Pular para o conteúdo principal

Intimidade entre estranhos: muito além de um triângulo amoroso





Maria (Rafaela Mandelli) é uma designer que dá uma pausa na carreira em São Paulo para se mudar temporariamente para o Rio de Janeiro, onde seu esposo, Pedro (Milhem Cortaz) finalmente conseguiu um papel importante em uma minissérie de TV. Só que Maria mal chega ao edifício antigo em que morará por uns tempos e já começa a ter atritos com Horácio (Gabriel Contente), o jovem síndico rabugento e dono da quase totalidade do prédio. Mesmo com as diferenças iniciais, Maria e Horácio se aproximam e se conectam na solidão.

Maria tem uma personalidade solar: diz sempre o que pensa, gosta de dançar e de relaxar na piscina. Horácio é seu oposto: introspectivo, prefere observar a falar, passa os dias enfurnado em seu apartamento escuro. No entanto, ambos têm em comum uma história de perda familiar. E, cada um a seu modo, eles tentam preencher os tediosos dias de uma vida em suspensão. Assim, não é difícil para esses dois estranhos enxergarem que se complementam apesar das aparências.


O ponto forte do filme são os personagens multifacetados e muito críveis em suas qualidades e defeitos. O grandalhão Pedro, por exemplo, revela que por baixo de toda a sua pose de macho-alfa há um sujeito inseguro e fragilizado que, como nos informa sua esposa, muitas vezes chora feito uma criança diante das frustrações. Maria também nos deixa conhecer a menina assustada e traumatizada que se esconde sob a mulher bem-sucedida e descolada. Horácio, o mais jovem do trio, demonstra com sua rabugice que foi obrigado a amadurecer antes do tempo.

E, indo mais além do triângulo amoroso que o trailer e o cartaz já deixam antever, a trama nos brinda com um casal que tem um relacionamento de longa data, cheio de altos e baixos, e nada idealizado. Sabe aquela história de dar espaço para quem se ama, permitindo que a pessoa se afaste e volte se o amor for verdadeiro? Então... uma teoria muito bonita, mas dificílima de ser posta em prática. Entretanto, é exatamente isso que Maria e Pedro fazem. Se, por um lado, Pedro vive uma fase egoísta e acaba cometendo alguns deslizes, o que torna Maria infeliz e carente e a aproxima de Horácio, ele é sensato o suficiente para admitir os erros e não se entregar a um ciúme bobo quando percebe que a esposa estava se tornando íntima demais de um garoto. Ao contrário do amor pueril que Horácio nutre por Maria, a relação dela com Pedro é sólida e baseada em apoio mútuo em qualquer situação. Como ela bem explica ao jovem em certo momento, assim como ela serviu de salva-vidas para Pedro quando ele se afogava na bebida, ele esteve ao seu lado nos piores momentos, trocou sua calcinha, limpou sua bunda. E é preciso muito amor para lidar com a realidade nada glamorosa da vida a dois.


Embora “Intimidade entre estranhos” mereça elogios pela forma como retratou os personagens e a dinâmica entre eles, os diálogos explicativos e a artificialidade de algumas falas incomodaram. O fato de a música-tema (composição de Leoni e Frejat que serviu de inspiração para o filme e que Horácio canta para Maria na história) ser seguida à risca em algumas cenas enfraquece a narrativa. Em todo caso, é um raro trabalho a mostrar protagonistas emocionalmente maduros e que vale a pena ser conferido.

Nota: 3 miojos com Toddynho (3/5)
Estreia: 13 de dezembro


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Midsommar - O mal não espera a noite tem um quê de dèjá vu com pontas de originalidade, mas peca por ser longo

Com influências de Corra!, da série Hannibal (principalmente perto do final do longa), com um quê de clima de Anticristo, sem deixar de lado A chave mestra, Colheita Maldita (filme inspirado na obra homônima de Stephen King), O homem de palha, e, como me disse a Ana, que é megafã de Supernatural, inclusive um episódio da série que sacrificava “estrangeiros”  em prol do “bem” da cidade de Burkitsville, no décimo-primeiro episódio da primeira temporada da série, tudo isso também é bem sentido em Midsommar – O mal não espera a noite. Com todas essas referências, senão inspirações, dá para imaginar o desconforto que o filme passa.


Com 147 minutos (171 na versão do diretor), ser longo é um problema no filme. As partes boas são realmente boas e chocantes, o culto e o que parece haver de muito sinistro por trás deles é bem estabelecido, mas os personagens, especialmente os secundários, não são muito aprofundados e, quando começam a “desaparecer”, a tendência é que o telespectador não ligue m…

La Boya, um filme de Fernando Spiner

Netflix anuncia nova série em mandarim, “A NOIVA FANTASMA”

“Certa noite, meu pai me perguntou se eu gostaria de me tornar uma noiva fantasma...” A nova série original da Netflix “A Noiva Fantasma”, dirigida pelos premiados diretores malaios Quek Shio-Chuan e Ho Yu-Hang, foi produzida na Malásia e conta com uma equipe internacional de roteiristas de Hollywood, Malásia e Taiwan, liderados pela escritora de TV americana-taiwaneesa Kai Yu Wu, conhecida por seu trabalho em sucessos como Hannibal e The Flash.

A produção é uma adaptação de um best-seller homônimo do New York Times, escrito pela malasiana Yangsze Choo e lançado no Brasil, em uma edição belíssima, pela Editora Darkside Books. A série adota uma abordagem de produção refrescante.


A trama se passa em uma colônia da década de 1890, onde a protagonista, Li Lan, uma jovem educada e culta, recebe uma proposta capaz de mudar sua vida para sempre: casar-se com o herdeiro de uma família rica e poderosa. Há apenas um detalhe: seu noivo está morto. A oferta parece irrecusável, já que ajudaria sua fa…