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Graças a Deus, um filme provocante, desconcertante e necessário sobre o abuso infantil na igreja


O novo filme de François Ozon (de “Jovem e Bela” e “O Amante Duplo”), Graças a Deus, que aborda o tema de pedofilia de dentro da igreja consegue se diferenciar de outras obras que tratam desse mesmo tema, usando um veio incômodo e revoltante, o que vem a calhar com o peso do tema.

Primeiramente, o diretor conduz bem a narrativa, dividindo o arco em três personagens, apresentando cada um deles ao longo dos três atos do filme, de forma construtiva e crescente, de acordo com o progresso do processo dos personagens, expondo o padre que os molestou em suas infâncias.

Enquanto o primeiro ato acompanha Alexandre (Melvil Poupaund) em sua denúncia para a igreja do caso em que foi abusado sexualmente pelo padre Preynat (Bernard Verley) quando criança, o segundo ato, que acompanha François (Denis Ménochet), que também sofreu nas mãos do mesmo padre, mostra como ele agiliza o processo que foi exposto na justiça por Alexandre, juntando provas e depoimentos de outras vítimas, ao passo que o terceiro ato acompanha Emmanuel (Swann Arlaud), que mesmo sendo o mais perturbado ao lembrar-se do ocorrido em sua infância, ajuda a trazer justiça a si e a outras vitimas, esperando que o culpado seja punido por seus atos abomináveis.

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O modo como o roteiro conduz a história é um pouco expositivo no primeiro ato, ao acompanhar Alexandre em seu processo de expor o padre Preynat, e junto com o que é mostrado em tela, há uma narrativa em off do personagem de cada passo seu, o que torna esse recurso desnecessário. Um dos méritos a se considerar é a forma de como o roteiro mostra as cenas de abuso em momentos de flashbacks, conduzindo as crianças em direção ao padre, mas nunca mostrando o ato em si, finalizando a cena com uma porta de uma sala sendo fechada com o padre e a criança dentro dela, e, mesmo não mostrando o abuso, a cena ainda causa desconforto no público, transmitindo também o medo e o desespero da vítima para quem assiste.

O desfecho é um pouco esticado, e, mesmo apresentando diálogos com temáticas interessantes e bem discutidas entre os personagens, a sequência final acaba sendo um pouco mais longa, perdendo a oportunidade de finalizar a história enquanto o ritmo ainda estava bem estabelecido.

O diretor ainda consegue provocar mais o público ao mostrar que a igreja tem conhecimento desses atos desumanos, e muitas vezes não fazem nada ou tentam convencer as vítimas a esquecer o ocorrido, além de defender os responsáveis, tudo para manter a "boa" reputação da igreja.



As atuações em geral são boas e condizentes com a proposta apresentada. Melvil Poupaund consegue passar a indignação de seu personagem e o medo que ele tem de que aconteça algo parecido com seus filhos,  já Denis Ménochet controla bem os sentimentos de raiva de François, nunca deixando pender para o caricato nem sendo expositivo demais; Bernard Verley, por outro lado interpreta o padre Preynat de forma retraída, sempre se tratando como vítima de sua doença repulsiva, mas que mesmo admitindo seus crimes, nunca passa a sensação de estar totalmente arrependido do que fez, causando total desprezo e repugnância no público. O grande destaque na atuação é do ator Swann Arlaud, que é apresentado como a vítima mais afetada pelos abusos que sofreu na infância, e a forma como o ator trabalha a reação de Emmanuel ao relembrar esse trauma, o que soa bem desconfortante no olhar do espectador, mostrando como o personagem sofreu com isso, e de como é doloroso pra ele relembrar essa época de sua vida.

Assim como “Spotlight” que aborda a mesma temática pela visão dos jornalistas, Graças a Deus consegue mostrar bem o mesmo tema pelos olhos das vitimas, mostrando um lado mais pesado e forte, que consegue transmitir os sentimentos dos personagens para o público com a ótima condução da direção.

NOTA: 8 depoimentos em busca de justiça.

Trailer:


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