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Varda por Agnès: Uma despedida afetuosa



No dia 9 de maio, chegou às telas brasileiras o último trabalho de Agnès Varda, artista múltipla precursora da Nouvelle Vague francesa, fotógrafa, cineasta que sempre teve pessoas comuns no centro de seus documentários e também nas obras ficcionais, ícone feminista. Depois de já ter analisado sua carreira em “As praias de Agnès” e “Visages, Villages”, ela retorna para explicar em detalhes como funciona seu processo criativo.

Nas palavras da própria realizadora, o desenvolvimento de seu trabalho tem três etapas: inspiração (o que move a artista), criação (a feitura em si) e compartilhar (a divisão de seu trabalho com o público). Didático, o novo documentário de Varda consiste em uma série de palestras gravadas, que acabaram sendo compiladas e transformadas em um filme lançado no cinema. Se o formato não é lá dos mais atraentes, o mesmo não se pode dizer da apresentação de Agnès, encantadora e hipnotizante em sua fala.

Com trechos de vários de seus filmes sendo exibidos no telão, Varda vai tecendo comentários sobre a produção de cada um deles, falando sobre os períodos em que foram feitos, pontuando sua intenção, as mudanças que ocorriam ao longo do processo, sua relação com as pessoas retratadas, tudo com sua marca registrada: o afeto. Embora seja uma artista que adora experimentar e que utiliza bem as técnicas que propõe, o que sobressai em toda a sua obra, seja nos filmes, nas fotografias ou nas instalações, é o carinho que dedica aos seus projetos e, principalmente, às pessoas envolvidas.

“Varda por Agnès” é uma ótima porta de entrada para aqueles que não conhecem o trabalho da cineasta e um deleite para quem já teve algum contato com sua obra, uma chance de entender melhor as escolhas da artista, tudo com o despojamento que só uma personalidade tão cativante e acolhedora é capaz de oferecer. Mais do que recomendado.

Nota: 4 espelhos (4 de 5)



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