Pular para o conteúdo principal

A esposa, um filme que dialoga com o público sobre o machismo e outros temas importantes e mais do que atuais


O novo filme protagonizado por Glenn Close e Jonathan Pryce traz uma história com um enredo não muito original, mas que consegue executar muito bem o assunto principal, que é abordado desde a primeira cena, mostrando a relação de respeito e afeto entre os dois personagens, principalmente sobre o trabalho do personagem de Pryce. Ao longo do primeiro ato, outros subtemas são introduzidos aos poucos, os quais terão algum envolvimento com a trama principal. Como o filho do casal, que também é escritor e é desprezado pelo pai, mesmo ele não falando isso. É algo que o público percebe muito bem somente pelo jeito sutil como ele trata o filho.

O diretor trabalha bem a sutileza nesse filme, colocando as coisas de forma delicada e coerente, fazendo com que os assuntos abordados não fiquem muito expostos, mas também que fiquem claros para o público, como o fato da sociedade machista na literatura, que opta por não publicar certos livros pelo fato de serem escritos por mulheres, e quando são publicados, dão mais importância a livros escritos por homens. [Sobre isso, leia aqui no blog também a crítica do filme Colette, que conta a trajetória da notória escritora francesa em sua luta para ser reconhecida pelos livros que escreveu e que também tem que lidar com o machismo estrutural dominante em sua época.]

O roteiro trabalha bem os dois arcos temporais, mostrando o passado e o presente da personagem, enquanto no passado é mostrado como Joan e Joe se conheceram. Pelo modo como isso é mostrado, fica meio óbvio o caminho que o diretor vai seguir, até que ele rompe os clichês e surpreende: as razões que a levaram a abrir mão de suas ambições e de seu talento devido ao machismo e ego dos homens a sua volta, fazendo com que ela se escondesse por trás de seu marido, tornando-o um dos grandes escritores da literatura.

Glenn Glose se supera nesse filme. Ela trabalha bastante suas expressões faciais, e muitas vezes ela consegue dizer tudo que sente sobre o sucesso de seu marido sem dizer uma palavra que seja. O diretor usa planos fechados em seu rosto, mostrando sua expressão de raiva, sua angústia, seu remorso, e a vontade de revelar todos os segredos com um simples olhar que chega a ser um deleite para os olhos do espectador. Quando por fim ela confronta o marido, o diretor faz um excelente trabalho com a atriz e dá ao publico o que eles esperavam.

Imagem relacionada

Jonathan Pryce interpreta Joe, dando a seu personagem várias camadas que vão sendo descascadas como uma cebola: ele é um pai que é sincero com seus filhos, um homem que ama o que faz e um marido que respeita sua esposa, deixando claro para o público que o seu sucesso vem principalmente de Joan, mas ele nunca deixa isso claro para seus leitores em seus discursos de agradecimento. Mesmo que ele diga que nada disso teria sido possível sem o apoio dela, ele nunca lhe dá os devidos créditos. 

Imagem relacionada

A montagem entre o passado e o presente se resume a algo desagradável que ocorre, cortando logo em seguida para o presente, interrompendo o clima da cena anterior.

Resultado de imagem para the wife

A esposa é um filme sutil que consegue abordar bem os temas apresentados e Glenn Close fez por merecer sua indicação de melhor atriz no Globo de Ouro e merece uma indicação ao Oscar.

NOTA: 9 discursos para ela. (9/10)





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Midsommar - O mal não espera a noite tem um quê de dèjá vu com pontas de originalidade, mas peca por ser longo

Com influências de Corra!, da série Hannibal (principalmente perto do final do longa), com um quê de clima de Anticristo, sem deixar de lado A chave mestra, Colheita Maldita (filme inspirado na obra homônima de Stephen King), O homem de palha, e, como me disse a Ana, que é megafã de Supernatural, inclusive um episódio da série que sacrificava “estrangeiros”  em prol do “bem” da cidade de Burkitsville, no décimo-primeiro episódio da primeira temporada da série, tudo isso também é bem sentido em Midsommar – O mal não espera a noite. Com todas essas referências, senão inspirações, dá para imaginar o desconforto que o filme passa.


Com 147 minutos (171 na versão do diretor), ser longo é um problema no filme. As partes boas são realmente boas e chocantes, o culto e o que parece haver de muito sinistro por trás deles é bem estabelecido, mas os personagens, especialmente os secundários, não são muito aprofundados e, quando começam a “desaparecer”, a tendência é que o telespectador não ligue m…

La Boya, um filme de Fernando Spiner

Netflix anuncia nova série em mandarim, “A NOIVA FANTASMA”

“Certa noite, meu pai me perguntou se eu gostaria de me tornar uma noiva fantasma...” A nova série original da Netflix “A Noiva Fantasma”, dirigida pelos premiados diretores malaios Quek Shio-Chuan e Ho Yu-Hang, foi produzida na Malásia e conta com uma equipe internacional de roteiristas de Hollywood, Malásia e Taiwan, liderados pela escritora de TV americana-taiwaneesa Kai Yu Wu, conhecida por seu trabalho em sucessos como Hannibal e The Flash.

A produção é uma adaptação de um best-seller homônimo do New York Times, escrito pela malasiana Yangsze Choo e lançado no Brasil, em uma edição belíssima, pela Editora Darkside Books. A série adota uma abordagem de produção refrescante.


A trama se passa em uma colônia da década de 1890, onde a protagonista, Li Lan, uma jovem educada e culta, recebe uma proposta capaz de mudar sua vida para sempre: casar-se com o herdeiro de uma família rica e poderosa. Há apenas um detalhe: seu noivo está morto. A oferta parece irrecusável, já que ajudaria sua fa…