Pular para o conteúdo principal

Segredos Oficiais, um lembrete de que, enquanto houver pessoas com vontade de se fazer justiça, ela existirá


Determinados filmes ganham destaque graças ao tema e/ou à história abordados e a relevância que têm para a época em que são lançados, e Segredos Oficiais certamente será um desses filmes. Aqui, conhecemos de perto a história de Katharine Gun (Keira Knightley), uma tradutora do Government Communications Headquarters (GCHQ, agência da inteligência britânica responsável por vigiar os meios de comunicação), que se sente confrontada com seus valores pessoais após obter acesso a memorandos secretos, descobre que houve uma grande pressão por parte dos EUA para que seis países ligados ao conselho de segurança da ONU votassem a favor da invasão no Iraque em 2003. 

Um dos primeiros questionamentos que o filme nos provoca é justamente sobre o que é um ato heroico nos dias atuais, visto que aqui, Katharine Gun (nossa protagonista) tentou impedir a guerra do Iraque ao divulgar um e-mail que provava que os EUA e o Reino Unido pressionaram diferentes nações para que votassem a favor da invasão no Iraque puramente por interesses políticos e econômicos.



A respeito das atuações, Keira Knightley aqui desempenha uma das melhores atuações de sua carreira, ela carrega toda a tensão e dramaticidade que o filme pede, em uma das cenas mais marcantes por exemplo, ela chega a gritar com a televisão ao ouvir representantes de governos proferindo mentiras, chegando até a discutir com o marido sobre o assunto, um imigrante muçulmano buscando viver legalmente no Reino Unido, o que acaba alimentando ainda mais a vontade do governo de colocá-la atrás das grades. No papel de Martin Bright, jornalista sedento por grandes notícias, está Matt Smith, que mesmo sendo fundamental para a trama, sabe qual é o seu lugar em cena, dando todo o brilhantismo para a Keira Knightley; os dois inclusive, estabelecem o elo mais forte e racional da narrativa, justamente por elucidarem as motivações de cada lado: o lado de quem denunciou a fim de informar o povo sobre a verdade por trás do que é divulgado pelos governos, e o lado de quem sabe que possui o dever de informar, e que o jornalismo em sua essência também possui a forma de denúncia.



O filme ainda lembra muito dois grandes sucessos que tratam do mesmo tema, The Post - A Guerra Secreta (2018, inclusive indicado ao Oscar de Melhor Filme) e Spotlight (2016), justamente por inserir em seu roteiro como funciona toda a dinâmica do que acontece na redação de um grande jornal, como também, ressaltam questões feitas por grandes jornalistas: “Pra quem estamos trabalhando afinal?”, “Estamos sendo enganados?”. Ao assistir o filme torna-se impossível não nos lembrarmos de casos como o “Wikileaks” e “Edward Snowden”, que assim como Katharine Gun, colocaram seus valores pessoais acima de qualquer coisa para revelar ao mundo algo tenebroso que estava acontecendo; no caso de Katharine Gun, seu objetivo era impedir a invasão do Iraque e salvar vidas de civis inocentes. 

Katharine Gun não pensou em si quando resolveu revelar o documento confidencial à imprensa, ela pensou em pessoas inocentes no sentido mais sincero, e claro, enfrentou as consequências por isso. Segredos Oficiais ainda dá umas leves cutucadas em temas como imigração, pressões indiretas do governo a fim de levar adiante seus interesses e a infindável questão de “até onde você iria pela sua integridade e seus valores pessoais?”. 



Segredos Oficiais certamente entra para a lista de filmes no quais se evidencia que certos atos de altruísmo e grandeza tornam-se ainda mais extraordinários quando se originam de um indivíduo com um único objetivo de fazer justiça, muito provavelmente é o melhor filme lançado até aqui sobre os fatos que antecederam a Guerra do Iraque, até pelo fato de mesclarem a ficção com cenas reais de entrevistas do então presidente norte-americano George W. Bush e demais agentes do governo, dando ao filme um ordem cronológica fidedigna dos fatos, mostrando até a verdadeira Katharine Gun saindo do tribunal após o resultado do seu julgamento. O filme poderia até ser um documentário, de tão real que é, o importante é que, seja no campo da ficção ou da realidade, a história de Katharine Gun é um lembrete de que, enquanto houver pessoas com vontade de se fazer justiça, ela existirá.

Nota: 5 e-mails vazados com sucesso

Texto por: Vagner Matos 

Trailer:


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Midsommar - O mal não espera a noite tem um quê de dèjá vu com pontas de originalidade, mas peca por ser longo

Com influências de Corra!, da série Hannibal (principalmente perto do final do longa), com um quê de clima de Anticristo, sem deixar de lado A chave mestra, Colheita Maldita (filme inspirado na obra homônima de Stephen King), O homem de palha, e, como me disse a Ana, que é megafã de Supernatural, inclusive um episódio da série que sacrificava “estrangeiros”  em prol do “bem” da cidade de Burkitsville, no décimo-primeiro episódio da primeira temporada da série, tudo isso também é bem sentido em Midsommar – O mal não espera a noite. Com todas essas referências, senão inspirações, dá para imaginar o desconforto que o filme passa.


Com 147 minutos (171 na versão do diretor), ser longo é um problema no filme. As partes boas são realmente boas e chocantes, o culto e o que parece haver de muito sinistro por trás deles é bem estabelecido, mas os personagens, especialmente os secundários, não são muito aprofundados e, quando começam a “desaparecer”, a tendência é que o telespectador não ligue m…

O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio, uma bela repaginada em uma franquia querida

Neste ano vimos o retorno de várias franquias queridas (bem, ao menos queridas para os fãs delas, claro) muitos anos depois do último filme delas, como Rambo, Zumbilândia e Os 3 Infernais, mesmo depois daquele final épico. Então temos agora O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio. Porém, enquanto  os outros são continuações diretas, mesmo que muitos anos depois, do último filme lançado, este novo longa  de O Exterminador do Futuro é uma sequência direta de O Exterminador do Futuro 2 - O julgamento final, e veio para provar um de vários fatos que fazem dessa franquia um sucesso: a presença de Linda Hamilton. 
Repaginando a história, o filme já começa com cenas digitalmente refeitas para conectar o segundo da franquia a este. E é simplesmente incrível nessa reconstrução, pois a gente fica se perguntando se eram cenas que não foram para o filme de 1991 afinal, mas com o avanço da tecnologia (ai, ai, ai, rs), não notamos isso até que alguém nos conte a real. 

E temos um trio girl powe…

Mario Kart Tour: o que esperar do clássico para mobile?

Com certeza os amantes de Nintendo já souberam da novidade para celular! A Nintendo, diferente de outras desenvolvedoras, muito dificilmente libera um de seus jogos para outra plataforma. Mas como uma boa mãe sempre olha por seus filhos, ela nos deu esse pequeno presente que é o Mario Kart tour!
Em Mario Kart, Mario e seus amigos disputam emocionantes corridas de Kart em paisagens inspiradas em cenários clássicos da franquia. A versão original possuía apenas karts, mas agora temos também motocicletas e algumas telas necessitam de paraquedas para maior interação. Não é apenas um jogo de corrida, mas intensamente competitivo, com caixas surpresa espalhadas pela tela que te dão itens exclusivos para ganhar vantagem, derrubar os inimigos e destruir amizades. Cada circuito possui quatro telas e a pontuação é somada ao longo delas.


Essa versão desse clássico da Nintendo é um tour pelas telas mais queridas e famosas das outras versões (principalmente os clássicos, como Mario Kart 64 e o novo M…