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#originalNetflix - Boneca russa - Descascando as camadas da Matrioska - ou seria da psiquê humana?





Eu, como muitas pessoas pelo que andei lendo, adoro uma história com a vibe de Groundhog Day. Amo aquele episódio de Supernatural em que o dia se repete e o Dean morre de várias maneiras absurdas até tudo ser "resolvido". Adorei A morte te dá parabéns (e ainda tenho que ver o segundo filme, pois estou bem curiosa em relação às mudanças, ainda mais agora que foi anunciado que será uma trilogia). Gostei bastante de Antes que eu vá, e, adorei o twist no final. Sim, não tem muito como fugir dos clichês, certo? Mas dá para variar um pouquinho, e, se for bem feito, é diversão garantida. 

E esse é bem o caso da série original da Netflix, Boneca Russa. No começo me perguntei como eles manteriam esse lance de reviver o dia da morte por vários episódios, cerca de quatro horas, e se não seria cansativo, ou até memo, chato. Tendo revisto recentemente A morte te dá parabéns, para me preparar para ver  segundo filme, revisto inúmeras vezes o 11o episódio da terceira temporada de Supernatural, Mystery Spot, e ainda também recentemente tendo visto Antes que eu vá, posso dizer que a expectativa para Boneca Russa estava bem alta, e já adianto que a série não me decepcionou nem um pouco.


Mas por que Boneca Russa?

Vocês conhecem a história da origem das bonecas russas mais famosas, chamadas de Matrioskas? 

Sua origem é meio incerta, talvez sejam inspiradas nas bonecas japonesas  mas reza a lenda que um carpinteiro russo muito habilidoso, chamado Sergei, tinha o hábito de sair pela floresta com o intuito de recolher madeira para trabalhar. Em um inverno rigoroso, todavia, restou-lhe apenas um tronco de madeira. 
Depois de muito pensar, ele teria decidido fazer uma boneca – a Matrioska. Teria gostado tanto dela que optou por não a vender. 
A figura teria ganhado vida e manifestado tristeza por estar sozinha. Para demonstrar que as coisas boas exigem sacrifício, ele “machucou” sua criação, retirando-lhe a parte central da madeira para moldar outra boneca (a Trioska), repetindo o processo em seguida (criando a Oska). 

A última das bonecas teria sido Ka, que por ser homem, não poderia gerar filhos. Restaria a Sergei colocar Ka dentro de Oska, que teria sido colocada dentro da Trioska, que foi para o interior de Matrioska.

É curioso que a menor delas seja a única que não é "oca", que não pode dar vida a outra boneca, e é justamente o homem. Das femininas, nascem outras, de Ka, o último, não. Essas bonecas representam maternidade, sacrifício, entre outras coisas, e são bem importantes para a cultura nacional russa. 

É incrível como essas bonequinhas podem ter origens meio (ou muito) mórbidas. Clique aqui para saber mais sobre a Matrioska e outras bonecas, como as japonesas Kokeshi, que simbolizam as almas das crianças falecida de mortes prematuras, ou antes de completar seus doze anos de idade. 

Mas o que exatamente a tal da Matrioska tem a ver com a série? Bem, a começar pelo cartaz, em que vemos Nadia representada como uma Matrioska. E, ah, uma das grandes diferenças de muitos das histórias à la Groundhog Day (Feitiço do Tempo, inclusive citado no final de A morte te dá parabéns), é que acabamos vendo que há um homem também preso nesse loop, e não apenas Nadia. 

Ok, desdobra-se a história de Nadia e vemos que ela realmente não é uma pessoa nada legal. Ela poderia fazer par para aqueles que foram parar lá no inferno em The Good Place (que, por sinal, também “brinca” com loops de uma forma meio diferentona). 

Se, por um lado, não dá muito (ou nada) para simpatizar com Nadia, a curiosidade mesclada com um bom entretenimento acaba nos levando a avançar os episódios, e ela até comete uns atos bons, afinal, não é o clichê mor de todas essas histórias de loops temporais o lance de se tornar uma pessoa melhor? Mas não se trata só disso. 


