Era uma vez... em Hollywood: seria este apenas um conto de fadas sangrento com final "feliz"?



Era uma vez… em Hollywood, o nono filme de Quentin Tarantino, explora o “E se…?” de modo eficaz, trazendo um final alternativo para um momento terrível da história de Hollywood (e da Humanidade), com o assassinato de Sharon Tate, combinando suas típicas abordagens da influência da cultura pop com uma estética da violência em seu estilo único de narrativa. Quem já conhece bem os filmes de Tarantino notará as referências que ele faz a si mesmo, e pode entrar em uma brincadeira de caça a Easter Eggs. Aquele diretor ousado de Cães de Aluguel amadureceu, como era de se esperar, mas, diferentemente do amadurecimento que vemos em Dor e Glória, de Pedro Almodóvar, em Era uma vez… em Hollywood, o diretor americano brinca com as possibilidades do cinema que fala de si mesmo, usando não somente a metalinguagem, como optando por mostrar cenas bem cotidianas como Sharon tendo de colocar óculos para ver um filme que estrela, descalça no cinema, Cliff, o dublê “falido” de Rick Dalton, praticamente seu único amigo e faz-tudo, dirigindo para lá e para cá (aliás, os carros são praticamente personagens do filme também), abrindo latas de comida para seu cachorro, tudo isso sem glamour nenhum, mostrando o contraste da vida real com o que costumamos ver nas telas dos cinemas, que é obviamente editado. Sim, claro, também há a conversa do cinema com o cinema, com o Era uma vez no Oeste e tudo o mais.



Alguns momentos são sublimes, como aquela sequência em que Rick conversa com a atriz mirim no set de gravação, que é uma cena bem emocional, além do que, Leonardo Di Caprio está simplesmente fantástico como aquele ator decadente que acabará fazendo propagandas de cigarro… Quanto ao visual do filme, a paleta de cores é uma escolha perfeita, com aqueles tons de verão aumentando o ar nostálgico que é carregado no filme, junto com a fotografia ensolarada de Hollywood. O tom predominante é dourado, com variações de amarelo na paleta, que vão dos cenários às cores das roupas, a cor de um sol amigável, uma representação bonita, ainda que decadente, da cidade, das pessoas e da “indústria da fama”. O amarelo está sempre muito presente nas obras de Quentin, como em Kill Bill volumes I e II, filme sobre o qual já discorri aqui.



Embora não seja nem de longe o meu filme predileto de Tarantino, Era uma vez… em Hollywood tem seu charme, tem suas controvérsias, afinal, fazer uma versão conto de fadas sangrenta de um acontecimento tão dramático quanto o assassinato de Sharon, que estava grávida, talvez não seja exatamente algo em si de muito bom gosto, e já houve repercussões sobre a forma como ele retratou Bruce Lee.


Em uma época como a nossa, cheia de revivals e remakes e lances retrôs e homenagens a épocas anteriores, esse saudosismo que nos trouxe Stranger Things, It - A Coisa, Histórias Assustadoras para contar no escuro, entre outras obras, nos traz também esse novo filme de Tarantino, que, por trás da camada de exploração de uma versão alternativa da realidade, acaba sendo mais um exercício de como contar uma história praticamente sem muita história, deliciando-se em mostrar longos takes dos personagens fazendo coisas mundanas, sem se aprofundar em críticas sociais nem em análises muito profundas do ser humano, como se estivesse apenas dando pinceladas nas telas das possibilidades de análise por trás das imagens que apresenta para que o público fosse levado a fazer suas análises - ou não, pode ser simplesmente "apenas" um filme despretensioso, o que é improvável, se considerarmos a trajetória de carreira de Tarantino. 



Cinquenta anos depois da tragédia, não só de Sharon, como de todas as vítimas de Charles Manson (que, curiosamente, depois da edição e montagem, aparece uma única vez no filme, com o mesmo ator que interpreta Charles em Mindhunter, da Netflix), o filme de Tarantino não é o único lançado em 2019 que aborda o assassinato de Sharon Tate. Há um filme de terror(!!!) chamado The haunting of Sharon Tate que explora as possibilidades em torno da tragédia e que, pelo que li, só serviu para trazer mais dor aos familiares das vítimas. 

Como eu disse, não é nem de longe o meu filme predileto do diretor, e acaba não sendo um dos melhores filmes de 2019, mas foram boas quase três horas de entretenimento, e isso é um mérito em um filme longo, terminando com um final “feliz” precedido de cenas de violência cartunesca explícita (com uma montagem super bem feita), típicas das obras de Tarantino. 



Talvez Tarantino deixe para nós refletirmos sobre todas as circunstâncias sociopolíticas da época, talvez. Talvez ele não pretendesse mostrar nada além de recortes nas vidas daquelas pessoas em uma época conturbada? Não sei. Pelo menos, nesse conto de fadas Tarantinesco, a imagem de Sharon que fica em nossas memórias é bela, inocente, cativante, algo que Margot Robbie interpretou muito bem, o que creio que seja uma boa homenagem a uma vítima do que é até hoje considerado um dos assassinatos mais horríveis da história. Sendo assim, por quase três horas, é bom mergulhar nessa visão do diretor e ter um final feliz, em uma história de vingança cinematográfica à la o que o próprio Tarantino fez em Bastardos Inglórios e Django Livre. Esse é um dos “poderes” que vêm com a contação de histórias. 



Nota: 3 mortes cartunescas e uma lata de comida de cachorro com “sabor de rato” (sim, eu li isso na lata!) (4 de 5)

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