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Culpa, de Gustav Möller - 85 minutos de tensão



Asger Holm (Jakob Cedergren) está trabalhando em uma central de ligações de emergência. Ele está entediado, irritado. É fácil perceber que ele não está ali por vontade própria. Depois de atender a algumas chamadas de incidentes menores, ele atende à ligação de uma mulher que diz estar sendo sequestrada. Ele sabe que agora o caso é sério e que cada segundo conta. Correndo contra o tempo, ele tenta descobrir a localização da vítima para que a polícia consiga libertá-la.

Contando assim, parece apenas mais um filme de ação, desses que são despejados às baciadas no mercado todos os anos. Só que, embora seja um thriller que mantém o espectador tenso durante todos os seus 85 minutos de projeção, não é exatamente um filme de ação, pois o cenário é a central de emergência e tudo que vemos durante 90% do tempo é o rosto de Asger.


Em “Culpa”, a câmera está sempre grudada na cara do protagonista, capturando cada mínimo movimento dos músculos de sua face, cada gota de suor, cada engolida em seco. E o ambiente restrito, que fica ainda mais diminuto e claustrofóbico quando Asger passa da sala coletiva para um cubículo escuro e isolado, em vez de ser um ponto negativo, colabora ainda mais para aumentar a angústia de quem acompanha o desenrolar da trama do outro lado da tela.

O mais fascinante desse filme é acompanhar não só os acontecimentos que levam ao desfecho do caso (que conhecemos apenas pelos sons: o que Asger diz, o que dizem as pessoas com quem ele fala ao telefone, os ruídos dos ambientes vindos do outro lado da linha que nos ajudam a imaginar as cenas), mas também a transformação do personagem principal. Se nos minutos iniciais ele se mostra arrogante e insensível ao atender às primeiras ligações, depois que fala com a sequestrada, sua postura muda, ele se envolve cada vez mais no caso (mais até do que era sua função), ele se sente frustrado por não poder agir de fato, por ter que esperar, por ter que depender dos outros: e é então que passamos a conhecer melhor sua natureza e entender como ele acabou ali na central de emergência e o que isso tem a ver com o título do filme.


“Culpa” é um filme de baixo orçamento que se sustenta graças a um ótimo roteiro e à atuação excelente de Jakob Cedergren. O diretor, Gustav Möller, que se inspirou em uma gravação de uma ligação real de uma pessoa sequestrada para a polícia, foi muito esperto ao sacar que nada assusta mais que nossa própria imaginação, basta dar os elementos certos para ela trabalhar.

Premiada em diversos festivais, a obra foi a escolha do público em Sundance 2018 na categoria ‘Melhor Filme Dramático’, e é o indicado da Dinamarca para concorrer a ‘Melhor Filme Estrangeiro’ no Oscar 2019. Com tanto sucesso, um remake americano já foi anunciado, e Jake Gyllenhaal é o ator escolhido para viver o papel principal.

Nota: 4,5 bolinhas antiestresse (4,5/5)
Estreia prevista: 20 de dezembro


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