E vamos vendo não só o desdobramento das camadas de Nadia (que continua não adorável) como acabamos também conhecendo Alan, o qual também poderia ser bem-vindo lá no inferno de The Good Place. Não são pessoas totalmente odiosas, mas é claro que os dois não são totalmente gente boa. Assim como muitos dos amigos deles e das pessoas que os cercam. E então acabamos ainda mais instigados para saber  que liga as mortes em loop destes dois seres humanos tão diferentes, e tudo vai se encaixando como uma boneca russa dentro da outra, ao mesmo tempo em que acena para alguns dos citados filmes - A morte te dá parabéns, pelo aniversário de Nadia, O feitiço do tempo, por motivos óbvios, entre outros, claro. Mas também temos um outro elemento interessante: Nadia é uma codificadora de jogos que nunca os jogou! {Temos um momento bem interessante em que ela, de fato, joga um difícil jogo que ela ajudou a criar.}

Supernatural S06E17
Como em um videogame, eles continuam morrendo, às vezes da mesma forma, como na escada, repetidas vezes, para Nadia, embora muitas das mortes sejam mais criativas, à la a série de filmes Premonição, ou, para citar Supernatural novamente, aquele episódio que também faz uma referência a Premonição, sim, aquele em que desafundaram e afundaram o Titanic novamente  - e precisam não somente entender como reverter esse processo de loop temporal, como entender por que isso está acontecendo com ambos. E assim vemos  o quanto ambos têm em comum apesar de tão diferentes. Que, apesar de tudo, eles não são tão odiosos, são apenas humanos. 


Nesse link, o Mix de Séries fez mais algumas reflexões sobre a série e especialmente o final, então eu só aconselho a ler depois que terminar de maratonar a série. Sim, porque eu duvido que você consiga parar até chegar ao final - não sem antes a comédia ceder um pouco de lugar para uns momentos bem darks à la Twin Peaks. Boneca russa surpreende, parece bobo até em seu realismo fantástico, mas acaba explorando muitos aspectos da psiquê humana em 7 episódios, a ponto de enrolar tudo bonitinho para presente no final, de uma forma satisfatória e nem um pouco frustrante. 

É aquele igual que é diferente, é aquela comédia que brinca com questões sérias, como muitas vezes nós mesmos fazemos até para que aguentemos seguir em frente com nossas vidas. 


Apesar de obviamente ser irritante ouvir a mesma música toda hora (especialmente a do aniversário, cuja letra parece realmente de um despertador, socorrooo!), as músicas que não se repetem de forma irritante são ótimas, e então a série tem esse ponto a mais: uma ótima trilha sonora que embala, com também ótimas atuações, momentos macabros, engraçadamente macabros, sinistros, engraçados, enfim, diversos, como em uma longa sessão de terapia da qual os pacientes saem, se não consertados, pelo menos mais em paz com eles mesmos e com o mundo. 


Ah, claro, e dá para brincar de se aprofundar na relação metafórica ou por analogia da matrioska com os personagens, mas essa parte eu deixo para vocês fazerem, durante ou depois de sua maratona. Obviamente tudo também pode ser explicado de forma simplista, como uma terrível bad trip, mas não vamos sair pela tangente e pegar esse caminho fácil e simplista demais, quando as divagações e a viagem metafísica da série são um caminho bem mais interessante a seguir, certo? 


Em inglês, o co-criador fala sobre o personagem de Horse e outras coisas bacanas, como pode ser visto aqui [e... eu sabia, eu sabia, eu sabia!!! <3]

Se quiser, leia também essa matéria sobre 3 teorias científicas que podem explicar a trama da série, mas, como avisei, esses são links sombrios e cheios de spoilers, por isso, antes de navegar em suas águas negras e turbulentas, assistam à série primeiro. O aviso aos navegantes foi dado! 

Nota: Um conjuntinho de 5 matrioskas!

Trailer:


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