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Maria do Caritó, do tablado para o cinema, diverte ao mesmo tempo em que faz críticas muito necessárias


No dicionário popular, Caritó é a pequena prateleira no alto da parede, ou nicho nas casas de taipa, onde as mulheres escondem fora do alcance das crianças, o carretel de linha, o pente, o pedaço de fumo, o cachimbo. Vitalina, conforme a popularizou a cantiga, é a solteirona, a moça-velha que se enfeita - bota pó e tira pó -, mas não encontra marido. E assim, a vitalina que ficou no caritó é como quem diz que ficou na prateleira, sem uso, esquecida, guardada intacta.

No gênero comédia romântica e baseado na peça teatral homônima, Maria do Caritó, escrita por Newton Moreno e ambientado no nordeste, e gravado na cidade de Peacatuba, em Minas Gerais, onde a fotografia remete às pequenas cidades do interior, trazendo a poesia e o azul como motes no começo do  longa.




Nessa máxima que segue o enredo de Maria de Caritó, longa protagonizado por Lilian Cabral (Maria), a moça que chega aos seus 50 anos  e ainda virgem, vítima da promessa que seu pai diz ter feito ao santo desconhecido quando ela nasceu... em que ela deveria ser dada em casamento ao dito santo ainda intocada, e, agora no auge de seus sintomas da menopausa, Maria ainda nutre o sonho de encontrar o amor de sua vida.



Com sua amiga fininha (Kelzy Ercad), se dedica às crendices casadoiras de Santo Antonio em busca de um candidato que a livre deste destino, mostrando  a cumplicidade das amigas em busca da realização do tão sonhado amor.
Uma cidade envolta na política latifundiária nordestina, onde o coronelismo interpretado por Leopoldo Pacheco, manda no povo e se alia à igreja no intuito de angariar poder sobre a população inocente, influenciados pelas crendices de uma religião fervorosa com base na fé na santa Maria do Caritó.

Em meio às idas e vindas na busca do amor, Maria chega a se consultar com uma  cigana que afirma que o grande amor chegará numa caravana, o que ocorre quando da chegada de um circo na cidade e leva Maria a se apaixonar pelo russo/ator circense (Gustavo Vaz).



Suaves referências às antigas trupes circenses e uma bela lembrança do palhaço Arrelia, além de uma pincelada de Chaplin (na dança da dona do circo) trazem lirismo e poesia ao filme.

De acordo com o diretor Joao Jabur, em Caritó temos a personificação da fé e sua comercialização, aproveitando-se da ingenuidade do povo, o que traz a indignação de Maria ao se ver usada como joguete nas mãos de seu pai, do coronel e do clero.



O texto, mesmo com toda essa indumentária discorre suave, poético e com musicalidade perceptível no cuidado com a trilha sonora. Um filme que aborda com poesia a crítica e menciona essas referências com suavidade, mesmo tocando em assuntos como o envelhecer da mulher e o ensaio da solidão em contrapartida com a busca da liberdade e empoderamento através da evolução da autoestima descoberta por Maria.

Na linha de filmes como Lisbela e O Prisioneiro, tem tudo para virar uma série.

Minha nota 4 orações a Santo Antônio [4/5]
 
Trailer:
 
 




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