O castelo animado - a maldição de Sophie é uma importante mensagem sobre amor próprio





Desde suas animações mais antigas, como Meu vizinho Totoro, O serviço de entregas de Kiki e O túmulo dos vagalumes, o estúdio Ghibli deixou de precisar de apresentações. Suas animações sempre trazem protagonistas fortes que lutam contra seus próprios demônios enquanto nos ensinam a vencer nossos próprios. Hoje, quero falar de uma especialmente importante para mim: Howl no ugoku shiro”, ou, em português brasileiro, O castelo animado.



Esse filme traz como protagonista a jovem chapeleira Sophie, que, como irmã mais velha e sem grandes expectativas, decide cuidar da monótona chapelaria deixada pelo pai enquanto a irmã trabalha em um café da cidade (chamando a atenção de diversos homens por sua beleza), e a mãe faz viagens internacionais com seu novo marido. Sophie claramente se sente inferior a sua mãe e irmã, tanto em intelecto quanto em beleza, e isso faz com que deseje uma vida apagada, sem jamais estar sob holofotes.



Sua história muda quando, ao ser parada e assediada por dois guardas, um belo jovem loiro de olhos verdes e um sorriso encantador finge estar em sua companhia para ajudá-la. O que ela não sabia é que isso era um disfarce para o próprio rapaz, que estava despistando espíritos invocados por uma poderosa bruxa. Os dois conseguem fugir e o jovem deixa Sophie em segurança no café onde sua irmã trabalhava. É claro que ela ouviu boatos sobre o belo mago Howl, que roubava o coração de jovens bonitas e os devorava, mas não havia por que acreditar que aquele era Howl e que ela teria esse destino, afinal, Sophie jamais seria bonita.



Ao voltar para sua chapelaria, Sophie é visitada pela temível Bruxa das terras abandonadas. Por ciúme, a bruxa lança um poderoso feitiço em Sophie, sobre o qual ela não pode contar a ninguém, dizendo que aquele é um recado para Howl. Ao se olhar no espelho, Sophie percebe que se tornou uma velha e nada pode fazer a respeito, além de deixar para trás tudo o que conhece e buscar um novo começo.

O mais curioso sobre tudo isso é como Sophie se conforma rapidamente com sua nova condição. Em um primeiro momento, parece que a velhice a deixa mais forte e confiante, pois assim ela não precisa se preocupar com as coisas que sempre a atormentaram, como sua falta de beleza (o que não é verdade e faz parte apenas de sua baixa autoestima) e talento. Tendo a velhice ao seu lado, Sophie tem a oportunidade de se deixar ser amada e cuidar das pessoas que se tornaram sua família, como Howl, Calcifer e Markl. Mesmo que sua ideia inicial tenha sido o isolamento e, graças à misteriosa ajuda de um espantalho, tenha encontrado e começado a viver como serva de Howl, pareceu reconfortante para Sophie poder assumir essa forma para se mostrar ao mundo sem os medos nem as inseguranças que a seguiam antes.



Isso me lembra uma frase sobre recomeços. Diversas vezes imaginamos que, se tivéssemos a chance de fugir, recomeçar em um lugar onde ninguém nos conheça e tudo seja novo, seríamos capazes de assumir uma nova personalidade e derrotar nossos demônios. A frase que discorda disso diz que “não importa para onde vamos, sempre teremos de nos levar conosco”. Não existe um modo de fugir de quem somos ou de nossos medos, mas Sophie encontra essa oportunidade inicial e, no decorrer da história, percebe que suas inseguranças ainda estão lá. Conforme sua confiança retorna, ela começa a se tornar mais jovem, mas, ao se depreciar e abraçar a velhice como sua aliada, ela se torna ainda mais velha.

Por outro lado, Howl é um jovem mimado, que não aceita que as coisas sejam diferentes do que deseja e prefere fugir e se esconder do que ter o trabalho de provar seu ponto. Isso muda conforme seu relacionamento com Sophie avança e ele percebe que a ama. Ele sabe que Sophie é uma peça-chave em sua história e a deixa livre para fazer suas escolhas. Apesar de seu imenso poder, Howl aceita Sophie como a heroína que é e espera ansiosamente que ela descubra sua própria força e quebre não apenas a maldição dela, como também a dele e de Calcifer.

"Por favor, Howl. Eu sei que posso te ajudar. Mesmo que eu não seja bonita e a única coisa que eu faça direito seja limpar.
Sophie! Sophie, você é linda!"

Confiança, amor próprio e cuidado são difíceis de colocar em prática, mas são os sentimentos que tornam o amor entre Howl e Sophie e o fim da guerra possíveis. Mesmo que Sophie não se veja com importância, confiar no sentimento de Howl e de todos que a amam é o grande ponto de aprender a lidar com seus demônios e quebrar a maldição. É claro que sempre ouvimos sobre amar a nós mesmos, sobre aprender a lidar com nossos defeitos e nos cuidar, mas não é possível fazer isso sozinhos. Todos precisamos de apoio e de pessoas que nos deixem livres para conhecer nossas identidades e nos libertar de prisões que nós mesmos criamos, pois, muitas vezes, não existem.

Não há nada de errado em recomeçar. Não há nada de errado em buscar novos ares. Mas é errado fugir de quem somos, do que aprendemos e de quem nos ama. Sempre será difícil lidar com nossos sentimentos e nossa visão sobre quem somos, ainda mais quando nos depreciamos tanto, mas apenas abraçando nossos defeitos é que podemos corrigi-los, aceitando quem somos e nos oferecendo a oportunidade de mudança.



Citando Bukowski:
“Ninguém pode te salvar
Além de você mesmo,
E você merece ser salvo.
Não é uma guerra fácil de vencer
Mas se vale a pena vencer algo
Com certeza é isso.”

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