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Resenha do livro: O retrato de Dorian Gray, um clássico de Oscar Wilde

Um Brinde à … Descoberta!
Descerrando o manto de anjo que encobre a verdadeira face de Tartufo, multiplico aos milhares, como a Imagem difundida em um caleidoscópio multicor, Oscar Wilde retrata magistralmente a corrupção de uma personalidade, de uma sociedade, do ser humano, fusão de elementos tão complexos como os formadores / forjadores do Universo, dispostos de maneira desigual sobre um tabuleiro de xadrez, onde os Deuses abrem os portões, sejam de pedra, ouro, marfim, e somos convidados a entrar, por caminhos sinuosos, retos, tortuosos, para que desfrutemos o poder desta escolha: a arena na qual deve desenrolar-se a batalha encontra-se em nossos corações e mentes – não há como escapar: uma cilada dos deuses ou uma armadilha de nossa própria natureza?
Abrindo o primeiro portão que conduz à aventura do discernimento do ser humano, como a estrela que caiu do céu, recebendo a chave do poço abismal, é perscrutado o íntimo concebido como um dualismo da maldade intrínseca do corpo, em contraste com a bondade do espírito. A ironia e o sarcasmo amargos de uma mente brilhante sendo refletidos em uma sala de espelhos convexos, côncavos, disformes, díspares, em meio às torres espiraladas de fumaça de suas dessacralizações lançadas às faces de todos e do Todo. A descoberta de que a vida humana, tão soberbamente erguida sobre pilares de (falso) alabastro, tem suas bases desestruturadas, pendentes e em ruínas.
 O palco está montado Bem e o Mal encontram face a face, como se resumissem tudo de ambivalente no Universo… Não, a pluralidade veste seus disfarces: o símbolo do teatro, as máscaras da tragédia e da comédia são um parâmetro para o vislumbre claro da ambiguidade perversa sob o lacre da educação imposta por uma sociedade que se julga detentora do saber e, utilizando as palavras do próprio Wilde, sabe tudo, exceto o que vale a pena saber.
Enfim, o palco já se encontra iluminado: o mais grandioso espetáculo: a Vida. E que é a Arte, senão o que a Vida tenta ser e não consegue? Um amálgama de dualismos aparentes, que se entrecruzam, formando uma teia confusa e negra, encerrados nos frascos da mentira e da verdade, prontos para serem escolhidos na vã tentativa alquímica de moldar uma Existência…
Vire a Página: você pode fazê-lo… ou não. A escolha é sua e tudo, sempre, se parar para analisar por uma fração de segundos, nesta vida, está ligado a escolhas…
Descerrando-se a cortina deste palco solitário, tem início o desenrolar de uma trama. A confraria forma-se, por manobras do senhor Destino, sendo virada mais uma página do grande livro que tem acorrentado aos braços. Basil Hallward, Lord Henry Wotton, Dorian Gray, três vidas, três mundos diferentes que se cruzam.
Normalmente, o dualismo, seja em religião ou em filosofia mística ou cósmica, é teórico e aparente; na verdade sempre há algo, um terceiro termo que fica em oposição à anulação dos dois termos antagônicos, obrigando estas duas forças, estes dois princípios a desdobrarem-se, atuando alternativa e não simultaneamente.
Oscar Wilde celebra, magistralmente, em seu Retrato de Dorian Gray, a verdade por trás do belo manto, verdade esta que só existe por si a partir do momento em que se torna uma não-verdade, visto que nada é puro, em absoluto.

