A Tabacaria, um dos últimos filmes com Bruno Ganz: para refletir sobre relações humanas e governos ditatoriais e fascistas



Meu primeiro contato com o trabalho do ator suíço Bruno Ganz, que infelizmente perdemos no dia 16 de fevereiro deste ano, foi com Asas do Desejo, de Wim Wenders, e fiquei apaixonada não somente pelo filme, que é um daqueles filmes da vida para vi, que já vi e revi e do qual nunca me canso e que nunca perde o encanto, em que ele é o Anjo Damiel. As palavras dele, de que me lembro, de um poema no início do filme, ainda ecoam em minha mente, com um quê de nostalgia, beleza e um marco na minha vida e na do ator também, que veio a interpretar, entre outros, o Papa, Hitler, em A Queda: As últimas horas de Hitler, os escritores Ezra Pound e Antoine de Saint-Exupéry, recentemente o personagem Verge, em A casa que Jack construiu, e, segundo o IMDB, temos/teremos ainda quatro filmes com ele, alguns em pós-produção. E, em A Tabacaria, do qual falarei aqui, ele é ninguém mais ninguém menos do que Sigmund Freud. 

Mas, antes disso, fiquem com a beleza de Damien (Bryno Ganz) lendo o poema que abre Asas do Desejo (Em inglês, Wings of Desire, em alemão, Der Himmel über Berlin - [O céu sobre Berlim], de 1987.


A A2 filmes vem trazendo belíssimos filmes europeus para nós nos cinemas (e também em DVD), e já falamos sobre vários aqui, mais recentemente da poesia cinematográfica que é A última loucura de Claire Darling. Também com muitos quês poéticos e oníricos, combinando bem com a fotografia e o roteiro e o próprio tema dos sonhos, A Tabacaria é baseada no romance bestseller internacional, infelizmente sem edição em português, The Tobacconist, de Robert Seethaler. É uma história singela e tocante e de partir o coração em vários momentos, sobre um jovem rapaz ingênuo e apaixonado e sua amizade com Sigmund Freud, durante a ocupação nazista de Viena. 

 

Não quero entrar no campo minado dos spoilers, mas quem é fã ou conhece um pouquinho que seja da série Six Feet Under (A sete plmos) vai provavelmente sacar a referência (que não sei se foi proposital ou não, afinal, já foi usada em outras obras também) em cenas específicas envolvendo o jovem Franz. 

Há sequências belíssimas de momentos de felicidade também, o que já citei quando falei sobre It - A Coisa, com ou sem desgraças, a vida continua e as pessoas (não todas) não sofrem o tempo todo. 

Mesmo com minha agenda corridíssima, não consegui ir á cabine de imprensa, mas fui à pré-estreia para prestigiar o ator, no papel de Sigmund Freud, e saí de lá não apenas com aquela mescla de quentura e dor no coração por saber que ele não está mais entre nós - talvez esteja como Damiel, nos observando pelo céu não só de Berlim como da Terra. Quem sabe... Mas a quentura no coração vem de ver o Bruno Ganz em mais uma atuação fantástica, com um Sigmund Freud e suas excentricidades, em um longa que aborda temas intimistas e ao mesmo tempo todo aquele fundo triste, lamentável e desumano da "chegada"  e dominação do nazismo, e também do Hitlerismo, termo que uso especificamente para me referir àquelas pessoas cegas, fanáticas ou más mesmo que o cultuavam como a um Deus. (Alguma semelhança, infelizmente, com nossa realidade do Brasil?)



Um filme "de época", de uma época bem sombria, com seus raios de sol e espirais de fumaça de tabaco que ainda pincelam com tintas fortes o filme, como a situação naquele momento histórico era ainda pior para as mulher. Terríveis. E alguns, senão vários, ainda dizem que não precisamos de feminismo. Aff! E também, mais uma bela obra que é um tapa na cara de quem defende tortura, ditadura e governos teocráticos. Lembrando que a Igreja Católica apoiava Hitler. Não precisamos de mais Hitlers. Precisamos de mais cultura, menos ignorância e mais discernimento. E A Tabacaria aborda isso tudo como plano de fundo (e de frente, e em vários momentos pesados também), e as relações humanas, pontuado por sequências bela e simbolicamente oníricas.

Nota: 5 charutos contrabandeados de Havana


Trailer:


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