Pular para o conteúdo principal

Game on! Minha experiência como mulher em jogos online



Eis que temos nossa nova cadete, Catherine Meira, aqui novamente, dessa vez, falando de games e, por experiência própria, como é ser mulher nesse mundo gamer...

Nesse post, gostaria de falar um pouco sobre minha experiência pessoal com o cenário de jogos digitais atual. 

Começou há aproximadamente três anos, quando comecei a jogar League of Legends. Eu sempre joguei em consoles com meu irmão, com meu tio e com meus amigos, e sempre disputamos igualmente as partidas, brigando para ver quem era o melhor e praticando dia e noite enquanto o outro não podia jogar para mostrar o desempenho e avanço. Claro, dentro de casa sempre foi muito comum jogar assim. Havia algumas brigas porque não é sempre que sabemos perder, um pouco de falta de maturidade, mas nada tão depreciativo ou triste como vi online.

Eu me apaixonei pelo LoL logo na primeira partida, indo reto, morrendo paraa  torre e não sabendo porque morri, jogando sem mouse, apenas com o trackpad do note, parava de andar, apertava q, parava de andar de novo, usava o w pra dar slow com minha Ashe. Logo fiz amigos, perdíamos para os bots e nos divertíamos demais! Foi meu primeiro MOBA e o jogo é incrível, não é a toa que continuei jogando todos os dias e ainda jogo. Foi um começo muito divertido, aprendendo coisas básicas e rindo até quando perdia, sem seguir meta, jogando com o que queria, indo duo adc na botlane e começando o jogo sem comprar itens, porque não sabíamos que dava para comprar em partes em vez de item inteiro.

Infelizmente, essa adaptação amigável não durou muito tempo. Logo, uma das meninas que jogava super bem de Volibear conheceu um cara que jogava ranked e era ouro. Esse cara gostou de mim e quis me ensinar a jogar, "pega suporte, é legal pra aprender". Não posso negar isso. Até hoje jogo de suporte e é minha role favorita! Mas não demorou muito pra descobrir por que o grande "amigo" indicou essa role.

Sempre amei jogar de atirador, então achei muito estranho o cara tirar minha Ashe e querer que eu começasse a jogar de Janna, mas ok, realmente queria aprender a jogar o suficiente para ter elo, mas não demorou muito até as primeiras decepções. Mesmo sendo todos iniciantes, recebia muitas ofensas, pessoas reclamando que não curei, que não ultei (eu nem sabia o que era 'ult'), que devia ser mulher, porque além de jogar com algo fácil, ainda fazia merda. Esse mesmo amigo, que jogava de atirador, começou a colocar a culpa em mim quando perdia, pedindo para eu acompanhá-lo em jogadas que não faziam sentido e nas quais os dois morriam. Não demorou muito para eu começar a me sentir mal durante os jogos. Eu sentia que não fazia nada certo, que todos perdiam por minha causa, que seria melhor eu não jogar, mas logo me pediram para jogar ranked em time e o terror só se intensificou! Na minha primeira ranked, eu nem falei, morri de medo de me ofenderem na call ou de perder o jogo sozinha! Meu primeiro elo do lol foi prata, e foi um prata bem deprimente por toda a pressão pra jogar!

Com o tempo, acabei conhecendo pessoas que não ligavam para isso de ter mulher em jogo. As piadinhas de "mina é suporte" continuavam, mas eu já estava tão calejada de antes que continuou sendo piada para mim, sem nada de mais. Aprendi a jogar melhor com amigos, em partidas personalizadas e com muitas risadas. Atirador foi uma role que passou de amor a desprezo para mim, de tanto que me culpavam por perder lane. Gostava de jogar bot com amigos por estar perto deles, mas até hoje me sinto culpada quando perdemos! Por incrível que pareça, jogar com namorados ainda era muito pior e a culpa continuava sendo minha. 

Hoje, no platina, jogo em quase todas as lanes e posso dizer que, dependendo dos humores, até em partidas nas quais estou muito à frente do time, já recebi mensagens como "e a pia, tá limpa?", "tá jogando na lane mais fácil e ainda me deixa morrer, mulher é foda", quando algum outro player pedia report para essas pessoas, ainda recebia um "tá querendo comer a mina, né? bando de escravo esses caras defendendo essas mina nojenta in game". 