Oscar Wilde, 1882. LEHTIKUVA / EVERETT COLLECTION / Jerry Tavin
Como em um forte veneno, que mata e corrói, pode-se encontrar seu anti-veneno, o jovem Dorian Gray tem, em seu próprio nome a síntese-antitética (e, aparentemente, mas a aparência oculta muita coisa… paradoxal) do dualismo aparentemente visível: Evocações de dourado, ouro, sol, luz; e cinza, prateado, lua, receptora de luz… A máscara acaba por cair… Nomes têm poder. É a primeira lei da Magia. Não revelar o nome, já que isso facilita um spell a ser usado contra a pessoa. Basil, de início, não quer revelar o nome do jovem Adônis, alegando um motivo que, é possível, julgasse verdadeiro… A descoberta é a primeira página dos escritos na vida de Dorian… Ele tem sua trilha traçada a partir deste momento, não se pode recuar… Não há mais como fugir. A escolha já está feita.
Servindo-se de uma belíssima metáfora bem poética, temos em nossos corações, uma pomba negra e outra, branca como a mais pura neve. Uma mente e a outra diz somente a verdade. Uma é boa, outra é má. Enquanto uma delas dorme, a outra age. Como saber se ela estará mesmo dizendo a mais pura e sincera verdade? Não haverá uma terceira pomba, rubra como o sangue, a qual reúne as duas essências em seu corpo, coração e sua alma?… Aquela que reside no campo gray de ação, emoção e reação? … Inicia-se o ato fatal desta tragédia, um pesadelo exótico e grandioso, no qual a razão não é a única imperatriz. Dentes como de lupinos rasgam a carne pura e inocente… O Abraço é doloroso, mas pedido, por vez, implorado, suplicado… e é doce como o néctar mais puro… A vítima em quase torpor cede aos prazeres de uma existência de beleza e juventude eterna… Como um progênito, Dorian Gray, vítima/cúmplice de Lord Henry… As reações primeiras são de repulsa, assombro e terror. As palavras, verdadeiras como soam e cruas como a carne que sangra, jorram…
Já foi dito, repetido e ecoa até hoje na mente de quem conhece o assunto que os vampiros vivem no limite da loucura. Por quê? Vejamos… Não é necessário ter presas longas, ter a necessidade de drenar todo o sangue d’um corpo deliciosamente quente entre teus braços para que te encaixes no perfil do vampiro…
O personagem central da obra de que estamos falando, Dorian Gray, torna-se amaldiçoado, terá de lutar contra a Besta interna que buscará por sobrepujar toda a parte humana que ainda lhe resta… 




Cedo ou tarde, com ou sem muita luta, a Besta há de se regozijar, sabendo lá no fundo que há de ganhar este duelo, repetindo a cada milésimo de segundo, para si mesma, mesmo que em silêncio, tu hás de ser meu!

Wilde extrai, deste corpo literário, já exangue, o máximo de drama desta tragédia lírica… Dorian é um personagem arquetípico do mal trágico, ou, como Macbeth, do herói trágico. Metade fera, enquanto a outra metade, quase humana começa a perder seus já poucos índices de humanidade… A estrada do vampiro… escória, dor, corrupção de uma alma. Descida aos infernos da loucura e bestialidade, tendo a insanidade como sua gêmea, Até ser completamente dominado por seu demônio, besta ou real Eu interno.

As profundezas de nossas almas renascem com os segredos conquistados. A alma deste jovem amaldiçoado, por opção própria, irremediavelmente perdido, não poderá jamais encontrar sossego, com seu segredo pesando-lhe como uma mortalha de chumbo sobre seu coração. Um anseio feito carne, uma essência culpa-desejo, a incorporação do prazer feito gente…. O hedonismo levado a extremos, o prazer consumindo aquele que o desejava consumir. Novo brinde à escolhas erradas humanas… Por que não brindar aos erros como se brinda aos acertos? Não é a vida sempre um paralelo de dualismos entrecruzando-se? Um brinde… sorvendo de minha taça, faço a seguinte pergunta ao leitor que, se chegou até aqui, tem no mínimo uma centelha de curiosidade:




Não se deve olhar a própria alma no espelho existencial que há em algum lugar obscuro no templo sagrado de nossos corpos, a menos que se tenha plena certeza de domínio do lado lobo… mas quem é completamente são?

Em teoria, caso se acredite neles, os Anjos são completamente sãos, obedientes… mas estes são supra-humanos, os vampiros, crianças da noite, são um reflexo de nossas imperfeições, aquelas que nos esforçamos diligentemente por oprimir, ao menos na maior parte do tempo… até que a fera reage e ruge com toda a força adquirida com o próprio aumentar de nossas raivas, ódios, antes profundamente arraigados na parte escura de nossas vidas, agora ousando buscar a luz… como o vampiro busca ardentemente o sangue… N’uma sala de espelhos nos encontramos. O que fazer? Minha voz interna diz, entre dentes: Quebro com um machado os vidros, que logo se estilhaçam. Uma voz calma, também interna… não consigo localizar de onde vem… replica: Doce criança, cada pedaço destes espelhos é uma parte sua que não pode ser ignorada, a qual esta contra você, afiada… E a Besta regozija-se uma vez mais e sempre mais e mais com cada passo que sua criança dá… em falso.

Não há mais lugar seguro. Leitor, você se pergunta… É de mim que ela está falando ou do Dorian Gray do livro? Identifique-se ou não… É descoberto o inimigo e este somos nós.
Não há mais para onde fugir pois não há como fugir de si.



