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Desencavei: Mutante… e com orgulho! Crítica do filme X-Men: Primeira Classe #homevideo

Logo mais estreia o canto do cisne dessa segunda fase da saga dos X-Men da Fox e, antes de postar aqui para vocês o que achei de X-Men - Fênix Negra, convido-os com a minha crítica (feita na época do lançamento do blu-ray lá fora ainda) do filme para relembrarmos o começo dessa segunda fase dos mutantes nas telonas ;)

Contém spoilers de X-Men Primeira Classe

Sim! Mutantes e com Orgulho! Nada mais certo… Quando fui assistir a X-Men: Primeira Classe (First Class – XMFC), fui ver o filme totalmente sem expectativas demais já que a trilogia original foi, infelizmente, não tão potente quanto poderia ter sido, eu não esperava que fosse um filme excelente. Claro que nem me dei ao trabalho de ver Wolverine: Origens.  Recusei-me a ver o filme porque… no meu mundo ideal, ele não existe.

X-Men: Primeira Classe conta com um elenco muito bem escolhido. O diretor é o mesmo de Kick-Ass (Matthew Vaughn). Talvez se eu tivesse ficado sabendo disso teria visto o filme logo no primeiro dia, risos.

Michael Fassbender está excelente como Magneto, assim como James McAvoy como o jovem Charles Xavier. Em algumas entrevistas, o diretor de XMFC disse que seu objetivo com esse filme não era somente fazer uma prequel, e sim de trazer à franquia uma espécie de “soft reboot”, como ele mesmo disse, meio similar à forma como foi feito em Star Trek 2009.


Antes que todo mundo comece a torcer os narizes, XMFC tem sim o que chamaram de “inconsistências” bem específicas em relação aos outros filmes da franquia, mas é justamente por tentar fazer um “soft reboot”. Para quem curtiu a cena dos nazistas e do Magneto do primeiro filme, um dos pontos altos e bem feitos da primeira trilogia, ela foi refeita com a criança que usaram para expandir o que havia acontecido naquela época, incluindo personagens, como o Sebastian Shaw, o vilão do filme.

Logo de cara, no começo do trailer oficial, nos é apresentada a moeda que é dada a Erik (Magneto) por Sebastian Shaw (Kevin Bacon). Ela tem uma trajetória única no filme. Uma moeda nazista ― prestem muita atenção na trajetória dela quando forem ver o filme ― que é praticamente uma personagem no filme, e com tanta importância do começo ao fim, a qual, inclusive, vira o logotipo de abertura de XMFC.



Creio que essa "mania" do Stan Lee de colocar personagens com aliterações nos nomes ficou ainda mais legal no caso de Shaw que tem SS no nome, e ele trabalha com pesquisa genética para os nazistas. Esse personagem pega emprestadas algumas das características de um cientista nazista que realmente existiu, Josef Mengele, que justamente trabalhava em experimentos de eugenia e torturava crianças. Era conhecido por atrair mais cobaias com doces. 
Ouça-me com bastante atenção, meu amigo: Matar não lhe trará paz. – Charles Xavier
Esse filme me conquistou. Ele carrega a essência dos X-Men e coloca o Magneto em seu devido lugar de destaque: o de um herói trágico, e não o de um vilão. [Leia aqui meu texto sobre vilões e heróis trágicos.] Pois é isso que Erik é… um anti-herói, que nada mais é do que um herói trágico. Somos levados, em um momento crucial no filme, a concordar com ele quando afirma que “Paz nunca foi uma opção”.
Paz nunca foi uma opção – Erik Lehnsherr

Já o conhecido Charles Xavier é idealista. Não há como negar isso. Porém, a Utopia de um mundo perfeito, ideal, sem preconceitos, é fadada a virar uma Distopia e, de certa forma, podemos dizer que a realidade alternativa de XMFC ficou excelente, ainda mais quando situa elementos da história da nossa realidade com a desse mundo em que Mutantes existem. O preconceito está lá também, que não só é uma referência aos mutantes, como é um paralelo com o nazismo, claro.

E quem melhor do que Erik, futuramente Magneto, para entender que a paz nunca seria uma opção, devido ao que viveu e presenciou na época da Segunda Guerra?

A “First Class” do filme refere-se não somente à “primeira classe” ou “primeira turma” de alunos do Professor Xavier como a “adaptação” do título no Brasil sintetizou. Refere-se também ao fato de que “first-class” é usado como adjetivo para designar uma coisa superior. E os Mutantes são, de fato, um passo acima no degrau da evolução humana ― embora sejam vistos pelos humanos como ameaça e/ou ridículos, pois, fazendo paralelo com os eventos do Nazismo, o ser humano, de modo geral, pelo menos, não sabe lidar com diferenças. F. Nietzsche tinha uma frase interessante que definia bem o preconceito dos mais fracos em face aos mais fortes (em The dawn of day):
Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar – F. Nietzsche
A jornada da Raven (Mystique) rouba a cena por completo. Sua situação é um pouco mais complicada que a dos outros, para aceitar o próprio corpo e ter alguém ao seu lado. Isso foi bem explorado no filme, como ela e Xavier acabaram se separando aos poucos, mesmo sendo grandes amigos.