Boa parte desse tratamento é visto facilmente! Várias streamers recebem comentários de rage ou são sexualizadas enquanto estão apenas jogando com os viewers. Não é difícil ver comentários como "faz sucesso porque é gostosa", "essa mina não joga nada, aposto que um cara colocou ela nesse elo", "te amo, você é super gostosa, continue as streams" (sim, até os comentários 'simpáticos' são carregados de assédio). A campanha "My game, My name" traz depoimentos de streamers que jogaram com nick feminino para realmente confirmar o que acontece e os relatos e  os prints são bem tristes. Não precisa de muito, jogue alguns jogos com nick feminino e veja você mesmo como é! Por mais que a conscientização seja maior, que as mulheres ganhem mais espaço e que o assédio seja menor na teoria, ainda vemos um cenário muito limitado, no qual as mulheres precisam lidar com uma sobrecarga mental enorme como proplayers, tanto pelo assédio quanto pela responsabilidade de ser mulher e representar várias jogadoras em um cenário que não as acolhe como devia. 

Muito disso é tido como exagero. Dizem que é igual para os dois lados, mas, dia após dia, continuo sendo adicionada por caras que querem jogar junto só por eu ser mulher, que em 5 min pedem whatsapp, instagram ou facebook em vez de simplesmente jogar, que checam minhas maestrias e até runas antes de começar alguma partida, que me elogiam ou me depreciam, dependendo de suas intenções, que cobram atenção pessoal em vez de apenas jogar, como fariam com qualquer outra pessoa!



Espero do fundo do coração que as mulheres falem mais sobre o que acontece, apenas mostrando como é o dia-a-dia em jogos online. Os jogos são incríveis e sempre nos ensinam muita coisa, e vários deles têm adequado recompensas in game para diminuir a toxicidade da comunidade, os rages, as ofensas e os assédios. Mesmo assim, ainda precisamos nos impor muito, deixar os nicks masculinos e apenas jogar, até que isso seja comum o suficiente para quem ainda vê diferença de capacidade em gêneros.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Midsommar - O mal não espera a noite tem um quê de dèjá vu com pontas de originalidade, mas peca por ser longo

Com influências de Corra!, da série Hannibal (principalmente perto do final do longa), com um quê de clima de Anticristo, sem deixar de lado A chave mestra, Colheita Maldita (filme inspirado na obra homônima de Stephen King), O homem de palha, e, como me disse a Ana, que é megafã de Supernatural, inclusive um episódio da série que sacrificava “estrangeiros”  em prol do “bem” da cidade de Burkitsville, no décimo-primeiro episódio da primeira temporada da série, tudo isso também é bem sentido em Midsommar – O mal não espera a noite. Com todas essas referências, senão inspirações, dá para imaginar o desconforto que o filme passa.


Com 147 minutos (171 na versão do diretor), ser longo é um problema no filme. As partes boas são realmente boas e chocantes, o culto e o que parece haver de muito sinistro por trás deles é bem estabelecido, mas os personagens, especialmente os secundários, não são muito aprofundados e, quando começam a “desaparecer”, a tendência é que o telespectador não ligue m…

La Boya, um filme de Fernando Spiner

Maria do Caritó, do tablado para o cinema, diverte ao mesmo tempo em que faz críticas muito necessárias

No dicionário popular, Caritó é a pequena prateleira no alto da parede, ou nicho nas casas de taipa, onde as mulheres escondem fora do alcance das crianças, o carretel de linha, o pente, o pedaço de fumo, o cachimbo. Vitalina, conforme a popularizou a cantiga, é a solteirona, a moça-velha que se enfeita - bota pó e tira pó -, mas não encontra marido. E assim, a vitalina que ficou no caritó é como quem diz que ficou na prateleira, sem uso, esquecida, guardada intacta.
No gênero comédia romântica e baseado na peça teatral homônima, Maria do Caritó, escrita por Newton Moreno e ambientado no nordeste, e gravado na cidade de Peacatuba, em Minas Gerais, onde a fotografia remete às pequenas cidades do interior, trazendo a poesia e o azul como motes no começo do  longa.



Nessa máxima que segue o enredo de Maria de Caritó, longa protagonizado por Lilian Cabral (Maria), a moça que chega aos seus 50 anos  e ainda virgem, vítima da promessa que seu pai diz ter feito ao santo desconhecido quando ela …