Desejo, Sonho, Delírio, Desespero, Destino, Destruição, Morte. Trajetória de Dorian Gray, o que um dia foi a luz, volta às cinzas… Como o anjo que cai, no início dos tempos – Lúcifer, o Portador da Luz, Estrela da Manhã… Ao menos assim rezam as lendas… Engraçado como sempre me deparo com incursões do Cristianismo na linguística… O Retrato era o espelho maculado com a visão de uma alma torpe, vil, mesquinha, medíocre, sem luz. Rasgar o quadro, destruir o receptáculo de todos os vícios… Em analogia com a cinematograficamente famosa estaca cravada no coração impuro do vampiro?… A possibilidade de redenção parece inexistente, pois ele mesmo o faz, não uma amada, como vemos no belíssimo final de Drácula, de Bram Stoker.
O Manto da Realidade é por fim descoberto… Os Sonhos abrem espaço para o Real, aquele que oprime, reprime, deleitando-se com aquela Dor…
O Amor…? Os de alma e coração corrompidos desconhecem tal palavra, apenas o prazer lhes falava a mesma língua… Dorian é o retrato exacerbado de um hedonista. Sibil  não era digna de lhe ser uma igual… Fazia parte de uma das coisas que ele mais amava, a Arte, especialmente a Tragédia, reflexo do Romantismo que sua própria Situação como um todo, piedade provoca aos mais sensíveis… ou não. Afinal, o dualismo sempre existiu e sempre há de resistir. Até o fim. Embora dentre as malhas que os humanos determinam como dual, existam fios tão tênues, onde as diferenças entre sanidade e loucura se perdem, reduzidas a um fio mais interessante, com uma cor mais bela, a do terceiro elemento… E não pára por aí… E as Parcas, Nornes, enfim as Deusas do Destino estão lá, fiando e desfiando esta malha da vida, tão mais complexa que preto e branco, ainda mais analisando o espectro de cores existentes… tão imenso, variável e deliciosamente CHEIO DE ESCOLHAS.



CITAÇÕES:
Eu resolvi deixar as citações para o final, como fiz com a resenha de “Clube da Luta”, só para não quebrar o discurso da resenha. Esse livro é tão bom, é meu predileto do Wilde, que gostaria de citá-lo inteiro. Ah, além disso, os nomes ficaram como no original, nada de Basílio, como em alguma edições antigas. Mas já quase fiz uma monografia aqui, então, vou pegar leve, rs.
Essa nova edição da Penguin Companhia tem os diálogos em aspas ― algo que eu, particularmente, adoro ― e uma nova tradução. Amei! <3
Vamos às citações?
Aqueles que encontram significados belos em coisas belas são os cultos. Para estes há esperança. 
A aversão do século XIX pelo Romantismo é a fúria de Caliban ao ver o próprio reflexo no espelho. 
Toda arte é ao mesmo tempo superfície e símbolo.
Aqueles que vão além da superfície assumem um risco ao fazê-lo.
Aqueles que leem o símbolo assumem um risco ao fazê-lo. 
A única desculpa para podermos fazer alguma coisa inútil é podermos admirá-la intensamente. 
—– Do prefácio, por Oscar Wilde, 1891.

Consciência e covardia são na verdade a mesma coisa, Basil. Consciência é a marca comercial da empresa. Simplesmente. – Lord Henry 
Acho que você está errado, Basil, mas não vou insistir na discussão. Somente os intelectualmente perdidos discutem. – Lord Henry
 A única maneira de nos livrarmos de uma tentação é ceder a ela. Resista e a alma adoecerá de saudades de coisas que ela se proibiu, pelo desejo que suas leis monstruosas tornaram monstruoso e ilegal. – Lord Henry 
Sim, Harry, acho que é verdade. Não posso deixar de lhe contar as coisas. Você exerce uma influência sobre mim. Se cometesse um crime um dia, eu o confessaria a você. E seria compreendido. – Basil 
É o rosto da minha alma. – D. Gray
Cristo! Que coisa eu fui venerar. Ele tem os olhos de um demônio. – Basil
Cada um tem si o Céu e o Inferno, Basil. 
É absolutamente monstruoso o modo como as pessoas hoje em dia dizem pelas costas coisas que são absoluta e inteiramente verdadeiras. – Lord Henry 


Nota: 5 copos de absinto, bebida em voga na época ;)

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