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Brinquedo Assassino (2019): Isso é muito Black Mirror?



O remake (que está mais para um retelling, já que muda completamente a origem de Chucky) de Brinquedo Assassino foi uma das surpresas do ano até agora. E o que veio à mente de muitos, já que a reimaginação desse boneco “do mal” não tem nada de sobrenatural, mas sim tecnológico, foi Black Mirror. Tudo bem, eu sei que para uma “nova geração” (e aê me senti a velha, mas tudo bem…) Black Mirror é o que há de referência em termos de “a tecnologia está ferrando com tudo” e tal. Ok. Mas logo de cara, bem no comecinho do filme, quando o funcionário frustrado da fábrica desliga os inibidores de violência, de falar palavrão e coisas do gênero no boneco para se vigar do que fizeram com ele, na verdade, isso me remeteu imediatamente a Westworld. 


No entanto, esse retelling de Brinquedo Assassino bebe de fontes bem mais antigas e inclusive faz referências a algumas delas, como quando dizem que “toda história de revolta dos robôs começou assim”, como Exterminador do Futuro, por exemplo. Esse tipo de terror tecnológico também pode ser visto na smart house em Nós, de Jordan Peele, também esteve presente em Mr. Robot, que não é necessariamente de terror, mas que é totalmente envolta nos terrores das corporações do mal e da tecnologia, e mesmo essas obras se inspiraram em clássicas histórias imaginadas por visionários como Isaac Asimov, Arthur C. Clark e Philip K. Dick, para citar apenas alguns nomes.  

Para os que pensam além de Black Mirror, há que se associar os olhos vermelhos de Chucky com Hal, claro. Vários elementos que constroem o clima do filme acabam pendendo mais para o drama e, embora o filme não seja tão profundo assim, e, infelizmente, ainda se serve de alguns clichês bem péssimos, como a morte do gato da casa. Pra quê? Pleno 2019! Em 1979 (!!!) saiu o filme Alien: O oitavo passageiro, um filme de terror tão atual em tudo, inclusive sua diversidade e, hey! o gato não só sobrevive, como ele é muito importante para muitas cenas, e, se formos analisar bem, ele é o oitavo passageiro, e não o alien. ;)

Jonsie diz: "Parem de matar animais, especialmente felinos, em filmes de terror."

E é nesse drama em torno da solidão e da amizade virtual e até mesmo no vício na tecnologia que, se o filme não se aprofunda tanto, também não toca somente na superfície. E dá para ir mais longe e filosofar: se o boneco não tem inibições, é como se ele estivesse acima do bem e do mal, como diria Nietzche. E aí, como vemos na crítica no decorrer do filme, ele acaba sendo moldado pelo que as pessoas fazem e pelo que ele interpreta do que elas falam, além do que ele vê em filmes. E então podemos nos aprofundar na questão de o ser humano nascer como uma tabula rasa e ser moldado pela sociedade, e se o mesmo aconteceria com os robôs e as inteligências artificiais. Ex Machina lida justamente com a análise da “humanidade” de uma IA e o final é incrível… Westworld, como citei lá no começo também se aprofunda bem nessas questões.  Obviamente que todo aquele clima oitentista à la o revival mais citado da época e que inspirou o nome deste blog, Stranger Things, também está ali. e tudo bem, funciona, se encaixa... até lembrar que a ideia base para Stranger Things surgiu de um algoritmo que analisou a nós e, bem... acho que já sabem aonde quero chegar. 


Obviamente que Brinquedo Assassino não é nenhuma obra-prima, como várias das obras citadas acima, mas acaba sendo, a despeito de seus clichês, um filme que mexe mais com terrores psicológicos, como a solidão, a sensação de não-pertencimento, e a tragédia de ver o caos sendo instalado por erros de interpretação e uma cadeia de eventos trágicos. 

Ainda que filosófico, o filme é uma boa diversão. Essas questões estão lá e elas vão ficar na memória, pois o filme dialoga muito bem com nossa realidade. Mas vá ver sem preconceito. É um filme B até que classudo, e mesmo que o visual do boneco (e depois as variações dele, socorro!) seja horripilante em si, há bonecos e bonecas no mercado que não ficam atrás em termos de sinistro. Tipo aqueles bonecos que parecem bebês de verdade e outras coisas dignas de encher frames e mais frames de filmes de terror. O nível de gore é bem alto e por vezes bem criativo até, o que me fez lembrar de Rejeitados pelo diabo e Premonição.


Uma ótima pedida para quem quer se divertir ao mesmo tempo em que é morbidamente lembrado dos terrores psicológicos e sociais que foram imaginados por escritores de ficção científica e que eu creio que eles não gostariam de ver que se tornaram realidade. 

4 olhos vermelhos te aterrorizando no escuro

Estreia no Brasil: 22 de agosto

Trailer:

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