como se podres cebolas roxas estivessem sendo descascadas para ver se resta algo por dentro. Às vezes, não. Às vezes, render-se (o que é diferente de conformar-se) à doença e aceitá-la, mesmo que seus "entes queridos" venham com julgamentos, peçam e/ou ordenem que você se comporte, não faça drama, etc. Não é assim. Melancolia mostra tanto metaforicamente quanto de uma forma bem realista em meio ao plano de fundo aparentemente científico, e de forma muito eficiente, como a depressão age em uma pessoa, embora devamos nos lembrar que esta é uma doença que se manifesta com sintomas em comum, sim, como a dificuldade para se tomar banho, uma das cenas mais tocantes também do filme. 

Não esperem o sentimentalismo de Armageddon. É Lars von Trier, e Melancolia é um lindíssimo, um espetáculo em termos visuais, em termos de exploração da psique humana, em vários termos e sob vários ângulos, um retrato com imagens em movimento sobre a depressão. 

Só que, na vida real, as pessoas precisam parar de falar que a pessoa vai ficar bem, que tudo vai passar. Sim, tudo vai passar, talvez por cima da pessoa. E alguns se recuperam, outros se matam, alguns sempre terão recaídas, porque depressão é uma doença, ao passo que tristeza é um sentimento. Como em As vantagens de ser invisível, podemos sim estarmos felizes e tristes ao mesmo tempo, mesmo quando não estamos deprimidos. Na depressão, muitas vezes parece que tudo é ampliado e exacerbado e podemos ter reações exageradas, mas também muitas vezes desejadas, soltar o verbo mesmo, como Justine faz com seu chefe. 



Depressão é uma doença. Como a diabete é uma doença. Como o câncer é uma doença. Só que elas agem de forma diferente, mas todas elas requerem tratamento. Por favor, não é porque o setembro amarelo acabou que você deve parar de se preocupar com isso. Alguns sinais são bem claros. Outros, não. E não ache que alguém que sai sorrindo em uma foto e a posta nas redes sociais está curado só por isso. É um processo. Uma luta. Constante. E às vezes há mais quedas. Que podem ser feias. E nem todo mundo em depressão fica dias e dias na cama sem tomar banho. Novamente não entrarei no campo dos spoilers, mas em uma cena perturbadora, Justine faz algo tão terrível (ao meu ver) por causa de frustração, o que mostra como ferimos a quem amamos no meio dessa doença. O que não é nada justificável, mas que acontece, porque a pressão é forte demais. E muitas vezes, o infligir a dor no outro também é como se estivéssemos enfiando uma faca em nós mesmos. 

Não fique com medo de ver o filme se estiver em depressão. Ou fuja dele. A decisão é sua. Você é a pessoa mais importante da sua vida, saiba disso. 

Não fale para uma pessoa em depressão que ela tem que ser mais forte apenas, ficar bem, ir passear no parque ou qualquer versão desses clichês. Eu sei que até eu mesma já devo ter usado algum desses clichês com entes queridos em depressão e peço desculpas em público por isso. Mas se usei essas frases que mais machucam do que podem ajudar, nunca foi para negar a depressão como doença. Nunca. Jamais. A depressão é uma doença, e não um crime. 

Não seja o carrasco daquele que até mesmo tiver coragem de lhe pedir ajuda. 

Nota: 10 raios saindo dos dedos de Kirsten Dust, que fez mais por merecer o prêmio de melhor atriz em Cannes por sua atuação nesse filme. 

Obs.: Não colocarei links sobre depressão da internet aqui. Só um (bom) profissional de saúde pode realmente um diagnóstico. E talvez seja necessária mais do que uma opinião medicamente qualificada. Me deparei com textos dizendo que fulano achou a cura para a depressão atrás do volante e/ou fazendo alguma atividade. Fechei a página imediatamente. Há diabéticos que podem morrer se não tomarem insulina. Há pessoas com depressão que podem morrer, sim, se não forem tratadas. Não empurrem para o abismo aqueles que já o contemplam como opção. 

Melancolia faz parte da trilogia da (polêmica) depressão do diretor, que conta com O Anticristo, Melancolia e Ninfomaníaca (partes 1 e 2). Já vi os dois primeiros. 


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Midsommar - O mal não espera a noite tem um quê de dèjá vu com pontas de originalidade, mas peca por ser longo

Com influências de Corra!, da série Hannibal (principalmente perto do final do longa), com um quê de clima de Anticristo, sem deixar de lado A chave mestra, Colheita Maldita (filme inspirado na obra homônima de Stephen King), O homem de palha, e, como me disse a Ana, que é megafã de Supernatural, inclusive um episódio da série que sacrificava “estrangeiros”  em prol do “bem” da cidade de Burkitsville, no décimo-primeiro episódio da primeira temporada da série, tudo isso também é bem sentido em Midsommar – O mal não espera a noite. Com todas essas referências, senão inspirações, dá para imaginar o desconforto que o filme passa.


Com 147 minutos (171 na versão do diretor), ser longo é um problema no filme. As partes boas são realmente boas e chocantes, o culto e o que parece haver de muito sinistro por trás deles é bem estabelecido, mas os personagens, especialmente os secundários, não são muito aprofundados e, quando começam a “desaparecer”, a tendência é que o telespectador não ligue m…

La Boya, um filme de Fernando Spiner

Maria do Caritó, do tablado para o cinema, diverte ao mesmo tempo em que faz críticas muito necessárias

No dicionário popular, Caritó é a pequena prateleira no alto da parede, ou nicho nas casas de taipa, onde as mulheres escondem fora do alcance das crianças, o carretel de linha, o pente, o pedaço de fumo, o cachimbo. Vitalina, conforme a popularizou a cantiga, é a solteirona, a moça-velha que se enfeita - bota pó e tira pó -, mas não encontra marido. E assim, a vitalina que ficou no caritó é como quem diz que ficou na prateleira, sem uso, esquecida, guardada intacta.
No gênero comédia romântica e baseado na peça teatral homônima, Maria do Caritó, escrita por Newton Moreno e ambientado no nordeste, e gravado na cidade de Peacatuba, em Minas Gerais, onde a fotografia remete às pequenas cidades do interior, trazendo a poesia e o azul como motes no começo do  longa.



Nessa máxima que segue o enredo de Maria de Caritó, longa protagonizado por Lilian Cabral (Maria), a moça que chega aos seus 50 anos  e ainda virgem, vítima da promessa que seu pai diz ter feito ao santo desconhecido quando ela …