Tirando o vilão Sebastian Shaw, os pontos focais na história são a amizade de Xavier e Erik e a transformação de Erik em Magneto. Emma Frost, também telepata, fica meio apagada no filme, ficou bem parecida com os quadrinhos, mas faltou alguma coisa. Quando fui pesquisar, descobri que haveria uma batalha mental entre Xavier e ela, mas essa cena não foi gravada, foram jogadas 12 páginas do roteiro, pois o filme Inception tinha feito bastante sucesso e tinha uma cena similar. Mesmo que eles tivessem escrito a cena antes, desistiram da idéia para não manchar o filme.

Erik e Charles não são apenas amigos. Como telepata, Charles também sente o que as pessoas sentem, sendo também um empata, como é mostrado em várias cenas, não se limitando a ler pensamentos… e é justamente por sentir o que as pessoas sentem que ele se envolve, em amizades profundas, com as pessoas e, no caso, com Magneto, assim como a própria Mystique, praticamente os únicos amigos dele.

Uma das palavras mais fortes entre Charles e Erik é justamente essa: amizade.

Mas, quando a amizade tem que ser escolhida em um prato onde a sobrevivência também está, as coisas ficam complicadas. E Magneto faz suas escolhas, todas com base nas suas experiências de vida. Ele é e sempre será um anti-herói ou herói trágico, e nunca um vilão. Pois, ao contrário de Shaw, não é por motivos egoístas e de dominação pura e simples que Erik se torna Magneto. Isso é um resultado de eventos que se desencadeiam em sua vida desde que ele era criança.

Para um filme com uma censura tão baixa, nada de sangue, as mortes foram extremamente bem elaboradas (a contagem de corpos também foi bem alta, rs), já que o que não é mostrado sugere tamanha intensidade que coloca a imaginação do espectador para funcionar ― e funciona muito bem nesse filme, como um todo. Além disso, a aparição do Wolverine (embora tenha sido muitíssimo breve) foi muito mais coerente com o personagem dos quadrinhos do que a trilogia original mostrou.

A falta de aceitação da Mystique e, aí sim, a tensão sexual entre ela e Xavier, ela e Hank McCoy e ela e Erik são muito bem elaboradas… o que gerou uma das frases mais belas do filme, em que ela comparada a uma criatura exótica.

Embora o filme seja, sob uma primeira análise, altamente voltado para a diversão pura e simples, não há como negar que seu conteúdo faz com que o público pense, reflita… sobre temas como amizade, guerra, ameaças, preconceitos… Ou seja, unir entretenimento puro e simples a mensagens filosóficas tende a não funcionar, infelizmente, muitas vezes, mas aqui foi mais um acerto de XMFC.

E, como se não bastassem todos esses pontos positivos, ainda temos todo aquele clima dos filmes da franquia James Bond dando um tom todo especial e misterioso a XMFC! No final, nos créditos, fãs de J. Bond deverão reconhecer a homage, assim como outras referências dentro do filme em si! Sem contar toda a atmosfera do requinte da época, penteados, roupas e música. As locações são repletas de detalhes pequenos que fazem a total diferença no conjunto, o que é muito, mas muito mais bem trabalhado do que os filmes da trilogia original, que pareciam mais sem graça. Nesse filme, a história real do nosso mundo é encaixada de um jeito melhor, e que lembra bastante a situação que beirava o holocausto nuclear de Watchmen, sem contar a envolvente trilha sonora que marca o passo e ajuda também a definir o estilo de cada personagem.


Em um dos momentos em que Erik vai atrás da realização de sua vingança, na cena do bar, com a trilha sonora perfeita, eu me senti vendo uma daquelas cenas típicas de um ótimo filme de Velho Oeste, com todas as sacadas típicas de uma cena de duelo/vingança nesses tipos de filme. Mais uma sacada genial da equipe de criação do filme.

Sei que muitos já sabem, mas não custa dizer de novo. Aquele caça que aparece no filme, assim como na trilogia original, foi inspirado em um caça real (imagem acima) que foi feito em 1966 chamado Blackbird SR-71. Foi feito pela empresa Lockheed Martin (Antiga Lockheed Corporation), mesma empresa que fez a linha F de caças para o governo americano, atualmente no modelo F-22. A Stark Industries, empresa do Tony Stark (Iron Man) tem um logotipo que é uma alusão ao da Lockheed. A versão do Blackbird dos X-Men, nos quadrinhos, tem algumas modificações do modelo real. O tamanho é muito maior, além disso, há várias poltronas, janelas extras e ele é capaz de fazer decolagens e aterrissagens verticais.

A conhecida Crise dos Mísseis de Cuba é o plano de fundo de boa parte da história.

Foram 13 dias de incerteza de um verdadeiro apocalipse nuclear. Estados Unidos e União Soviética trocavam ameaças enquanto combinavam um acordo às escondidas. Os Soviéticos concordaram em desativar as ogivas em Cuba e deixar que as Nações Unidas verificassem o fato e em troca, os Estados Unidos deveriam dizer abertamente que nunca invadiriam Cuba. Os Estados Unidos recusaram a parte deles, como símbolo de não-rendição e concordaram apenas em tirar os mísseis colocados na Turquia e na Europa. A parte interessante é justamente a inserção desses fatos na realidade alternativa do filme.

Ps.: Ainda bem que o canto do cisne de Wolverine em Logan foi simplesmente magnífico <3

Clique na imagem para ser levado ao site com as curiosidades do filme ;)

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