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O Beijo no Asfalto. Obra de Nelson Rodrigues escancara a hipocrisia, e ganha as telas pelo olhar de Murilo Benício

De maneira excepcional, Murilo Benício, faz sua estreia como diretor, com o longa O Beijo no Asfalto. Uma nova representação da peça do grande teatrólogo Nelson Rodrigues, escrita em 1960, mas que é incrivelmente atual. A trama se desenrola a partir de um atropelamento, onde a vítima, em seu leito de morte - o asfalto -, pede um beijo ao bancário Arandir (Lázaro Ramos), que, sem pensar duas vezes, realiza o desejo dele. Porém, tratava-se de um homem, algo que choca os transeuntes, entre eles um jornalista mal intencionado, que em meio a uma conspiração cria uma rede de boatos para sujar o nome do bancário.
O que impressiona na produção de Murilo Benício é a maneira não usual como o diretor leva o teatro para o cinema. É realmente incrível e até emocionante ver a montagem que junta momentos dos bastidores, como a preparação de elenco e a leitura de mesa, com as cenas do enredo, permitindo visualizar equipamentos do cenário e até notas de rodapé feitas pelos atores. Não é à toa que  o diretor escolheu Fernanda Montenegro para fazer parte do rol. A consagrada atriz já havia realizado a peça e possibilitou comentários experientes, enriquecendo a produção.


Em O Beijo no Asfalto há uma ilustração da hipocrisia cativa de nossa sociedade. Essa crítica está presente em todos os momentos da história, mas centrada no fato de que um simples beijo pode chocar mais que uma agressão. Também desperta uma reflexão frente ao ato de realizar-se o desejo de um indivíduo à beira de morte, uma atitude altruísta e irracional que deveria ser aplaudida, porém se torna motivo para condenar um pobre rapaz.
É de fato impossível não fazer paralelos com a atualidade ao assistir ao filme, dentre essas as “Fake News”, visto que a reputação de Arandir é destruída por meio de boatos e um investimento assíduo por parte da imprensa para difamá-lo, a fim de facilitar interesses de instituições.


Uma obra indispensável, tanto para celebrar as produções de Nelson Rodrigues quanto para evidenciar a deterioração de nossa sociedade. Chega a ser assustador ver como de fato vivemos em um ciclo, e a moral comum fecha os olhos para os verdadeiros males do país, preocupando-se com a liberdade de cada cidadão de ser quem é, enquanto detentores do poder se escondem atrás do traje de salvadores da pátria. Louvável que a cultura use sua força, para abrir nossas cabeças e nos fazer enxergar o que de fato pode tornar nossa convivência mais equilibrada, o amor ao próximo e a sensibilidade para ser altruísta.    


Nota: 5 pessoas hipócritas



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